Economia americana à espera do início da desaceleração

Banco central americano (Federal Reserve) está no terreno do ajuste fino de política monetária. Se os dados de atividade e de inflação vierem em novembro como planejado, não deve haver mais uma elevação da taxa básica de juros.

Economia
05/12/2023
Samuel Pessôa

Na última semana de outubro, o IBGE americano, o Bureau of Economic Analysis, divulgou o desempenho da economia americana no terceiro trimestre de 2023, em comparação ao trimestre imediatamente anterior. O resultado foi acima do previsto pelo mercado, 4,9% ante 3,5%, mas abaixo do acompanhamento da atividade conduzido pelo Federal Reserve (banco central dos EUA de Atlanta, que previa 5,4%. Todas as taxas apresentadas na coluna são anualizadas.

O ótimo desempenho no terceiro trimestre ocorre após um longo ciclo de elevação dos juros e de retração do setor de construção imobiliária por oito trimestres seguidos. Em geral, o setor imobiliário antecipa o ciclo da economia em um a um ano e meio. Desta vez foi diferente. A política monetária agiu, as hipotecas encareceram, o setor imobiliário reduziu sua atividade em 20% nos últimos oito trimestres, mas a desaceleração ainda não se espalhou para os demais setores.

Há várias explicações para a surpreendente performance da economia no terceiro trimestre. Após década e meia de juros muito baixos e com programas que estimularam a captação de empréstimos muito baratos na pandemia, e com a distribuição de recursos do Tesouro diretamente para as famílias, o setor privado, pessoas físicas e empresas, está com suas finanças em boas condições. Todas as empresas com caixa e dívidas baratas com prazo de vencimento longos. As famílias, por sua vez, acumularam muita poupança forçada nos quase três anos de pandemia. Houve nos últimos dez anos redução do prazo médio de duração da dívida americana nas mãos do setor privado, excluindo o Fed. Como sabemos bem da experiência brasileira, quanto menor o prazo de vencimento da dívida pública, menor a potência da política monetária.

Sobre esses fatores mais estruturais que reduzem a potência da política monetária, o consumo, principalmente de serviços, foi muito forte no verão. Fato compreensível após as longas quarentenas. De fato, a contribuição do consumo para os 4,9% de crescimento foi de 2,7 pontos percentuais, sendo que 1,6 pp do consumo de serviços. Outro item com forte contribuição foi a acumulação dos estoques, que adicionou 1,3 pp à atividade. Somente esses dois itens contribuíram com 4 pontos percentuais dos 4,9% de crescimento.

É fato que parte do consumo maior do verão deve ser captado pela sazonalidade. No entanto, havia muito consumo reprimido após tantos anos de pandemia. Por isso o consumo cresceu 4% no terceiro trimestre, já considerando os parâmetros sazonais. Assim, deve haver uma desaceleração do consumo no quarto trimestre do ano. Adicionalmente, tudo sugere que o ciclo de estoques terminou e que haverá neutralidade desse item da demanda agregada.

Com a passagem do verão e o fim do ciclo de estoques, a economia deve desacelerar. De fato, o indicador do desempenho da atividade econômica de outubro, ISM, sugere desaceleração. O acompanhamento do Fed Atlanta para o quarto trimestre indica desaceleração, dos 4,9% do terceiro para 1,2%, sendo que consumo e estoques contribuem com apenas 0,5 ponto percentual, queda expressiva da contribuição de 4 pontos percentuais do terceiro trimestres.

Finalmente, o ciclo monetário iniciou-se somente no final de 2021. E, dado o forte choque inflacionário, as taxas de juros reais do mercado monetário – curva de um ano líquido da inflação implícita – somente entraram no terreno contracionista (sob a hipótese conservadora de juro neutro de 0,5% ao ano) – em agosto passado. Dada as defasagens naturais da política monetária, a contração monetária deve ser sentida somente no final do primeiro semestre de 2024.

Assim, o banco central americano, Fed, está no terreno do ajuste fino de política monetária. Se os dados de atividade e de inflação vierem em novembro como planejado, não deve haver mais uma elevação da taxa básica de juros. Se a atividade se sustentar mais, é possível que a resposta seja alongar o ciclo monetário.

Se os próximos indicadores da atividade em novembro confirmarem os primeiros sinais de uma desaceleração mais sustentável da economia do Estados Unido, devemos ver o topo do ciclo monetário. O pior, para os países emergentes, terá passado.

Este artigo foi publicado em 4 de dezembro de 2023 no Blog do IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Do mesmo autor

Autor(es)

  • Samuel Pessôa

    Graduação e mestrado em Física pela USP, e doutorado em Economia pela USP. Atualmente é sócio da Reliance em São Paulo, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) e colunista do jornal Folha de S. Paulo. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Crescimento e Desenvolvimento Econômico, atuando principalmente nos seguintes temas: economia, taxas, educação no Brasil e gastos. Autor de diversos artigos acadêmicos sobre temas ligados ao desenvolvimento econômico, publicados em revistas nacionais e internacionais.

Artigos relacionados

Últimos artigos

Esse site usa cookies

Nosso website coleta informações do seu dispositivo e da sua navegação e utiliza tecnologias como cookies para armazená-las e permitir funcionalidades como: melhorar o funcionamento técnico das páginas, mensurar a audiência do website e oferecer produtos e serviços relevantes por meio de anúncios personalizados. Para mais informações, acesse o nosso Aviso de Cookies e o nosso Aviso de Privacidade.