Brasil para elas

O gap de gênero nas intenções de voto é fenômeno recente na democracia brasileira. Desde 1989, a primeira eleição após a redemocratização do país, todos os principais candidatos à Presidência receberam apoio semelhante entre os gêneros.

Economia
07/04/2022
Cecilia Machado

Nas últimas semanas, diversas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais foram divulgadas. Comparar e interpretar cada novo resultado não é tarefa simples: há diferenças nas amostras, nos questionários de entrevista, ou mesmo na forma como a informação é coletada, se por telefone ou em entrevistas presenciais. Mas, apesar das diferenças, é possível traçar um padrão recorrente nos resultados: o gap de gênero nas intenções de voto para o candidato Jair Bolsonaro.

De acordo com a mais recente pesquisa do Datafolha, 30% dos homens e 29% das mulheres declaram intenção de voto em Lula, um gap de gênero de um ponto percentual, enquanto 29% dos homens e 18% das mulheres declaram intenção de voto em Bolsonaro, um gap de gênero de 11 pontos percentuais (pp). O gap de gênero nas intenções de voto também está presente nas mais recentes pesquisas da Modal Mais (17,9 pp), Instituto Paraná (11,5 pp), PoderData (8 pp), BTG (11 pp), Genial (11 pp) e Ipespe (12 pp).

Se de um lado é evidente que as mulheres estão menos inclinadas a votar em Bolsonaro, também é verdade que elas fazem parte de um eleitorado mais indeciso: pelo Datafolha, 25% dos homens e 39% das mulheres não sabem em quem irão votar. Os números indicam que o gap de gênero nas intenções voto -seja para Bolsonaro, seja na indefinição da escolha- é uma novidade que deve passar a ser explorada nas campanhas dos principais presidenciáveis.

O gap de gênero nas intenções de voto é fenômeno recente na democracia brasileira. Desde 1989, a primeira eleição após a redemocratização do país, todos os principais candidatos à Presidência receberam apoio semelhante entre os gêneros. Inclusive em eleições disputadas por candidatas mulheres, como nas duas vitórias de Dilma Rousseff. Mas, em 2018, pesquisa realizada pelo Datafolha às vésperas do segundo turno (25/10/18) indicava que 55% dos homens e 42% das mulheres votariam em Bolsonaro, um gap de 13 pontos percentuais. Naquele ano, Bolsonaro levou as eleições devido à vantagem de votos que teve no Sul e no Sudeste, apesar do gap de gênero.

O que então explica essa nova postura do eleitorado feminino brasileiro? O menor interesse das mulheres pela política as teria tornado indecisas? Ou há maior demanda das mulheres por políticas assistenciais -uma bandeira tradicionalmente associada à agenda de esquerda?

Nenhuma dessas hipóteses convence: hoje as mulheres são a maioria do eleitorado e comparecem às urnas em maior proporção que os homens. Além disso, a votação em partidos de esquerda pelas mulheres ocorre em todos os extratos de renda e escolaridade, e políticas assistenciais vêm sendo praticadas por governos dos mais variados espectros ideológicos, a exemplo do Auxílio Brasil no atual governo. Muito mais interessante é a perspectiva apresentada por Cascio e Shenhav em "A Century of the American Women Voter".

Para elas, não foram as mulheres que mudaram. Mas sim os partidos políticos e a plataforma de seus candidatos, com marcada posição sobre os direitos das mulheres e às pautas de gênero. Em 1980, o Partido Republicano dos EUA, sob o comando de Reagan, abraçou uma série de posições antiaborto e contra a cláusula constitucional de igualdade de direitos, inaugurando o gap de gênero nas intenções de voto da democracia americana.

Aqui no Brasil, esquerda e direita nunca tiveram posições marcadamente antagônicas com relação ao papel das mulheres na sociedade. Ao contrário, a total ausência de planejamento do governo em pautas direcionadas ao eleitorado feminino ao longo das últimas décadas é coerente com um perfil de votação que independe do gênero.

Diversos temas sensíveis, como aborto ou licenças parentais compartilhadas, são assuntos não nomeados por nenhum candidato em passado recente.

Até 2018, Bolsonaro iniciou no país uma discussão francamente aberta sobre como ele vê o papel da mulher na sociedade, se tornando grande responsável pelo gap de gênero nas intenções de voto que surgiu no Brasil. Em 2022, o cenário será diferente.

A conquista do eleitorado feminino se tornou peça-chave para a vitória, em eleição polarizada e disputada voto a voto. Restam poucas dúvidas de que, desta vez, o próximo presidente do Brasil será decidido pelo eleitorado feminino.

O artigo foi originalmente publicado no Jornal do Comércio em 29/03/2022

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Cecilia Machado

    Atualmente é professora assistente da Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e research affiliate do Institute for the Study of Labor (IZA). Possui graduação em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002), mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2005) e Doutorado em Economia por Columbia University (2010). Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Microeconomia Aplicada, Economia do Trabalho e Econometria.

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