Inflação: a hora da leitura dos núcleos

A mensagem do núcleo de inflação calculado para o IPC-S mostra que, pelo menos por enquanto, a dinâmica da inflação ainda é majoritariamente explicada pelos problemas pontuais de oferta. Em contraste com a variação acumulada nos últimos 12 meses do IPC-S, seu núcleo apresenta uma variação bem inferior, de 2,95%

Economia
01/12/2020
Paulo Picchetti

A alta do IPC-S em novembro (0,94%) foi a maior para o mês desde 2015, quando subiu 1%. Com isso, a variação acumulada em 12 meses do índice foi para 4,86%, o que implica numa elevação ao final de 2020 significativamente superior à do ano de 2019 (4,11%). O que esses números representam em termos da dinâmica da inflação e seus impactos sobre o consumidor?

A resposta para essas questões passa necessariamente pela análise da abertura do índice em grupos. O grande destaque é o grupo alimentação, cuja alta acumulada em 12 meses de 14,06% é muito superior à do índice como um todo. As razões para essa alta estão majoritariamente ligadas aos efeitos da pandemia nos últimos meses. Tomando como exemplo emblemático o caso do arroz, a combinação de aumento das exportações e necessidade de importações sob um câmbio desvalorizado resulta em redução da oferta interna, e consequentemente aumento dos preços. Essa é a estória de outros itens importantes como carnes bovinas e derivados da soja, tendo como resultado a grande elevação nos preços do grupo alimentação.

O consumidor sente esse impacto diretamente, principalmente aquele de renda mais baixa, cuja participação da alimentação no orçamento é relativamente maior. Já do ponto de vista da dinâmica da inflação, é necessário analisar o comportamento do índice como um todo, “filtrando” o efeito dos problemas de oferta específicos das variações dos demais itens. Esse é o papel das medidas de núcleo de inflação, que implementam esse filtro através de modelos estatísticos.

A mensagem do núcleo de inflação calculado para o IPC-S mostra que, pelo menos por enquanto, a dinâmica da inflação ainda é majoritariamente explicada pelos problemas pontuais de oferta. Em contraste com a variação acumulada nos últimos 12 meses do IPC-S, seu núcleo apresenta uma variação bem inferior, de 2,95%. Entretanto, alguns elementos importantes possuem o potencial de alterar essa trajetória do núcleo nos próximos meses, tais como o aumento dos preços no atacado, a desvalorização cambial, e as preocupações em relação à situação da dívida do governo federal.

Nesse sentido, o núcleo passa a ser uma variável fundamental a ser acompanhada daqui em diante. Pelo menos por enquanto, sua mensagem é que a elevação dos preços ao consumidor nesse final de 2020 ainda não representa um descontrole da trajetória da inflação, mas na medida em que os elementos acima representam preocupações relevantes, o acompanhamento da trajetória do núcleo nos próximos meses será fundamental para entendermos o que acontecerá com os preços dos vários itens que compõem os índices de inflação em 2021.

Alguns aumentos de preços em itens de grande peso no orçamento do consumidor já são conhecidos para o futuro próximo, entre eles a mudança na política tarifária da energia elétrica e os reajustes dos planos de saúde que ficaram adiados pela pandemia. A leitura do núcleo nos dirá se esses aumentos estão de fato se espalhando para a maioria dos outros itens considerados pelos índices de preços ao consumidor.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Paulo Picchetti

    Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) e professor da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP). Doutor em Economia pela University of Illinois e Mestre em Economia pela FEA/USP. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Métodos Quantitativos em Economia. Atuando principalmente nos seguintes temas:Greves, Teoria dos Jogos e econometria. 

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