Análise da geração de postos formais em novembro de 2023

Em novembro houve saldo positivo de vagas formais, ante mesmo mês de 2023, mas com menor qualificação e maior desigualdade salarial entre mulheres e homens. Saldo de empregos de homens cresceu 118,3%; de mulheres caiu 14,8%

Economia
25/01/2024
Janaína Feijó
Giovana Ferreira

Este informativo analisa os dados mais recentes do Novo CAGED, divulgados pelo MTE, referentes ao mês de novembro de 2023. A análise contempla os últimos 12 meses.

o mês de novembro de 2023, o Brasil registrou uma criação líquida (admissões acima de desligamentos) de 130.097 postos formais de trabalho. Este resultado considera 1.866.752 admissões e 1.736.655 desligamentos. A criação de empregos representa um aumento de 1,8% em relação ao mesmo mês do ano passado (em 2022 tinham sido criados 127.832 postos[1]) e uma queda de 30,9% em comparação com a divulgação do mês imediatamente anterior (188.409 postos criados em nov/2023), conforme mostra o Gráfico 1.


 Fonte: Elaboração dos autores. Dados com ajustes declarados até novembro de 2023.

O saldo positivo agregado (130.097) foi puxado principalmente pelos saldos positivos do Comércio (88.706) e dos Serviços (92.620). As festividades de final de ano contribuíram para o bom desempenho desses setores. Vale salientar, que, conjuntamente, os dois setores registram um saldo superior ao saldo agregado, mas este ficou em um nível menor devido ao desempenho negativo da Agropecuária, Indústria e Construção. O setor do Comércio, apresentou crescimento de 75,3% em seu saldo em relação a out/2023 (50.588 postos), mas uma retração de 16,5% quando comparado com nov/2022 (106.268). Em relação aos Serviços, ocorreu queda de 14% (saldo de 107.633 postos) e crescimento de 6,3% (saldo de 87.162 postos) nos respectivos períodos de comparação.

Analisando a composição educacional dos empregos gerados (Tabela 1), observa-se que em nov/23 o saldo foi puxado majoritariamente pela contratação de pessoas com Médio Completo/Superior Incompleto. O saldo desse grupo educacional (140.204) representou 108% do saldo agregado (130.097). Essa representatividade foi maior do que no mês de out/2023 (83%), mas menor do que a registrada no mesmo período do ano anterior (117%).

Do total de empregos líquidos criados em nov/23, apenas 3,4% foram do grupo de Fundamental Completo/Médio Incompleto e a contribuição do Fundamental Incompleto para o saldo foi negativa (-12%). Vale salientar a perda de representatividade do grupo Superior Completo ou mais no saldo agregado, pois em out/23 e nov/22 detinha, respectivamente, 5,8% e 3,3% do saldo, mas no mês atual caiu para 0,8%.

Em relação a evolução da quantidade dos postos líquidos criados por nível educacional, o saldo dos postos de Médio Completo/Superior Incompleto, ainda que sendo o grupo com maior representatividade, apresentou queda quando comparado a out/23 (-10,9%) e a nov/22 (-6,6%). O grupo com as maiores variações negativas nas duas comparações foi o de Superior Completo ou mais, com quedas de 90% quando comparado a out/23 (diminuiu de 10.871 para 1.087) e 74,2% quando comparado a nov/22 (diminuiu de 4.214 para 1.087).


Fonte: Elaboração dos autores. Dados com ajustes declarados até novembro de 2023.

Essas movimentações sinalizam um possível aumento na demanda por postos de trabalho de Ensino Médio e uma queda por trabalhadores mais qualificados (com Superior Completo ou mais). Portanto, embora o nível educacional permaneça sendo relevante para se conseguir um emprego no Brasil, dada a características dos postos gerados, pessoas com Médio Completo foram absorvidas mais rapidamente no mercado de trabalho em nov/23.

O Gráfico 2 apresenta a composição de gênero dos empregos criados em nov/23 e o coloca em perspectiva ao mês imediatamente anterior e ao mesmo mês do ano anterior. Observa-se que em nov/23, a criação líquida de vagas formais registrou saldo de 34.732 e 95.356 para homens e mulheres, respectivamente. Se comparado ao mesmo mês do ano anterior (nov/22), o saldo de empregos dos homens cresceu 118,3% e o das mulheres caiu 14,8%. Além disso, nos três meses analisados ocorreram padrões similares na composição de admitidos e desligados: homens correspondendo a cerca de 60% das admissões/demissões e as mulheres a 40%.


Fonte: Elaboração dos autores. Dados com ajustes declarados até novembro de 2023.

Analisando a composição de gênero e educação, Tabela 2, observa-se uma maior quantidade de homens admitidos, em todos os grupos de escolaridade, com exceção do Superior Completo. Por outro lado, eles também passaram por uma quantidade maior de demissões. Tal fenômeno contribuiu para que as mulheres passassem a contribuir mais fortemente para o saldo positivo de nov/23, independente do grupo de escolaridade analisado.

A maior parte do saldo positivo estava relacionada ao grupo Médio Completo/Superior Incompleto. Sendo que as mulheres com Médio Completo/Superior Incompleto contribuíram com  64% do saldo agregado e os homens com a mesma escolaridade com 44%. Vale informar que a contribuição das mulheres com Médio Completo/Superior Incompleto em nov/22 foi maior (77%). 

Comparando os resultados de nov/23 com nov/22, se observa uma queda expressiva no nível de saldo de Superior Completo ou mais para os dois grupos, com queda de 86% para homens e de 69,8% para as mulheres. No caso do saldo das pessoas com Médio Completo/Superior Incompleto, somente as mulheres sofreram retração, apresentando uma queda de 15,3% em contraste com um aumento de 10,2% para os homens no saldo.


