A alfabetização na idade certa

A exposição precoce à linguagem, o apoio familiar, a qualidade do ensino e a motivação são elementos-chave para garantir que as crianças atinjam a alfabetização com sucesso.

Políticas Públicas
14/11/2023
Priscilla Albuquerque Tavares

A alfabetização é um marco crucial no desenvolvimento de uma criança, influenciando diretamente seu sucesso acadêmico e, consequentemente, sua vida futura. Estimular a alfabetização plena envolve uma combinação de fatores essenciais. A exposição precoce à linguagem, o apoio familiar, a qualidade do ensino e a motivação são elementos-chave para garantir que as crianças atinjam a alfabetização com sucesso.

E é importante que se atinja esse marco na idade certa. Crianças que dominam a leitura e a escrita até os sete anos têm mais chances de se sair bem academicamente e de desenvolver habilidades cognitivas mais sólidas. Isso é fundamental para a compreensão de outras disciplinas, estimulando o pensamento crítico, a comunicação eficaz e a autoconfiança.

Nesse sentido, é fundamental a implementação de políticas educacionais eficazes. Investir na formação de professores, adotar métodos de ensino inovadores e avaliar constantemente o progresso dos alunos são passos cruciais para melhorar os índices de alfabetização. A promoção de um ambiente que estimule a leitura e a escrita tanto na escola quanto em casa também é de extrema importância. E fundamental, também, que os gestores escolares tenham boas medidas de monitoramento da alfabetização, para desenhar políticas de intervenção que deem conta de corrigir as deficiências e atrasos para garantir a alfabetização na idade certa.

No contexto brasileiro, a pesquisa Alfabetiza Brasil, realizada e conduzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), tem por objetivo aprimorar a qualidade da avaliação da alfabetização no Brasil, determinando as competências básicas identificadas pelo Saeb para considerar a criança plenamente alfabetizada aos sete anos. A metodologia da pesquisa envolveu a consulta a professores e especialistas, que permitiram identificar características definidoras de um aprendizado de habilidades básicas de leitura e de escrita que se pode definir como uma alfabetização inicial.

O estudante é considerado alfabético quando lê pequenos textos, formados por períodos curtos, e localiza informações na superfície textual; produz inferências básicas com base na articulação entre texto verbal e não verbal, como em tirinhas e histórias em quadrinhos; escreve textos para fins de uma comunicação simples: convidar, lembrar algo, por exemplo, mesmo que com desvios ortográficos. Apesar de ser um avanço na avaliação da alfabetização, especialistas consideram necessário ter expectativas mais ambiciosas em relação àquilo que os estudantes seriam capazes de realizar e sugerem a ampliação das habilidades que caracterizam a alfabetização inicial.

Os resultados da pesquisa Alfabetiza Brasil revelam uma diminuição na porcentagem da alfabetização infantil durante a pandemia. Enquanto em 2019, seis crianças em cada dez eram consideradas alfabetizadas, em 2021 esse número diminuiu para quatro. Esses dados evidenciam a necessidade urgente de estratégias eficazes para recuperar as perdas geradas pelo período da pandemia e promover a alfabetização.

Para superar esses desafios, o Brasil deve realizar um esforço contínuo e abrangente de valorização das políticas de primeira infância, implementação de estratégias pedagógicas eficazes e baseadas em evidências e investimento na formação inicial de professores.

O Programa Mais Alfabetização foi criado, em 2018, pelo Ministério da Educação (MEC), com o objetivo de dar apoio técnico e financeiro às unidades escolares no processo de alfabetização de estudantes nos primeiros anos do Ensino Fundamental. A ideia é que nas escolas beneficiadas o professor alfabetizador possa contar com o apoio de um assistente de alfabetização para conduzir as atividades em sala de aula e proporcionar atendimento mais individualizado a cada estudante.

Por outro lado, segundo levantamento feito pelo Todos pela Educação, a partir de dados do Censo da Educação Superior e do Enade, a proporção de alunos de graduação matriculados em cursos de formação docente (pedagogia e licenciaturas) na modalidade de ensino à distância (EaD) dobrou em uma década. Enquanto a taxa de concluintes de graduação em cursos EaD no Brasil era de 31% em 2022, nos cursos de formação docente essa taxa atingia a marca de 65% no mesmo ano (em 2012, era 34%). Nessa modalidade a qualidade da formação do professor fica comprometida, uma vez que o estudante tem pouca oportunidade de vivenciar a prática da sala de aula e aprender por homologia de processos.

Ou seja, no longo caminho a ser percorrido em direção à alfabetização plena na idade certa, o Brasil tem dado alguns passos para frente e outros tantos para trás. Sem uma política coerente, que atue adequadamente sobre a qualidade dos professores da alfabetização e as práticas e estratégias pedagógicas para os anos iniciais do Ensino Fundamental nunca saberemos responder à pergunta: para onde vamos?

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Priscilla Albuquerque Tavares

    Professora da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP), doutora em Economia pela FGV EESP, Mestre e Bacharel em Economia (USP). Pesquisadora nas áreas de Microeconomia Aplicada, Economia da Educação, Economia do Trabalho. Foi Assessora Técnica no Governo do Estado de SP e Consultora de avaliação de impacto para o PNUD, Banco Mundial, Unesco, Ministério da Educação e Ministério do Trabalho.

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