A indústria está indo embora, mas pode sem dúvida voltar!

Não é à toa que as empresas de eletrônicos, e mesmo as automobilísticas, que usam a chamada tecnologia embarcada, estão saindo do país; os incentivos para importar tanto insumos como produtos finais tornam essa decisão muito mais acertada, do ponto de vista da empresa multinacional, que optar pela produção local. Porém, para o conjunto da economia e da sociedade, essa decisão é um desastre.

Economia
09/04/2021
Nelson Marconi

Ford. Mercedes Benz. Sony. Roche. LG. Walmart. Talvez Audi, Renault e Nissan. Não, não é uma propaganda de grandes empresas. É uma lista de algumas – eu disse algumas, há várias outras – importantes marcas que decidiram sair ou reduzir sua operação no país, ou planejam fazê-lo em breve. Nos últimos dois anos, esta lista tem aumentado e, se no início eram casos isolados, atualmente o coro tem engrossado e este movimento se consolidou como uma tendência. A confirmação desse cenário seria desastrosa para o Brasil, pois aprofundaria ainda mais o processo de desindustrialização. E quais seriam as consequências?

Primeiro, precisamos lembrar que um país pode ter que se endividar externamente, e de modo crescente, se depender de importações de insumos ou produtos finais industrializados com maior conteúdo tecnológico. Num momento seguinte, o país terá de exercer a opção por crescer menos para importar menos; é o voo de galinha que vivenciamos ao longo de nossa história nos últimos 100 anos. Além disso, o desmonte dos setores industriais acentua a desarticulação das cadeias produtivas, que já vêm sendo fragmentadas há décadas, e o acesso à tecnologia de ponta, ou pelo menos de algum estágio de desenvolvimento tecnológico, é prejudicado. Por consequência, o impacto sobre a produção e emprego não se resume às empresas que deixam nosso país. Por fim, a desindustrialização implica na perda de bons empregos.

A preocupação de todas as grandes economias neste momento é a reindustrialização e a recuperação de empregos que possibilitem fortalecer a classe média e minorar o processo de concentração de renda. Por que os empregos na indústria possuem essa característica? Porque eles pagam salários próximos à média nacional e são ocupados por pessoas com nível de escolaridade próximo à média; portanto, são adequados à grande parte da força de trabalho. Estamos caminhando na direção exatamente oposta há muito tempo. Para termos uma noção da dimensão do que está ocorrendo, em 1940, quando estávamos engatinhando no processo de industrialização, 11% da força de trabalho estava empregada na indústria de transformação; após a fase de crescimento da indústria, da renda, da classe média e da urbanização, chegamos a 20% em 1980; e, por sua vez, em 2020, voltamos praticamente à mesma participação registrada há 80 anos, pois esse percentual recuou para 11,4%.

Ah, mas o carro chefe da economia atualmente são os serviços, a indústria já não é tão necessária...então, pergunte aos asiáticos por que eles se esforçaram em deslocar o eixo manufatureiro global para lá e por que EUA e Alemanha acabaram de elaborar planos estratégicos de recuperação de suas indústrias. Além disso, o grande demandante de serviços mais sofisticados na economia é....a própria indústria.

Se um país quiser crescer, não pode abdicar de sua indústria; certamente esse setor terá características distintas no futuro próximo, será mais verde, sustentável, tecnológico. Mas não deixará de exercer os efeitos positivos que sempre provocou.

Por que chegamos a esse cenário? O que precisamos fazer para dele sair? Vamos por partes. A indústria sofre maior concorrência externa que os demais setores, seja porque alguns deles usufruem da abundância de recursos naturais, como o agronegócio no caso brasileiro, o que facilita seu posicionamento no comércio internacional, ou seja porque, no caso da maioria dos serviços, é muito menos custoso consumi-los aqui que no exterior – ninguém vai ao Uruguai para cortar o cabelo ou fazer ginástica, por exemplo.

Além de estar mais exposta à concorrência externa, a indústria foi desestimulada a fazê-lo nas últimas décadas pelas decisões de políticas governamentais. Taxa de juros alta, taxa de câmbio apreciada por muito tempo, carga tributária onerando proporcionalmente mais o setor, ausência de infraestrutura logística, inexistência de uma política de apoio às exportações e estratégias ineficientes de desenvolvimento científico, tecnológico e produtivo (lembremos que a Embrapa, empresa pública, se dedica ao desenvolvimento de soluções para o agronegócio). Soma-se a isso a recente redução de tarifas de importação e renúncia unilateral da preferência por produtos locais nas compras governamentais, sem contrapartida ou justificativa razoável. Os asiáticos devem estar dando risada.

Não é à toa que as empresas de eletrônicos, e mesmo as automobilísticas, que usam a chamada tecnologia embarcada, estão saindo do país; os incentivos para importar tanto insumos como produtos finais tornam essa decisão muito mais acertada, do ponto de vista da empresa multinacional, que optar pela produção local. Porém, para o conjunto da economia e da sociedade, essa decisão é um desastre.

Nossos governos optaram, desde os anos 90, por uma abertura comercial que só considera um fator – as importações. Não houve uma política clara, consistente (e essencial) de estímulo às exportações. Soma-se a esse cenário a política econômica dos últimos anos, que desestimula o crescimento e a demanda, e a falta de uma estratégia clara de desenvolvimento para o país. Os gestores das empresas sabem que outros países apresentam políticas e performances melhores.

Assim, para mudar esse cenário, uma série de ações são necessárias. Primeiro, o governo necessita delinear um projeto de desenvolvimento claro para o país, indicando as políticas e instrumentos que utilizará para apoiar o setor produtivo, e quais são os objetivos e metas de longo prazo deste projeto. Uma necessária política de desenvolvimento produtivo deveria possuir como uma das metas principais exportar, e de forma anexa a ela, uma estrutura de incentivos para as empresas conseguirem viabilizar esse objetivo; o investimento público deve ser o propulsor do crescimento na saída da pandemia, porque o setor privado não vê atratividade em investir neste cenário e enfrenta elevada restrição financeira para se endividar; as taxas de juros deveriam ser mantidas em um patamar baixo, para evitar uma retração maior ainda do nível de atividade e do investimento (não há risco de uma alta da inflação permanente com a demanda tão desaquecida que justifique a elevação do custo do dinheiro);  a taxa de câmbio deveria flutuar ligeiramente em torno de seu patamar competitivo; deve ser adotada uma estratégia para estabilizar a relação dívida pública / PIB a médio prazo, o que requer uma combinação de aumento de impostos sobre a renda dos mais ricos e corte de isenções tributárias e um pente fino sobre as despesas correntes. Por último, a reforma tributária deve resultar em tributação proporcionalmente menor sobre a produção e maior sobre a renda, e é necessária uma estabilidade política e institucional que está se esvaindo, além de um enfrentamento adequado à pandemia e à devastação ambiental.

Enfim, parece que o caminho é longo, estamos um pouco distantes de tudo isso, mas não é um cenário irrecuperável. Dada a quantidade de tarefas a serem realizadas e de acordos necessários para que todas essas mudanças ocorram, é fundamental que a sociedade se una e reúna forças para alterar esse cenário e evitar que o país perca uma estrutura produtiva montada a duras penas ao longo de décadas.    

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Nelson Marconi

    Professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP) e coordenador do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo. Doutor e Mestre em Economia pela FGV, tendo realizado bolsa sanduíche no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Graduado em Economia pela PUC-SP. Coordenador do Fórum de Economia da FGV.

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