Brasil: 2023 em cinco (longos) parágrafos

Não vemos espaço para cortes da Selic em 2023, e não esperamos que meta de inflação seja cumprida no horizonte relevante da política monetária. A economia tende a crescer pouco em 2023, com risco de ativismo governamental.

Economia
01/03/2023
Livio Ribeiro

As incertezas externas são relevantes – e o cenário pode mudar de forma abrupta. Enuncia-se um ano com desaceleração do crescimento global, puxado pela menor expansão das economias desenvolvidas[1]. A política monetária global avançará ainda mais em terreno restritivo, fazendo o (duro) trabalho necessário para promover a convergência inflacionária ao longo do horizonte relevante para a política monetária. Com o fim (bastante atabalhoado) da política de Covid-zero, a China tende a ser vetor positivo para o crescimento global em 2023, com expansão do PIB superior à observada em 2022. A intensidade da retomada chinesa segue em aberto, com duas correntes de pensamento que diferem no comportamento cíclico do consumo privado e na importância das restrições sanitárias para a postura defensiva dos consumidores que foi observada após a eclosão da Covid – não é claro qual será o real impacto do abandono da política de Covid-zero sobre o consumo das famílias chinesas.

No Brasil, a mudança de governo veio acompanhada de novas diretrizes econômicas – com preferência revelada por expansão dos gastos públicos. A agenda social ganha renovado protagonismo, mas vem acompanhada de uma narrativa – em nossa visão equivocada – que contrapõe responsabilidade social e gestão responsável do Erário. Os primeiros sinais do governo, alguns até anteriores à posse, indicam uma clara predisposição ao aumento dos gastos, sem clara compensação do lado das receitas. O Teto dos Gastos será substituído por outra regra fiscal, e o resultado das “Medidas de Recuperação Fiscal” é absolutamente incerto. O governo sugere disposição em avançar na reforma tributária, tendo como provável resultado um aumento da carga líquida de impostos. A agenda de eficiência, com racionalização dos dispêndios e avaliação criteriosa de políticas públicas, está ficando em 2º plano.

A falta de coordenação entre as políticas fiscal e monetária será um grande desafio neste governo. Com importante ajuste monetário prévio e com um mundo, em condições normais, liquidamente desinflacionário, muitos analistas esperavam um relevante ciclo de redução da taxa Selic em 2023. Sempre tivemos a opinião, na BRCG, de que as dúvidas de coordenação entre as políticas monetária e fiscal seriam muito maiores do que o mercado imaginava, exigindo a manutenção dos juros estáveis em 13,75%a.a.a até o fim deste ano. Os eventos e sinalizações recentes sugerem que o nosso cenário, não-consensual há alguns meses, está se tornando o central. Temos ressalvas quanto à necessidade de elevação dos juros em 2023, como já defendem alguns, mas estamos convictos de que o espaço para cortes de juros só aparecerá em 2024 – e será menor e mais atrasado do que muitos imaginam.

A inflação ficará acima da meta durante todo o horizonte relevante. Mesmo com taxa Selic em terreno restritivo, esperamos uma lenta convergência da inflação às metas. Projetamos IPCA de 4,8% em 2023 e de 3,4% em 2024, com a taxa Selic caindo para 11,50% no decorrer do ano que vem (a partir do 2º trimestre de 2024). Intervenções nos preços (especialmente de bens administrados) e medidas de natureza fiscal (como a manutenção de desonerações tributárias) tornam a avaliação do cenário particularmente difícil - efeitos positivos sobre a inflação de curto prazo podem ser anulados, a médio prazo, por uma piora na percepção de disciplina fiscal, levando à desancoragem das expectativas de inflação.

Constrói-se um cenário de parco crescimento, o que amplia a probabilidade de “ativismo governamental”. Esperamos, na BRCG, crescimento do PIB de somente 0,6% em 2023, refletindo a política monetária restritiva e a transição de prioridades do governo durante este ano. As políticas fiscais expansionistas tendem a maximizar o crescimento da absorção interna, o que não necessariamente se converterá em expansão do PIB. Os desafios estruturais da economia brasileira seguem relevantes, com baixa produtividade e competitividade. As políticas públicas sinalizadas não atacam os fatores determinantes de nosso pouco dinamismo, e, a depender do que for feito, podem reforçar nossa mediocridade. Seguimos presos em uma armadilha de ineficiência e baixo crescimento.


[1] Texto originalmente publicado como Destaque BRCG. Disponível no site.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Livio Ribeiro

    Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), com mestrado e graduação em economia pela PUC/Rio. Foi chefe da divisão de estudos econômicos da FIRJAN e trabalhou em diversas instituições financeiras internacionais, cobrindo Brasil, China e paises exportadores de commodities da América Latina, África, Ásia e Oceania.

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