Ferramentarias 2030: como virar o jogo da competitividade automotiva
Quando pensamos em indústria automotiva, logo imaginamos montadoras, inovações tecnológicas e novos modelos de carros elétricos. Mas existe um elo essencial, muitas vezes invisível, que sustenta toda essa engrenagem: as ferramentarias — empresas responsáveis por produzir moldes e ferramentas que dão forma às carrocerias, portas e componentes que saem das linhas de produção.
O problema é que esse elo está enfraquecido. O Brasil representa menos de 1% do mercado global de ferramental, importa metade das ferramentas que utiliza e 100% dos moldes de grandes peças e superfícies Classe A — justamente aquelas que definem o acabamento e a qualidade visual dos automóveis. Isso significa mais custos, prazos mais longos e perda de competitividade.
Se quisermos uma indústria automotiva forte, precisamos fortalecer quem está por trás dela. Foi com essa visão que nasceu o projeto Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, dentro do Programa Rota 2030, coordenado pela Fundep e pelo IPT. A iniciativa reúne governo, universidades e empresas em uma grande rede de pesquisa aplicada, inovação e capacitação baseada em 4 fases.
Fase 1 — As forças competitivas em jogo
O primeiro diagnóstico envolveu 39 ferramentarias e revelou um cenário de desafios estruturais.
Falta investimento, atualização tecnológica e qualificação de mão de obra.
A concorrência com produtos importados é avassaladora e o poder de barganha dos clientes (montadoras e sistemistas) é altíssimo — poucas empresas concentram os pedidos, ditando preços e prazos.
Paradoxalmente, do lado dos fornecedores, o problema é o oposto: há poucas opções nacionais e uma forte dependência de insumos e tecnologias importadas, o que limita o poder de negociação das ferramentarias.
O estudo também acendeu um alerta: novas tecnologias como manufatura aditiva podem, em breve, substituir parte dos processos atuais. Ou seja, é urgente investir em diferenciação, inovação e resiliência diante da competição global.
Fase 2 — O que os clientes pensam
Conduzida pela FGV EAESP, a segunda fase trouxe o olhar do mercado. Montadoras e sistemistas avaliaram 13 atributos-chave — como qualidade, custo, confiabilidade e prazo — em uma matriz Importância–Desempenho.
O resultado mostrou que algumas capacidades estão no nível esperado, mas outras exigem melhorias imediatas. O diagnóstico virou um mapa de prioridades, orientando onde o setor deve concentrar seus esforços para competir de igual para igual no mercado internacional. Veja os resultados da Fase 2 aqui.
Fase 3 — A visão das próprias ferramentarias
Sob as dimensões de prioridades competitivas, desempenho percebido e maturidade em supply chain, a terceira fase mostra um desalinhamento preocupante: muitas empresas acreditam ser mais competitivas do que seus clientes realmente percebem. Esse “autoengano estratégico” mascara fragilidades importantes — como a falta de gestão integrada de fornecedores, baixo controle de fluxo produtivo e pouca previsibilidade da demanda.
Mais do que tecnologia, o setor precisa de gestão moderna e mudança cultural, incorporando práticas colaborativas e foco em eficiência de processos. Confira os resultados da Fase 3.
Fase 4 — Dos diagnósticos à ação
Na última fase, os aprendizados se transformaram em prática com os projetos demonstradores. Esses pilotos mostraram na prática o “ciclo vicioso” que trava o setor:
prazos de pagamento longos geram falta de caixa;
isso limita investimentos em tecnologia;
atrasos se acumulam e novos pedidos se perdem.
Para romper esse ciclo, surge o programa Demonstradores 2.0, que propõe um novo modelo colaborativo: em vez de cada empresa fazer tudo, cada uma se especializa em uma etapa do processo, conectadas por uma plataforma digital que integra padrões, comunicação e gestão de dados em tempo real.
Onze subprojetos estruturam essa nova fase. A conexão com o Conecta+ amplia o acesso de pequenas e médias empresas à formação gratuita e às jornadas de inovação. O futuro das ferramentarias brasileiras passa, portanto, por colaboração, digitalização e redes inteligentes de produção.
Colaboração, inovação e velocidade: a rota para 2030
O projeto mostra que o modelo atual está esgotado. A sobrevivência das ferramentarias — e, por consequência, da cadeia automotiva — depende de uma reinvenção coletiva, baseada em especialização colaborativa, plataformas digitais e gestão moderna.
Para as empresas, a escolha é clara: continuar presas ao ciclo da baixa competitividade ou adotar um novo modo de operar, mais aberto e integrado. Para os formuladores de políticas públicas, o desafio é manter instrumentos de incentivo e capacitação que deem fôlego à transformação. E para as montadoras, é hora de repensar modelos de contratação que pressionam custos, mas corroem a base produtiva do país.
A revitalização das ferramentarias brasileiras não virá de soluções isoladas, mas de uma transformação estrutural, sustentada por gestão, tecnologia e cooperação em rede. Essa é a rota necessária para recolocar o Brasil no mapa global da competitividade automotiva. Assista à apresentação dos Demonstradores 2.0.
Autores

