Eleições: E o Brasil descobriu a mulher

Quase um século depois do direito ao voto, o Brasil, com seus 15% de mulheres deputadas, persiste entre os países de menor representação feminina no mundo, segundo a IPU (Inter-Parliamentary Union). 

Políticas Públicas
05/09/2022
Débora Thomé Costa

A participação da mulher na política no Brasil já é nonagenária. O ano de 2022 começou com a celebração dos 90 anos do voto feminino: desde 1932 mulheres podem votar e ser votadas, sacramentando a ideia de que a política não é um lugar exclusivo dos homens.

Quase um século depois do direito ao voto, o Brasil, com seus 15% de mulheres deputadas, persiste entre os países de menor representação feminina no mundo, segundo a IPU (Inter-Parliamentary Union), instituto ligado à ONU (Organização das Nações Unidas).

No entanto, neste ano, o tema parece ter ganhado proeminência nunca vista, deixando evidente o papel das mulheres nas disputas eleitorais, principalmente como eleitoras, mas também como candidatas. Na corrida para a Presidência, candidatos disputam o voto feminino e mulheres fazem campanha com o slogan "mulher vota em mulher".

Mulheres, de fato, são a maioria do eleitorado, mas, para além disso, as pesquisas de opinião indicam que, pela primeira vez, há uma distância grande na intenção de voto das eleitoras, as quais preferem Lula a Bolsonaro.

As chances do atual presidente passam, assim, por conquistar tais votos. Mulheres são diversas e votam de maneira diferente, porém, em geral, decidem o voto mais em cima da hora e, para escolher, levam em consideração aspectos como saúde e preço dos alimentos.

Ainda que a disputa à Presidência centralize boa parte do debate, as eleições nacionais definem também outros quatro cargos, o que nos permite observar as diferentes dinâmicas de gênero no âmbito da política. Os dados fornecidos pelo TSE e compilados pela pesquisa +Representatividade, do Instituto Update, indicam que esta eleição é a de maior presença de candidatas mulheres da história, com 33,3% do total de candidaturas.

Desmembrando por cargo, dois aspectos chamam a atenção: a presença bastante alta das mulheres como vice nas chapas majoritárias, e a quase manutenção do percentual nas candidaturas para deputados estaduais e federais, margeando os 30% das cotas.

Começando pela disputa à Presidência e aos governos estaduais, cinco dos 12 candidatos à Vice-Presidência são mulheres (42%), três delas são mulheres pretas e uma, indígena. Já nos governos, são mulheres 40% dos nomes concorrendo a vice; ressaltando que elas são apenas 17% das cabeças de chapa nos estados.

Os percentuais de mulheres concorrendo a vice, mais elevados que para qualquer cargo, tanto podem sinalizar preocupação com representatividade, dado o aumento do debate em torno da necessidade de maior presença das mulheres, como uma decisão dos partidos de destinarem os 30% do financiamento obrigatório para cargos majoritários (liderados por homens), e não para as candidaturas das deputadas estadual e federal.

Se esse é o cenário quando se trata das campanhas à vice, por mais que tenha ocorrido um pequeno aumento no percentual da presença feminina nas candidaturas para deputado estadual, agora em 33% do total; e federal, em 34%, nota-se que as cotas, que deveriam ser um piso nas chapas, na prática, tornaram-se um teto.

Para deputado federal, a maioria dos partidos segue este padrão, porém alguns mais à esquerda, ultrapassaram os 40%: A UP chegou a 70% de candidaturas femininas, além de PSTU, PCB, PCO, PSOL, PCdoB e PV. Já o PT tem 37,4% de candidaturas femininas, e o PSDB, mais próximo ao eixo da direita, 36,8%.

No caso das candidaturas a deputado estadual, somente 3 partidos: PCdoB, PSTU e UP ultrapassaram os 40%. Para todos os cargos do legislativo (incluindo o Senado), mais da metade dos candidatos são homens brancos ou pardos.

Por fim, vale lembrar que, nesta eleição, os votos em deputadas federais contarão em dobro no cálculo da distribuição do financiamento de campanha. Observando o percentual ainda baixo de candidaturas femininas ao Congresso Federal e o alto número de vices, que devem receber parte substancial do financiamento obrigatório em 2022, tudo sugere que os partidos estão concentrando o apoio em poucas candidatas a deputada federal, ou seja, nas "puxadoras de voto".

O Brasil descobriu as mulheres, mas ainda são os homens que controlam boa parte dos seus caminhos na política.

O artigo foi publicado originalmente em 2 de setembro de 2022 na Folha de S. Paulo

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Débora Thomé Costa

    Cientista política, pesquisadora associada ao Centro de Estudos em Política e Economia do Setor (FGV CEPESP) da Escola de Economia de São Paulo(FGV EESP) e ao Laboratório de Estudos de Gênero e Interseccionalidade da Universidade Federal Fluminense (LabGen-UFF). É doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFF, com a tese “A mulher e a política – marcas do viés de gênero na política e na política pública no Brasil” (out/2019).

     

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