Comunicação

Da violência simbólica ao feminicídio: o que o ritual do 25 de novembro representa para as mulheres

Patricia Werner

O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres foi instituído pela ONU em 1999 e marca, anualmente, o início de uma campanha global para reflexão e ativismo sobre o tema, convocando as sociedades a recordar não apenas os episódios mais brutais, como casos de feminicídio, mas sobretudo os regimes históricos, simbólicos e institucionais que permitem esses diferentes tipos de violência contra mulheres.

Um ritual que se inicia, mundialmente, em 25 de novembro – e se estende até 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos – é mais do que uma mobilização datada. Ritualizar é um processo fundamental para o campo da Comunicação, ao passo que conecta narrativas, símbolos e experiências. Como defende Paulo Nassar, “os rituais alinham passado, presente e futuro, dando forma ao que uma sociedade escolhe lembrar, celebrar ou transformar”. Um tempo social de suspensão provisória do cotidiano: 16 dias dedicados a iluminar aquilo que, ao longo do ano, tende a ser silenciado ou normalizado. Portanto, reconhecer a persistência histórica da violência contra mulheres é uma forma de confrontar os mecanismos visíveis e invisíveis que a sustentam.

A dimensão transnacional do problema foi reavivada recentemente pelo caso de Gisèle Pelicot, na França, cujo desfecho judicial em 2024 trouxe à luz a engrenagem subterrânea de abusos sistemáticos praticados ao longo de quase uma década. A repercussão internacional recorda que a violência contra mulheres não é um desvio, mas um fenômeno estrutural das sociedades contemporâneas.

No Brasil, apesar da força normativa da Lei Maria da Penha, que completará 20 anos em 2026, os indicadores permanecem alarmantes. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, foram 966.785 novos casos de violência doméstica registrados em 2024, somados a mais de 1 milhão de processos pendentes. O Ministério das Mulheres, em seu Relatório Anual Socioeconômico, contabilizou 1.450 feminicídios no mesmo período. E a pesquisa “Visível e Invisível”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indica que 37,5% das brasileiras sofreram alguma forma de violência no último ano; são elas: física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral.

Mas a chave interpretativa desse fenômeno não se restringe apenas à vida adulta. De acordo com o Ministério dos Direitos Humanos, 657 mil denúncias de violações contra crianças e adolescentes no geral foram registradas em 2024, um aumento de 22,6% em relação ao ano anterior. Como observa Luciana Temer, diretora do Instituto Liberta, vive-se uma “epidemia silenciosa” cujo epicentro está na intersecção entre desigualdades de gênero e vulnerabilidades infantojuvenis. A Fundação Abrinq mostra que 73,5% das vítimas de violência sexual tinham menos de 19 anos, sendo 87% meninas. Segundo a juíza Vanessa Cavalieri, a violência contra mulheres se manifesta, na maioria dos casos, no próprio interior das relações familiares, em dinâmicas que raramente chegam às estatísticas, mas estruturam trajetórias inteiras.

Compreender esse cenário implica reconhecer que a violência contra meninas e mulheres não é um acidente social, mas a expressão de uma desigualdade de gênero estrutural, sedimentada ao longo de séculos e continuamente reinscrita nas formas de convivência e nas narrativas coletivas. Diversos estudos mostram que a violência de gênero se sustenta menos em atos isolados e mais em um regime cultural que naturaliza a autoridade masculina, limita a autonomia feminina e organiza expectativas sociais assimétricas.

Michelle Perrot chama esse processo de “longa duração da desigualdade”. Por séculos, discursos filosóficos, religiosos e científicos sustentaram essa tese. Aristóteles, ao definir a mulher como um “homem incompleto”, inaugurou uma tradição que atravessou a teologia medieval, o racionalismo moderno e os léxicos institucionais da vida pública. Essa naturalização da hierarquia de gênero produziu o que Pierre Bourdieu denomina violência simbólica: um conjunto de práticas e representações que operam com tal sutileza que se tornam quase invisíveis, reproduzindo desigualdades mesmo na ausência de coerção explícita.

Entre os diversos tipos de violência, da física à simbólica, emerge a misoginia na esfera digital, um ambiente no qual discursos de ódio e agressões, entre likes e hates, circulam com velocidade algorítmica e alcance inédito. Segundo o MDH, a misoginia é uma das modalidades que mais crescem na internet. Em 2025, um levantamento do ministério mostrou que 71% das ameaças online contra mulheres envolvem morte ou abuso sexual, e 63% fazem referência explícita ao assassinato da vítima. O ambiente digital não inventa a violência; ele a reorganiza, a multiplica e a normaliza como prática cotidiana.

Por outro lado, é também nesse contexto que emergem movimentos da Comunicação Digital voltados à denúncia e à mobilização coletiva, como #Metoo e #MeuPrimeiroAssédio, capazes de converter relatos individuais em memória pública e cobrança social. A viralização, quando mediada por responsabilidade ética, funciona como dispositivo de reconhecimento: ilumina aquilo que, por séculos, foi silenciado.

Nessa perspectiva, a Comunicação e a Arte, em suas diferentes manifestações, tornaram-se campos decisivos para o enfrentamento da violência contra mulheres. Produções audiovisuais recentes desempenham papel central ao deslocar o debate do sensacionalismo para a compreensão estrutural da violência. O podcast Praia dos Ossos e as adaptações do caso Ângela Diniz, por exemplo, reconstituem o impacto histórico de um julgamento que legitimou a tese da “defesa da honra” e expõem como narrativas jurídicas e culturais podem tanto reforçar quanto desestabilizar desigualdades de gênero. Em 2025, a Lei do Feminicídio completa dez anos e, ainda assim, o Brasil registra a morte de uma mulher a cada seis horas.

Já a série Tremembé reacende discussões sobre diferentes tipos de crimes, os limites da violência humana e a realidade do sistema penal. O fenômeno de repercussão popular, mesmo que controverso, mostra como o audiovisual tem o poder de mobilizar audiências e reinserir temas sensíveis na esfera pública. Ao traduzir conflitos reais em narrativas compartilhadas, produções desse tipo convocam o público a revisitar estruturas históricas de desigualdade e a confrontar, no plano simbólico, aquilo que tantas vezes permanece velado no cotidiano. Não se trata apenas de entretenimento, mas de dispositivos de interpretação social que reorganizam percepções, deslocam enquadramentos e, sobretudo, rompem engrenagens.

Portanto, as diferentes expressões da Cultura não são periféricas ao enfrentamento da violência contra mulheres. Somadas aos rituais, constituem, hoje, um campo de produção e disputa simbólica, no qual se configuram signos e legitimidades. A Comunicação, exercida com ética e responsabilidade, não elimina a violência por si só; contudo, sem ela, nenhuma transformação profunda se sustenta. Em sociedades marcadas pela longa duração da desigualdade, comunicar é um exercício de memória e uma forma de provocar mudanças. É também por meio da Comunicação e da Arte que uma sociedade decide o que deseja lembrar, o que precisa urgentemente mudar e o que não pode mais tolerar. 

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Autores

  • Patricia Werner
    Patricia Werner
    Patricia Werner é doutora em Design pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro - Uerj (2019). Foi pesquisadora visitante da Universidade Europeia em Lisboa - IADE (2018/1). É mestre em Engenharia…  ver mais

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