Covid-19, suas variantes e o novo normal

A contribuição da população, a conscientização e as ações das três esferas do governo, realizadas de maneira integrada e com base em evidências científicas, são vitais para o controle da pandemia e a mitigação das suas consequências.

Administração
03/09/2021
Walter Cintra Ferreira Junior

Os números de casos e de mortes pela Covid-19 e a baixa taxa de cobertura vacinal completa da população revelam o fracasso do Brasil no combate à pandemia. Fracasso difícil de aceitar considerando a nossa experiência mundialmente reconhecida em campanhas de vacinação e a qualidade dos nossos profissionais, cientistas e pesquisadores, bem como a estrutura do nosso Sistema Único de Saúde. Na corrida contra a Covid 19, estamos perdendo feio e pagando o alto preço de centenas de milhares de vidas perdidas, cujas mortes eram totalmente evitáveis.

Após um ano e meio de pandemia o cenário é desolador. Economia destroçada, 15 milhões de desempregados, inflação e juros em ascensão. Milhões de jovens dos setores mais vulneráveis da população fora da escola, alijados que estão do acesso aos meios de ensino à distância e à internet. Meio ambiente literalmente pegando fogo. Crise hídrica que nos ameaça com a volta dos apagões de energia elétrica. Os números de casos novos e de mortes por Covid 19 estão em queda, mas a média móvel diária de óbitos ainda apresenta cifras preocupantes.

As ações do Ministério da Saúde para o combate à pandemia têm se dado com atrasos, com erros técnicos grosseiros e com conflitos com os estados e municípios. As estruturas e equipes técnicas do Ministério da Saúde foram desmontadas por um governo negacionista e incompetente e que deliberadamente jogou o país numa crise política e institucional. Desde o começo da pandemia, o governo federal tem disseminado informações falsas minimizando a gravidade da situação, divulgado e promovido terapias comprovadamente ineficazes, como o tratamento precoce com cloroquina, desacreditado as vacinas e as medidas protetivas não farmacológicas como o uso de máscaras e o distanciamento social, e pior, tem patrocinado sistematicamente comportamentos de risco como a aglomeração de pessoas, além de atacar os governos municipais e estaduais quando estes assumem postura mais ativa no combate à pandemia. O Ministério da Saúde falhou na aquisição, na logística e na distribuição de insumos, testes e vacinas, sendo notória a sua omissão no colapso de fornecimento de oxigênio medicinal nos serviços de saúde em Manaus.

Para controlar a pandemia é preciso interromper, ou ao menos reduzir drasticamente a circulação do vírus. São tão fundamentais o uso de máscaras, a constante lavagem das mãos e o distanciamento social, porque reduzem o risco de o vírus passar de uma pessoa para a outra. Além disso, é necessária a imunização coletiva de pelo menos 70% da população através da vacinação. A imunidade desenvolvida a partir da infecção pela Covid-19 tem se mostrado inferior à obtida pela vacinação. Entretanto, nem a vacinação nem a infeção pela Covid 19 impedem que a pessoa venha a se reinfectar e desenvolver um novo quadro da doença. A vacinação completa protege bem contra quadros graves e de morte, sendo muito mais raras essas ocorrências nas pessoas vacinadas.

Se uma pandemia por coronavírus era um evento esperado pelos especialistas em saúde pública e pelos epidemiologistas, a Covid 19 surpreendeu a todos pela velocidade de transmissão e principalmente pela variedade de apresentações clínicas e níveis diferenciados de gravidade. Tanto o quadro agudo da doença, como o período de reabilitação e a gravidade das sequelas variam muito de pessoa para pessoa.

A permanência do vírus em circulação nas populações não imunizadas aumenta o risco de surgirem variantes que causem quadros mais graves, sejam mais infectantes, ou ainda, o nosso maior temor, que escapem da proteção das vacinas atualmente disponíveis.

As variantes identificadas até o momento, (Alfa no Reino Unido, Beta na África do Sul, Gama no Brasil, Delta na Índia e Lambda no Peru) estão cobertas pelas vacinas. Ocorre que ainda estamos muito longe de atingir a imunidade coletiva no Brasil. No mundo a disparidade de acesso às vacinas é muito grande. De nada adiantará os países ricos terem suas populações totalmente vacinadas enquanto as nações pobres permanecerem sem acesso às vacinas e se convertem em celeiros de novas variantes do vírus.

Há fortes indícios que, mesmo após controlarmos a pandemia, a Covid-19 permaneça um longo tempo entre nós e que a vacinação contra este agente passará a integrar o calendário de vacinação dos países, tal qual ocorre com a vacinação contra a Influenza.

O grande aumento de casos pela variante Delta em vários países, inclusive o Brasil, alerta para o risco de uma nova onda. Portanto, ainda não é hora de pensar em voltar à vida normal. As atividades profissionais, de educação ou lazer terão que ser controladas, mantendo-se uso de máscaras e distanciamento entre as pessoas. Os locais fechados deverão ser evitados. O certificado de vacina deverá ser exigido para acesso a eventos e locais de concentração de pessoas. Quem apresentar sintomas deverá ser testado e, em caso positivo, deverá ser colocado em quarentena e os contactantes deverão ser rastreados e avaliados.

As ações das três esferas de governo, realizadas de maneira integrada e com base em evidências científicas, são vitais para o controle da pandemia e a mitigação das suas consequências. Mas, apenas será possível vencer a Covid-19 se a população assumir o papel que lhe cabe nesta guerra e adotar as medidas protetivas preconizadas pela Ciência e atender prontamente o chamamento da vacinação.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Walter Cintra Ferreira Junior

    Doutor, mestre e professor pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP FGV). Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina Universidade de São Paulo (1985). Coordenador do Curso de Especialização em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde - FGV- SP, de abril de 2015 a junho de 2020. Membro do FGV Saúde - Centro de Estudos em Planejamento e Gestão em Saúde da EAESP-FGV. Foi diretor de hospitais públicos e privados, bem como gestor público nas Secretarias Estadual e Municipal de Saúde de São Paulo.

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