Adaptação climática, uma agenda de negócios

É necessário ampliar a percepção de risco no meio empresarial para que seja priorizado na avaliação de materialidade das organizações.

Políticas Públicas
19/06/2024
Mariana Nicolletti

A emergência climática é uma realidade presente. Vivemos essa crise agora mesmo, enquanto eu escrevo esse texto e enquanto você o lê, provavelmente em meio a tantas notícias sobre novos, recorrentes e crescentes impactos de tempestades, ciclones, secas e ondas de calor.

Eventos climáticos considerados extremos e "sem precedentes" vêm crescendo em frequência e intensidade ano a ano. Em 2023, segundo balanço da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, mais da metade dos 5.568 municípios brasileiros esteve em situação de emergência ou estado de calamidade. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) contabilizou 1.161 eventos de desastres atingindo mais de 14 milhões de pessoas, do Sul ao Norte do País, em uma ascendente de impactos em relação aos anos anteriores. Entre esses eventos, estão as tempestades que afetaram, ainda em setembro de 2023, pelo menos 49 municípios do Rio Grande do Sul.

Não são eventos isolados. Fenômenos climáticos naturais, como El Niño e La Niña, ganham efeitos devastadores no contexto da mudança global do clima (em 2023 a temperatura média da Terra ficou 1.45oC acima dos níveis pré-industriais) somados a fatores históricos e estruturais de vulnerabilidade socioeconômica e ambiental.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil, 10 milhões de pessoas moram em áreas de risco no Brasil, uma população que cresce junto à expansão urbana desordenada e a supressão de áreas protegidas. Ainda que as emissões de gases de efeito estufa (GEE) cessassem agora mesmo, caso estratégias de prevenção, contingência e resposta não sejam articuladas e colocadas em ação, desastres seguirão se sucedendo. De pano de fundo, os impactos ‘silenciosos’ seguem seu rumo: ondas de calor causam mais mortes do que enchentes ou deslizamentos de terra, é o que evidencia estudo publicado por sete universidades e instituições de pesquisa, dentre as quais a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Para a esfera pública, a emergência climática significa estresse adicional sobre sistemas já desafiados por baixos investimentos, infraestruturas pensadas para um clima do passado e padrões de uso e ocupação do solo que desconsideram riscos em prol de interesses imobiliários.

O setor privado, por sua vez, enfrenta custos mais altos e escassez de insumos, interrupção da produção e distribuição de produtos e serviços, impactos à saúde das pessoas trabalhadoras, aumento do custo de acesso a capital, além dos danos a ativos físicos. A sociedade como um todo é afetada pela inflação e, mais uma vez, os grupos sociais que mais sofrem são os de menor renda, em situações de vulnerabilidade socioeconômica.

As histórias das quase duas milhões de pessoas diretamente impactadas pelas consequências das chuvas no Rio Grande Sul contam que as perdas são imensuráveis. Em relação ao que se pode contabilizar, os prejuízos econômicos já ultrapassam R$ 25 bilhões somadas as esferas pública e privada. Como cobrir essas perdas e danos e financiar a reconstrução ainda é uma pergunta sem resposta definitiva. O mercado financeiro ainda busca dimensionar os impactos sistêmicos que alcançam tanto instituições financeiras concedentes, por exemplo, de crédito rural para produtores que perderam cultivos e equipamentos, quanto aos investidores com ações dos setores mais afetados.

Essa mais recente tragédia mostra, assim, que os eventos climáticos configuram não um novo vetor de risco para os negócios, mas de uma ampla mudança no ambiente de negócios para as empresas de todos os setores e portes, embora as micro e pequenas empresas tenham menor capacidade de resistir aos abalos e se adaptar. Vale lembrar que o Fórum Econômico Mundial vem retratando há anos, em seu Global Risk Report, como riscos climáticos vêm ganhando relevância para os negócios e potencializam outros riscos, como os relacionados a instabilidades geopolíticas, colapso dos ecossistemas e agravamento de doenças crônicas e infecciosas.

A lacuna de investimentos, políticas e ações de prevenção de riscos resulta em uma espiral de vulnerabilidades socioeconômicas, impactos e aumento de desigualdades. Essa espiral se aprofunda com investimentos em infraestrutura, tecnologia, moradia, unidades produtivas que desconsideram os riscos climáticos atuais e futuros.