Fonte: Elaboração dos autores. Dados com ajustes declarados até novembro de 2023.

Em relação aos salários, verifica-se que o salário médio real de admissão foi de R$ 2.022 em nov/23, o que representa uma queda de 0,4% em comparação a out/23 e alta de 1,4% na comparação interanual. Já o salário médio real de desligamento foi de R$ 2.133, ou seja, teve alta de 0,8% em relação a out/23 e alta de 2,2% na comparação com nov/2022.  Essa dinâmica sinaliza que ao longo dos últimos doze meses o mercado de trabalho formal, na média, tem contratado pessoas a um nível salarial inferior ao das demissões.

Essa dinâmica está associada às demissões registradas de trabalhadores com Superior Completo. Esses trabalhadores recebiam maiores salários e consequentemente elevaram a média salarial das demissões. Em contrapartida, ocorreu um aumento de postos de Médio Completo, com menores salários do que os trabalhadores de Superior Completo, reduzindo a média salarial de admitidos.


Fonte: Elaboração dos autores. Dados sem ajustes e sujeito a atualizações nos próximos meses.
Salários em reais de novembro de 2023. Não incluem valores menores que 0,3 salários-mínimos
e maiores que 150 salários-mínimos, assim como vínculos da modalidade intermitente.

Também houve diferenças salariais entre gêneros, tanto nas admissões quanto nas demissões. O rendimento médio das mulheres admitidas foi de R$ 1.899 em nov/23, ou seja, 10% menor do que o dos homens admitidos (R$ 2.110). Esse gap de gênero foi maior do que os observados nos meses de ago/23 (9,1%), set/23 (9,3%) e out/23 (9,9%), mas menor do que o mesmo mês do ano anterior (11%). Ou seja, por quatro meses consecutivos, o gap salarial de gênero entre os admitidos vem se expandido, conforme mostra o Gráfico 4.A.

Entre os demitidos, o gap de gênero foi de 11%, maior do que o gap entre os admitidos. Por outro lado, esse gap tem permanecido relativamente estável nos últimos quatro meses, situando-se ente 10,9% e 11%, de acordo com o Gráfico 4.B. Vale ressaltar que houve ganhos reais nos salários médios dos homens e das mulheres entre nov/22 e nov/23, tanto na admissão quanto na demissão. Entre os admitidos, os ganhos foram maiores para as mulheres (2,0%) do que para os homens (0,9%). Já entre os demitidos, os ganhos dos homens (2,4%) ficaram acima dos das mulheres (2,1%). Além disso, a diferença entre salário médio de admissão e demissão, já anteriormente observada no agregado, permaneceu sob o recorte de gênero.

Elaboração dos autores. Dados sem ajustes e sujeito a atualizações nos próximos meses.
Salários em reais de novembro de 2023. Não incluem valores menores que 0,3 salários-mínimos
e maiores que 150 salários-mínimos, assim como vínculos da modalidade intermitente.

Uma parte dos diferenciais de salários médios entre homens e mulheres podem estar associados ao fato desses trabalhadores possuírem níveis educacionais diferentes. Por isso, o Gráfico 5 mostra as diferenças salariais entre homens e mulheres admitidos por nível de escolaridade no mês de nov/23.

Observa-se dois padrões no gráfico abaixo. O primeiro deles é que quanto mais elevada a escolaridade dos trabalhadores maior são as chances de conseguir postos com salários mais elevados, tanto para homens quanto para mulheres. O segundo padrão está relacionado ao fato de que independentemente do nível de escolaridade analisado, as mulheres registraram salários médios inferiores aos dos homens.


Elaboração dos autores. Dados sem ajustes e sujeito a atualizações nos próximos meses.
Salários em reais de novembro de 2023. Não incluem valores menores que 0,3 salários-mínimos
e maiores que 150 salários-mínimos, assim como vínculos da modalidade intermitente.

Os maiores diferenciais foram registrados nas categorias de Fundamental Incompleto e Superior Completo ou mais. No primeiro grupo as mulheres ganharam em média R$ 1.524, 15,6% a menos do que os homens (R$ 1.861). Já no grupo de Superior Completo, as mulheres (R$ 3.570) ganharam 29,3% a menos do que os homens (R$ 5.052). Alguns fatores como jornada de trabalho, tipo de ocupação e segmento setorial podem explicar uma parte dessas diferenças de gênero nos salários.

Por fim, este informe analisou o desempenho do mercado de trabalho formal recente, últimos 12 meses, buscando explorar as heterogeneidades educacionais, de gênero e salariais. Verifica-se que em nov/23 houve uma queda do nível de saldo de postos formais com Superior Completo quando comparado com out/23 e nov/22.

Nos recortes de gênero, constatou-se que as mulheres conseguiram contribuir proporcionalmente mais para o saldo positivo registrado em nov/23 por conta de terem sofrido menos com as demissões. Contudo, as mulheres apresentaram em média menores salários do que os homens, tanto na admissão quanto no desligamento. As diferenças salariais entre mulheres e homens na admissão têm crescido nos últimos quatro meses e atingiu 10% em nov/23. Portanto, em novembro, o mercado de trabalho formal se mostrou com menor qualificação e maior desigualdade salarial entre mulheres e homens.


[1] Considerando os dados com ajuste.

Este artigo foi publicado originalmente no Blog do IBRE em 17 de janeiro de 2024.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Janaína Feijó

    Pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV IBRE. Atualmente desenvolve pesquisas na área de mercado de trabalho, educação e desigualdades sociais. Doutora em Economia pela Universidade Federal do Ceará (CAEN UFC), mestre em Economia pela Universidade Federal do Ceará (CAEN-UFC) e bacharel em Ciências Econômicas (UFC).

  • Giovana Ferreira

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