Bigwaves nas Bigtech: a dinâmica das demissões na indústria de tecnologia

Em primeiro lugar, os avanços tecnológicos têm sido uma faca de dois gumes para o próprio setor: a inovação impulsiona o crescimento e a eficiência, mas também torna obsoletas as funções que antes tinham sido fruto de pesquisa e desenvolvimento – e investimento.

Administração
05/03/2024
Juliana Arcoverde Mansur

Nos últimos anos, a indústria tecnológica e as gigantes BigTech vêm testemunhando um fenômeno significativo: ondas massivas de demissões de funcionários. Embora alarmante, parece haver motivos não muito surpreendentes, porém não tão óbvios, segundo analistas do setor. Vários fatores contribuem para esta tendência perturbadora, cada um com seu papel fundamental na remodelação da dinâmica dessa indústria. Mas o que está por trás do aumento das demissões? Quais as condições que impulsionaram as empresas de tecnologia a seguir nessa direção?

Em primeiro lugar, os avanços tecnológicos têm sido uma faca de dois gumes para o próprio setor: a inovação impulsiona o crescimento e a eficiência, mas também torna obsoletas as funções que antes tinham sido fruto de pesquisa e desenvolvimento – e investimento. Ao passo que a automação e a inteligência artificial simplificaram os processos, ao mesmo tempo elas apontam para uma nova (e reduzida) demanda por mão de obra humana especializada.  Assim, à medida que as empresas adotam este mesmo caminho para reduzir custos e aumentar a produtividade, isso inevitavelmente se traduz em funções redundantes e, logo, em demissões. Nesse ponto, ainda há impacto da alta de crescimento de contrações durante e como resposta à Covid-19. Por exemplo, durante a pandemia, várias mudanças foram rapidamente implementadas com relação às plataformas de video, que exigiram contratação de mão de obra experiente, incluindo gerentes de produto, desenvolvedores, designers, etc. Desde então, os produtos amadureceram, levando a uma mudança do perfil profissional.

As flutuações do mercado e a antecipação de uma recessão da economia também têm atuado como um fantasma para os executivos das BigTech. Essas empresas operam num mercado global volátil, onde as incertezas econômicas são comuns. Assim, antecipando um momento de crise, a pressão para reduzir os orçamentos e otimizar as operações resultam em processos demissionais. A decisão estratégica para enfrentar a tempestade e manter a rentabilidade em meio a condições econômicas desafiantes é a redução de custo com pessoal. Aqui entra mais um fator: a pressão dos investidores por decisões rápidas para contrapor a desaceleração do crescimento e fluxos de caixa negativos, ainda por conta do super investimento no período pandemia.

Em terceiro lugar, a evolução das preferências dos consumidores e das tendências do mercado exercem uma influência significativa nas gigantes. Num cenário digital em ritmo acelerado, a pressa (e pressão) por adaptação esbarra na incapacidade de antecipar as mudanças do mercado ou de dinamizar, de forma eficaz, os produtos ou serviços, levando a perda de fatias de mercado e queda de receitas. Nesse sentido, quando se fala de receita, as BigTech não contam apenas com o mercado consumidor, mas são dependentes também do mercado da publicidade, que vem se reposicionando com relação a quando, como e onde investir.

Juntas, as mudanças relacionadas ao consumidor e ao mercado publicitário – seja com o aumento dos softwares de bloqueio de anúncios, as preocupações com a privacidade, as novas preferências e comportamentos – direcionam os anunciantes a procurar canais alternativos ou adotar estratégias de marketing mais direcionadas e econômicas. Além disso, as alterações jurídicas e desafios legais relacionados com as práticas publicitárias também representam riscos adicionais relacionados à conformidade, exigindo a reestruturação da força de trabalho, seja como forma de compensar possíveis despesas legais e multas, ou para para mitigar riscos e cumprir as regulamentações em evolução.

​Por último, mas não menos importante, a má gestão corporativa e os conflitos internos também atuam como gatilhos para demissões. Decisões estratégicas inadequadas, conflitos de liderança e incompatibilidades culturais estimulam a implementação de iniciativas de reestruturação. Assim, as demissões em massa são uma saída para simplificar as operações, eliminar ineficiências e restaurar a confiança dos investidores.

De todo modo, o que a indústria tecnológica vem testemunhando com relação às “ondas” de demissões – e que são maiores para as maiores – compõe um fenômeno multifacetado, moldado por vários fatores externos e internos. Desde perturbações tecnológicas, até crises econômicas e pressões regulamentares, estas causas sublinham a natureza volátil e complexa do setor. Enfrentar estes desafios requer estratégias proativas, liderança ética e um compromisso de promover uma força de trabalho resiliente e capaz de se adaptar às circunstâncias em constante evolução.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Juliana Arcoverde Mansur

    Professora Adjunta e Pesquisadora na área de Comportamento Organizacional. Seu foco é em Liderança, Questões de Gênero, Sustentabilidade e na Relação Indivíduo-Organização. É professora de Métodos de Pesquisa, Psicologia, Comportamento Organizacional, e Liderança e Equipes nos programas de Mestrado e Graduação da FGV EBAPE. Atua como pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Aplicada em Gestão de Pessoas e Sustentabilidade da Escola.

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