Da roda de fiar à inteligência artificial: onde está o Brasil e como seguir em frente?
A história mostra que países podem se tornar desenvolvidos em uma ou duas gerações ao aproveitar ondas de transformação tecnológica – mas apenas quando combinam inovação com educação, reforço às instituições e inserção global. China, Coreia do Sul, Finlândia, Irlanda, Israel, Singapura e Taiwan, todos são alguns exemplos de países que, lançando-se à tecnologia sem deixar de escorá-la por políticas sociais, desenvolveram-se ao longo de relativamente pouco tempo. Hoje, vivemos a emergência de (pelo menos) uma nova tecnologia que, se bem aproveitada, poderia desenvolver o Brasil: a Inteligência Artificial.
Seria soberba dizer que o Brasil está bem-posicionado para surfar essa onda. Mas se não somos a cabeça do leão, tampouco somos a cauda do elefante.
São quatro os recursos escassos da IA: dados, chips, energia e pessoas. Dados temos a dádiva de ter. Com uma população grande e diversa, o Brasil tem o privilégio de gerar imensos volumes de informação – em saúde, finanças, educação e muito mais. Bases como as do SUS ou do PIX são verdadeiros tesouros nas mãos de quem sabe usá-las. O desafio, porém, está no ecossistema: dados ainda dispersos entre órgãos, em formatos incompatíveis e sob regras de acesso complexas. A falta de interoperabilidade, o receio jurídico de compartilhamento e a ausência de uma cultura sólida de governança fazem com que uma das nossas maiores riquezas siga subutilizada. Felizmente, iniciativas como a Estratégia de Governo Digital e a Infraestrutura Nacional de Dados Abertos mostram que estamos começando a endereçar essas questões.
Chips são o dia de praia que perdemos dormindo. A produção de chips requer terras raras. O Brasil detém entre 18 e 23% das reservas globais de terras raras, o que nos torna a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Poderíamos ter uma atuação relevante no comércio internacional de terras raras se não fôssemos tão incipientes no âmbito da produção: meros 0,005% da produção global é brasileira, segundo dados do United States Geological Survey (USGS) em 2024. Exportamos o minério bruto e importamos os chips prontos, capturando o risco ambiental da mineração e deixando escapar o valor agregado da indústria.
Energia é nossa vantagem comparativa mais clara. Enquanto o mundo tem, em média, 38% de eletricidade renovável, o Brasil já conta com 84% de sua matriz elétrica limpa. Se conseguirmos endereçar o risco de curtailment sem recorrer às termelétricas, uma matriz energética como a nossa nos coloca em posição privilegiada para sediar centros de dados e treinar modelos de IA com impacto climático reduzido. Mas o potencial perece. Países
desenvolvidos correm para expandir suas fontes renováveis, e a janela para nos posicionarmos como destino da indústria de IA pode se fechar rapidamente.
Pessoas são nosso maior desafio. O Brasil forma em torno de 53 mil profissionais de TI por ano, enquanto a demanda é de 159 mil, segundo a projeções da Brasscom. A formação em Engenharia também perde fôlego: entre 2018 e 2023, o número de formandos em cursos de Engenharia caiu quase 30%, de modo que em 2024 a Confederação Nacional Da Industria (CNI) estimava um déficit de 75 mil engenheiros no país.
Não faltam cérebros, mas falta um projeto nacional capaz de canalizar talento para áreas estratégicas para a indústria. Os cursos de Engenharia, com raras exceções, estão muito longes da indústria. Nesses cursos, professores não são avaliados pela inovação que produzem em setores estratégicos, mas por publicarem em revistas científicas – preferencialmente estrangeiras. Assim, muitos alunos concluem o curso de Engenharia com domínio técnico para desenvolver um produto inovador, mas sem saber demonstrar seu valor para a indústria ou elaborar um projeto para buscar financiamento. Embora existam exceções importantes, as agências públicas de fomento ainda precisam avançar no papel de articulação entre universidades e empresas, estimulando projetos conjuntos e financiando também o registro de patentes. Professores que colaboram com o setor produtivo deveriam ter critérios de avaliação específicos, com menor peso para publicações científicas e maior reconhecimento pela aplicação prática do conhecimento — inclusive por meio de uma carreira em Y que valorize trajetórias voltadas à inovação. A política de inovação só ganhará escala quando os cursos de Engenharia caminharem lado a lado das necessidades da indústria.
Mas abraçar a tecnologia não basta para desenvolver um país. Se, por um lado, há ampla base acadêmica de que as revoluções tecnológicas do passado criaram mais empregos que eliminaram, os empregos somem e surgem para pessoas distintas. Quem perde o emprego, muitas vezes, não consegue se qualificar o suficiente para empregar-se utilizando a nova tecnologia. Precisa se recolocar de outra forma. Entram aí as políticas públicas. De fato, os países citados no início do artigo que se desenvolveram rapidamente em poucas gerações não o fizeram apenas por investirem em novas tecnologias. O crescimento deles foi resultado de políticas públicas que qualificaram a mão de obra, fortaleceram instituições, promoveram a estabilidade econômica, estimularam as exportações e a atraíram investimentos domésticos e estrangeiros. Além disso, o contexto geopolítico e a integração com o mercado global também foram importantes. Foi essa combinação que criou um ambiente favorável para que a inovação tecnológica impulsionasse o desenvolvimento desses países.
Abraçar a tecnologia não é, de fato, uma escolha. Deixar de abraçá-la significa ver o mundo tornar-se mais produtivo enquanto nós ficamos para trás. Isso não é proteger empregos, pelo contrário: é tornar o Brasil cada vez mais um país de mão-de-obra barata e de pouca relevância na economia global.
A história da Bela Adormecida já nos ensina isso. Lá, uma tecnologia (a roda de fiar) traz consigo uma maldição (o sono, que, como o desemprego, põe fim ao trabalho). Querendo proteger a filha do feitiço, o rei e a rainha decidem banir a tecnologia no reino! Mas a vida toma rumos inesperados e, um dia, Aurora encontra uma roda de fiar. Sem saber o que é nem como utilizá-la, espeta o dedo! Se o rei e a rainha tivessem mostrado uma roda de fiar à filha, ensinado como usá-la, onde pode ou não pode mexer, a tragédia teria sido evitada. A cura para o feitiço de Malévola era a capacitação. Ao invés de isolar a filha na floresta aos cuidados de fadas superprotetoras, melhor teria sido educá-la para ser rainha.
*Artigo publicado originalmente no Valor Econômico em 24/10/2025
Autores

Felipe Buchbinder
Professor do curso de Graduação da FGV EBAPE. Possui vivência internacional em Lyon (França), onde realizou um ano de sua graduação com bolsa da CAPES, e em Londres (Reino Unido), onde foi… ver maisFelipe Buchbinder
Professor do curso de Graduação da FGV EBAPE. Possui vivência internacional em Lyon (França), onde realizou um ano de sua graduação com bolsa da CAPES, e em Londres (Reino Unido), onde foi alfabetizado. Interessa-se, sobretudo, pelo desenvolvimento de modelos matemáticos e estatísticos aplicados à Administração, com ênfase particular às áreas de Estratégia Competitiva e Negócios Internacionais.