11 de Setembro – o antes, o depois e as lições

É evidente que não se pode negar a força simbólica daquele espetáculo de violência, daquele até então impensável ataque ao coração do Império. Por isso mesmo, a data é necessariamente um divisor de águas. Mas ela não é o começo da história.

Relações Internacionais
15/09/2021
Salem Hikmat Nasser

É fácil, muitas vezes tentador, entregar-se à ilusão de que situações de grande complexidade teriam começado em alguma espécie de Big Bang histórico antes do qual nada existia.

Assim, enquanto nos ocupamos todos com o Afeganistão e com o que será dele, tendemos a aceitar que tudo o que há de relevante a saber se deu depois do 11 de setembro de 2001.

É evidente que não se pode negar a força simbólica daquele espetáculo de violência, daquele até então impensável ataque ao coração do Império. Por isso mesmo, a data é necessariamente um divisor de águas. Mas ela não é o começo da história.

Os ataques de 2001 permitiram aos Estados Unidos a consolidação de dois projetos, um já em marcha desde meados dos anos 1990 e o outro, antigo, mas atualizado pela equipe do Presidente Bush, o filho. O primeiro era a construção de um novo inimigo, substituto da União Soviética, e a escolha recaiu sobre o “terrorismo islâmico”. O segundo era a reformulação do Oriente Médio, a derrubada de regimes e a exportação da “democracia e dos valores liberais”.

O que poucos lembram é que, voltando um pouco no tempo, mais especificamente ao final dos anos 1970 e toda a década seguinte, aquilo que viria a se tornar a Al Qaeda e, mais tarde, Estado Islâmico, foi alimentado, financiado, treinado e de outros modos apoiado pelos Estados Unidos e seus aliados. Naquele período, convocou-se os jihadistas islâmicos, vindos do mundo inteiro, para lutarem contra a presença soviética no Afeganistão.

Uma vez vitoriosa essa campanha contra a União Soviética e uma vez encaminhada a decadência definitiva desse império, que deixaria os Estados Unidos na posição de única superpotência mundial, o Afeganistão ficou entregue a uma guerra civil sangrenta que só seria estancada e logo substituída pela emergência em poder do Talibã.

Muitos daqueles jihadistas que tinham sido atraídos para a luta no Afeganistão, cuja figura proeminente era Oussama Bin Laden, voltaram então suas energias para lutar contra a presença norte-americana em terras muçulmanas, uma presença física que se seguira à invasão do Koweit pelo Iraque, e logo do Iraque pelos Estados Unidos.

É essa luta que vai encontrar um seu momento maior nos ataques de 11 de setembro. A invasão do Afeganistão, que virá em seguida e durará por vinte anos, decorre do fato de que as lideranças da Al Qaeda tinham ali um refúgio e estavam protegidas pelo código de honra Pashtun pelo qual se deixa guiar o Talebã. Este não tinha qualquer envolvimento nos ataques.

Essa invasão será seguida, dois anos depois, pela ocupação do Iraque. Estava em marcha a reformulação do Oriente Médio. A passagem do tempo, no entanto, mostrou que o projeto era de impossível realização, ao menos na sua forma militar. As duas aventuras de invasão e ocupação vão se mostrando atoleiros, vão minando o poder americano e revelando os limites da mais impressionante força militar do mundo em situações de guerra assimétrica.

A ocupação do Afeganistão durou então vinte anos e é interessante notar que, ao longo de todo esse tempo, apenas muito raramente alguém se perguntava o que estaria se passando por lá. Tínhamos, aqui e ali, notícia de algum ataque que tivesse vitimado soldados americanos ou afegãos, mas não ficamos sabendo se de fato algo mudava nos indicadores sociais, no combate ao analfabetismo e à pobreza, na participação democrática.

Agora, quando os Estados Unidos se retiraram, e o fizeram de modo vergonhoso, de repente, o Afeganistão volta às manchetes e às mentes de todos nós. Mas, por alguma razão, não pensamos tanto nas falhas e nas faltas da até então potência ocupante, mas sim nos preocupamos com o que será agora do país, das suas mulheres entregues novamente ao que percebemos como um regime retrógrado e repressivo. Mal percebemos que este nosso foco serve a, em parte, eximir de responsabilidade aqueles que mandaram por tanto tempo no país, instalaram governos em nada representativos e extremamente corruptos, e em nada transformaram a realidade social.

Toda a aventura parece ter servido apenas a alimentar e financiar a indústria militar norte-americana e proteger os interesses geopolíticos dos Estados Unidos, até o momento em que a conta deixou de fechar e os planos precisaram ser mudados.

É verdade que o presidente norte-americano Joe Biden renegou a razão pela qual os Estados Unidos pretendiam intervir no Oriente Médio e no resto do mundo: ele declarou que não se tratava de construir nações ou implantar democracias, mas apenas de combater o terror. Esse abandono da visão original que, diga-se, não era propriamente a de implantar democracias genuínas, mas antes era a de implantar regimes sujeitos a vontade do império, é apenas um recuo tático, um modo de minorar a importância da derrota e das imagens constrangedoras que a retirada mostrou.

Trata-se apenas de um recuo momentâneo em relação a um pensamento que ainda domina a visão que o Império tem do Oriente e que, confessemos, é a regra entre nós, e que retrata uma boa parte do resto do mundo como sociedades incapazes de se autogovernarem e que necessitam da tutela do Ocidente. A nossa reação inicial à saída norte-americana do Afeganistão revela essa mesma leitura porque, no fundo, estamos nos perguntando: o que será agora dos afegãos, entregues a si mesmos?!

Está na hora de aprendermos e de convidarmos os Estados Unidos a aprenderem também, junto conosco, que democracia e direitos humanos não são, pela sua própria natureza, imponíveis pela força, e que, quando alguém disser que esta é a missão que empreende, que se trata necessariamente de uma mentira.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Salem Hikmat Nasser

    Professor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito SP), onde tem desenvolvido materiais didáticos e testado metodologias de ensino para as disciplinas relacionadas à regulação jurídica das relações internacionais. Doutor em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, obteve um DSU - Diploma Superior da Universidade em Direito Internacional Privado e um DEA - Diploma de Estudos Aprofundados em Direito Internacional Público - da Universidade de Paris II - Panthéon Sorbonne.

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