Os energéticos estão dominando a cena da inflação em 2021

A crise hídrica e o aquecimento da economia mundial são as principais razões para o crescimento da participação dos energéticos na inflação de 2021.

Economia
08/11/2021
André Furtado Braz

O agravamento da crise hídrica e os aumentos do preço do petróleo estão elevando a contribuição dos energéticos na composição da inflação. Nos últimos 12 meses, quase 50% da inflação acumulada pelo IPCA/ IBGE, que até setembro subiu 10,25%, partiram dos reajustes da energia e dos combustíveis.

A crise hídrica e o aquecimento da economia mundial são as principais razões para o crescimento da participação dos energéticos na inflação de 2021.

Segundo o IPCA, 13,5% do orçamento familiar é comprometido pelas despesas com combustíveis, energia elétrica e gás. Entre estes, a gasolina ocupa duas posições de destaque, a segunda maior alta acumulada em 12 meses, 39,6% e, o maior peso no orçamento familiar, 6,09%.

Afora a gasolina, outros combustíveis fósseis também registraram expressivo aumento de preços: GNV (38,46%), gás de botijão (34,67%), diesel (33,05%) e gás encanado (20,36%). A contribuição conjunta dos derivados do petróleo chega a 30% da taxa acumulada em 12 meses pelo índice oficial.

A seca também afetou a safra de cana-de-açúcar e os preços do açúcar, do etanol e do álcool anidro. Este último, misturado à gasolina tipo C na proporção de 27%, contribuiu por parte dos aumentos registrados no preço da gasolina.

Contribuição dos energéticos para a inflação de 2021

Fonte: Elaboração própria com dados do IPCA/IBGE

Já o etanol, principal substituto da gasolina, registrou o maior reajuste entre os combustíveis para veículos, 64,77%. Com esse aumento, o etanol responde por 5,5% da inflação acumulada nos últimos 12 meses.

A falta de chuvas também reduziu os níveis dos reservatórios utilizados para geração de energia hidroelétrica. Parte da energia começou a ser gerada pelas termoelétricas, fonte mais cara e consumidora de combustíveis fósseis. Para fazer frente à geração de energia de fontes mais caras, as bandeiras tarifárias, sistema de cobrança que repassa aos consumidores o aumento dos custos da geração de energia, sofreram reajustes que provocaram alta de 28,8% no preço da energia elétrica nos últimos 12 meses. Essa alta acumulada responde por 13,5% da inflação ao consumidor.

Para o mês de outubro, os combustíveis devem continuar com papel destacado na inflação. A gasolina e o diesel sofreram reajustes que os colocarão entre os itens com maior contribuição para a inflação deste mês.

A energia e os combustíveis são essenciais para o desenvolvimento da atividade produtiva e, por isso, contribuem também para o espalhamento das pressões inflacionárias, encarecendo a produção industrial, a prestação de serviços e o frete. Além disso, esses energéticos respondem por 50% do peso de “preços monitorados”, cuja taxa de variação acumulada em 12 meses chegou a 15,73%, seu maior patamar desde janeiro de 2016.

Preços monitorados

Evolução da Variação % 12 meses

Fonte: Banco Central

Diante de tais fontes de pressão inflacionária, o IPCA de 2021 deve fechar em 9,1%, com os energéticos do- minando a cena da inflação. Para 2022, a estimativa permanece em 4,2%, sustentada pela expectativa de recuo expressivo dos preços da energia a partir de maio desse ano, quando finalmente há possibilidade da prática de bandeiras tarifárias menos onerosas.

A análise foi publicada no Boletim Macro.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • André Furtado Braz

    Possui mestrado em Finanças e Economia Empresarial pela FGV EPGE (2011) e em Economia pela Universidade Federal Fluminense (2001). É economista e pertence ao staff do Índice de Preços ao Consumidor desde 1989, onde trabalha como analista de inflação. Atualmente é professor visitante da Universidade do Grande Rio, professor da Universidade Estácio de Sá e coordenador do núcleo de preços ao consumidor da Fundação Getúlio Vargas. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia.

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