Por outro lado, investir na prevenção é um bom negócio, tanto para governos quanto para empresas. A Comissão Global sobre Adaptação estima que cada 1,8 trilhão de dólares investido em adaptação entre 2020 e 2030 poderia resultar em benefícios equivalentes a 7,1 trilhões de dólares. Ainda, cada um bilhão de dólares investido em adaptação diante do risco de inundação costeira resultaria em uma redução média de 14 bilhões de dólares em danos econômicos, enquanto o investimento de 16 bilhões de dólares por ano em adaptação das atividades agrícolas evitaria a fome (como consequência da mudança do clima) de aproximadamente 78 milhões de pessoas.

Mesmo assim, os investimentos globais em adaptação ficaram em 63 bilhões de dólares entre 2021 e 2022, muito aquém dos 212 bilhões de dólares necessários anualmente até 2030 para os países em desenvolvimento se adaptarem e mesmo da meta de 100 bilhões de dólares anuais por ano até 2025, estabelecida no Acordo de Paris. Recursos financeiros precisarão vir de diversas fontes: setor público, cooperação internacional, bancos de desenvolvimento, filantropia e, também, do setor privado. O fato de que 98% do investimento total contabilizado em adaptação no Global Landscape of Climate Finance 2023 foi realizado pelo setor público traz a dimensão do desafio.

Para alavancar o investimento privado é preciso atuar em diferentes frentes, incluindo o desenvolvimento de novos mecanismos de transferência de riscos e de financiamento misto, as chamadas operações de blended finance.

Mas é fundamental também que pessoas gestoras, tomadoras de decisão nas empresas e investidoras conheçam os riscos presentes e futuros, além dos impactos já causados, direta e indiretamente, aos seus negócios pela crise climática. É necessário fortalecer a percepção de risco na população em geral, também no meio empresarial, para que o tema desponte na avaliação de materialidade das empresas dos mais diferentes setores e seja assumida como prioridade; mais que uma questão de competitividade, matéria de sobrevivência.

O Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces) pesquisa e atua na agenda de adaptação e resiliência climática junto a governos, empresas e organizações da sociedade civil para fortalecer capacidades adaptativas e evitar que a emergência climática seja uma crise humanitária. Em especial, desde 2013, o FGVces vem apoiando empresas de diferentes setores a elaborar suas estratégias de adaptação.

Nesses anos cresceu o interesse pelo tema, mas o contingente de empresas dispostas a desenvolver estratégias consistentes, que conectem ações e investimentos de curto, médio e longo prazo, ainda é incipiente. Mais raras são as organizações que encaram a agenda por uma perspectiva ampla de cadeia de valor e territorial, reconhecendo que as vulnerabilidades de seus fornecedores, compradores e consumidores, assim como dos territórios em que estão inseridas, configuram seus próprios riscos.

No mais, boa parte dos investimentos e ações atribuídos à adaptação climática pelo setor empresarial tem outra finalidade primária, não são pensadas a partir da compreensão dos riscos, além de serem, muitas vezes, medidas pontuais e de curto prazo, com benefícios limitados à esfera privada. Para lidarmos com os desafios colocados pela crise climática é necessário mais que o fluxo financeiro privado e atendimento emergencial em situações de catástrofe. As empresas podem contribuir também para uma agenda preventiva por meio, por exemplo, da sistematização, análise e disponibilização pública de dados e informações, pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias acessíveis alinhadas com a economia de baixo carbono e resiliente, proposição de mecanismos e arranjos financeiros e de transferência de riscos para que recursos alcancem áreas hoje pouco atraentes ao capital, disseminação de conhecimento e apoio ao fortalecimento de capacidades adaptativas junto a fornecedores, comunidades e organizações locais nos territórios de incidência. Territórios, cadeias de valor, comunidades e ecossistemas resilientes formam a base para um ambiente de negócios seguro e profícuo.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Mariana Nicolletti

    Lidera a agenda de pesquisas sobre adaptação às mudanças climáticas e gestão de riscos de desastres no Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP). É doutora em Administração Pública e Governo pela Escola e e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo.

Artigos relacionados

Últimos artigos

Esse site usa cookies

Nosso website coleta informações do seu dispositivo e da sua navegação e utiliza tecnologias como cookies para armazená-las e permitir funcionalidades como: melhorar o funcionamento técnico das páginas, mensurar a audiência do website e oferecer produtos e serviços relevantes por meio de anúncios personalizados. Para mais informações, acesse o nosso Aviso de Cookies e o nosso Aviso de Privacidade.