Efeitos inflacionários da guerra e a cautela dos bancos centrais

A invasão da Ucrânia trouxe nova pressão sobre os preços, imprevista pelo Fed e outros bancos centrais. Com isso, posições “atrás da curva” se acentuaram sobremaneira. Contudo, como a guerra produz elevação das incertezas, os bancos centrais têm de persistir na cautela.

Economia
04/04/2022
José Júlio Senna

A invasão da Ucrânia trouxe nova pressão sobre os preços, imprevista pelo Fed e outros bancos centrais. Com isso, posições “atrás da curva” se acentuaram sobremaneira. Contudo, como a guerra produz elevação das incertezas, os bancos centrais têm de persistir na cautela.

Antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, a economia mundial já se defrontava com sério problema inflacionário. Dada a enorme importância do comportamento do sistema econômico dos países mais desenvolvidos para a evolução da economia global, é sempre relevante dedicar especial atenção ao que ocorre naqueles países.

A esse respeito, pode-se ressaltar o fato de a recuperação econômica das mencionadas nações ter se mostrado especialmente pujante. Poucos analistas e participantes de mercado esperavam recuperação tão rápida e significativa. Não parece haver dúvida de que grande parte dessa retomada pode ser atribuída à rapidez e à intensidade com que os formuladores de política econômica dos referidos países reagiram aos extraordinários choques a que seus países foram submetidos, particularmente no segundo trimestre de 2020.

De modo geral, os impulsos fiscais foram volumosos e envolveram diferentes meios de estimular o emprego e a atividade econômica. No campo monetário, estímulos prévios foram preservados, ou mesmo acentuados. Dado o fato de que tais medidas tiveram caráter emergencial, e praticamente se impuseram diante da “parada súbita” a que a economia mundial fora submetida, era de certo modo natural que os programas governamentais se afastassem (pelo menos um pouco) de modelos ideais, supostamente mais eficientes. E era compreensível também que tenham possivelmente passado do ponto, acentuando as pressões inflacionárias mais adiante.

Tomando-se a economia americana como referência, parece claro que a política fiscal já tenha deixado de ser expansionista. Contudo, o mesmo não pode ser dito a respeito da política monetária. Neste caso, de algum modo, seja pela predominância de juros reais negativos, seja pelo elevado grau de liquidez disponível, tal política tem contribuído significativamente para a alta de inflação.

A esse fenômeno acrescente-se a influência direta da “inflação da pandemia”, ou seja, da parcela do processo inflacionário associada diretamente com o aparecimento da crise sanitária. Referimo-nos aqui aos gargalos de oferta, derivados dos prejuízos trazidos pelo vírus para os processos de produção e distribuição de bens físicos, e do desvio de demanda das famílias, de certos serviços para bens em geral.

Pandemia é evento raro. Por conseguinte, a parcela do processo inflacionário dela derivada, possivelmente a parcela mais importante, também deve ser vista como fenômeno raro. Sendo assim, os bancos centrais não dispõem de boas referências para estimar o fim do processo, constatação indicativa do alto grau de incerteza que cerca todo o processo. Diante de incerteza elevada, autoridades monetárias agem com cautela. Eventual forte aperto monetário objetivando combater a alta de preços poderia prejudicar seriamente a recuperação econômica. Assim têm agido os bancos centrais dos países mais desenvolvidos, em geral, e não apenas o Fed.

Em alguns casos, tal cautela parece ter sido exagerada. Pensando-se no Fed, por exemplo, parece claro que os ajustes da política monetária deveriam ter começado há um bom tempo. O tapering se estendeu até março, mês em que se tomou ciência de que a inflação americana chegou a praticamente 8,0% a.a., medida pelo CPI. Difícil ver sentido nisso.

O artigo foi originalmente publicado no Bloo do IBRE em 29 de março de 2022.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Do mesmo autor

Autor(es)

  • José Júlio Senna

    Doutor e Mestre em Economia pela The Johns Hopkins University (Baltimore - EUA). Entre as experiências profissionais do pesquisador, destaca-se a atuação no Banco Central do Brasil, em 1985, como diretor da Dívida Pública e Mercado Aberto. Foi diretor executivo de algumas instituições financeiras, como Banco Boavista, Banco da Bahia Investimentos, Banco Graphus e Banco Fleming Graphus.

    De 1997 a 2012, José Júlio atuou como membro suplente do Conselho Diretor da FGV. Foi, ainda, professor da FGV EPGE de 1973 a 1988 e assumiu o cargo de vice-diretor da mesma escola em 1980.

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