Alexandre Pignanelli
Professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas. Possui graduação em Engenharia Mecânica pela Unicamp e doutorado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas. É Vice-Coordenador do… ver maisAlexandre Pignanelli
Professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas. Possui graduação em Engenharia Mecânica pela Unicamp e doutorado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas. É Vice-Coordenador do Centro de Desenvolvimento de Ensino e Aprendizagem (CEDEA) da FGV-EAESP, área responsável pela difusão e suporte às práticas pedagógicas da escola, e atua diretamente na coordenação do sistema de Garantias de Aprendizagem (Assurance of Learning - AoL). Pesquisador do GVcelog - Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da Fundação Getulio Vargas. Autor de artigos publicados em congressos e periódicos no Brasil, Estados Unidos e Europa, tendo recebido prêmio de Best Paper no IX SIMPOI (2006). Seus temas de interesse incluem logística e cadeias de suprimentos, operações, forecasting, a aplicação de métodos quantitativos à administração e o desenvolvimento de processos de ensino e aprendizagem. Antes de dedicar-se à academia desenvolveu uma carreira de 10 anos como consultor de empresas no Brasil e no exterior, em projetos nas áreas de otimização de processos, logística, gestão da qualidade e estratégia de operações em empresas como Caterpillar, Novartis, Bunge, BHP Billiton, Eaton, Linde Gases, FG Wilson e Würth.

André Cherubini Alves
Doutor em Administração com enfase em Gestão da Tecnologia e Inovação pelo PPGA/UFRGS. Pesquisador Visitante no Institute for Business Innovation da Haas School of Business da Universidade da… ver maisAndré Cherubini Alves
Doutor em Administração com enfase em Gestão da Tecnologia e Inovação pelo PPGA/UFRGS. Pesquisador Visitante no Institute for Business Innovation da Haas School of Business da Universidade da California em Berkeley. Mestre em Administração com ênfase em Gestão da Tecnologia e Produção pelo PPGA/UFRGS. Pesquisador no Núcleo de Estudos em Inovação (NITEC-UFRGS). Graduado em Administração de Empresas pela Escola de Administração/UFRGS com graduação sandwich pela Florida Atlantic University (2006). Diretor do Silicon Valley Institute for Business Innovation. Professor de na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, Fundação Getúlio Vargas. Pesquisador no programa Innovation Systems, Strategy and Policy (InSySPo), UNICAMP. Foi professor de Estratégia, Empreendedorismo e Inovação da Unisinos e da Escola de Administração da UFRGS em Gestão de Processos. Trabalhou com consultoria em gestão estratégica e operações em empresa do ramo ótico participando do planejamento, implantação e capacitação de sistemas de produção Lean Manufacturing. Suas áreas de interesse são Dinâmica da Organização Industrial, ecosistemas de inovação, empreendedorismo intensivo em conhecimento, gestão estratégica de tecnologia e inovação, capacitação tecnológica, gestão de operações com ênfase em sistemas lean manufacturing.

Luiz Carlos Di Serio
Luiz Carlos Di Serio é professor Titular da Fundação Getulio Vargas - Escola de Administração de Empresas de São Paulo desde 1992, nos programas de graduação e pós-graduação. Como executivo, teve uma… ver maisLuiz Carlos Di Serio
Luiz Carlos Di Serio é professor Titular da Fundação Getulio Vargas - Escola de Administração de Empresas de São Paulo desde 1992, nos programas de graduação e pós-graduação. Como executivo, teve uma vivência de 22 anos em Gestão de Desenvolvimento e Implantação de Produtos, Processos, Qualidade, Informática e Automação Industrial, nas empresas FMC do Brasil S/A (Foodtech) e Equipamentos Villares S/A. Como professor atua nos programas do Mestrado e Doutorado Acadêmico,nos MBA´s, coordena e leciona no GVpec e GVincompany. Desenvolve atividades de consultoria em Administração. Graduado em Engenharia Mecânica (UNESP), obteve o título de Mestre na Marquette University (Milwaukee, USA) e de Doutor em Engenharia da Produção na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo. Estudou o impacto da "Inovação na Competitividade" no Pós-Doutorado, obtido na FGV EAESP em 2007. Freqüenta os principais fórum nacionais (SIMPOI e EnANPAD) e Internacionais (POMS e EuROMA) na área de Operações. Publica artigos em revistas especializadas,seminários,congressos nacionais e internacionais na área de administração. Seus interesses de pesquisa são a Estratégia e Gestão de Operações, Supply Chain Management, Gestão do Desenvolvimento de Produtos e Serviços, Competitividade e Inovação. Coordenador Adjunto do Fórum de Inovação desde 07/2013. Membro do Comitê Acadêmico ICCB - Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Membro do Conselho de Curriculum do Programa MOC/ISC da Harvard.

Alexandre Bittar