Inteligência Artificial e desenvolvimento econômico

Apenas a busca de eficiência através das aplicações de IA não pode e não deve ser tomada como um fim absoluto em si mesmo.

Economia
03/01/2024
Francisco Gaetani
Virgilio Almeida

Em seu recente livro “Power and Progress”, Daron Acemoglu, professor de economia do MIT, formulauma questão que deve fazer parte das discussões sobre políticas de desenvolvimento para o Brasil. Diz Acemoglu: “... o caminho atual de ‘deixar a IA acontecer’, concentrando principalmente na automação (substituição de pessoas) não parece ser apropriado’’. Considerando que no Brasil os objetivos deveriam buscar melhorar de forma sustentável os resultados econômicos para mais pessoas, a pergunta natural sobre inteligência artificial passa a ser: quais políticas públicas colocariam o desenvolvimento e o uso da IA no caminho adequado, buscando aprimorar o que todos os trabalhadores podem fazer?

Há uma premissa importante nesta formulação: a de que empregos e ocupações de trabalhadores são relevantes para uma sociedade saudável. Isto significa que apenas a busca de eficiência através dasaplicações de IA não pode e não deve ser tomada como um fim absoluto em si mesmo. O contexto em que se vive e a visão de sociedade a que se aspira funcionariam assim como um balizamento dos possíveis desdobramentos das potencialidades da IA. No entanto, é necessário que o país comece discussões sobre como a IA pode ser usada para avançar o desenvolvimento econômico. Colocar a IAno centro do debate aproxima o governo das alavancas transformadoras da realidade nacional, identificadas as prioridades estratégicas, como competitividade, emprego, saúde, educação, etc.

O destino das tecnologias de inteligência artificial não está previamente determinado; há um elevadograu de incerteza e imprevisibilidade em relação a seu desenvolvimento. O futuro está em aberto e depende em boa medida do que formos capazes de formular e construir. É essencial compreender opotencial de utilização e progresso da IA no Brasil, especialmente considerando a desigualdade econômica e baixo nível de escolaridade, que representam desafios para a implementação das novastecnologias no país. Ao analisar o papel da IA no desenvolvimento econômico brasileiro, é importante entender como essas tecnologias afetam a produtividade, o mercado de trabalho e a inovação.

Os aumentos de produtividade são potencialmente sistêmicos, mas variam conforme os setores. Apriorização estratégica com foco em setores que funcionam como “hubs” - por exemplo, o setor financeiro ou o próprio governo - e suas cadeias produtivas favorecerá a disseminação da IA pelo conjunto da economia. O potencial impacto no mercado de trabalho pode ser devastador.

Quanto mais o governo for capaz de auxiliar nesta transição por meio de programas de (re)qualificação e(re)colocação profissional, menos traumática será a assimilação da IA pela sociedade, que já começa afuncionar pautada por novas configurações de relações de trabalho. A inovação encontra-se no centrodas estratégias de aumento da competitividade contemporâneas. Empoderadas pela IA, as políticas de inovação são aceleradoras do desenvolvimento de novos mercados e de transições para novos patamares de dinâmicas econômicas e sociais. O destino das tecnologias de inteligência artificial não está previamente determinado, há um elevadograu de incerteza e imprevisibilidade em relação a seu desenvolvimento; o futuro está em aberto edepende em boa medida do que formos capazes de formular e construir

A abordagem e criação de políticas públicas para a IA devem ser abrangentes, envolvendo não apenas governos e empresários, mas também instituições acadêmicas, sindicatos e organizações da sociedade civil. Diversas questões devem integrar essas discussões multissetoriais, começando pela preocupação central: como as políticas podem promover tecnologias de IA que complementem o trabalho humano em vez apenas de imitá-lo e substituí-lo? Esta é a pergunta distintiva das sociedades que buscarão incorporar a IA em projetos de nação, inclusivos, pautados por uma visão de desenvolvimento sustentável onde há uma preocupação de integrar todos e todas em um futuro melhor.

De que maneira o país pode adquirir e desenvolver tecnologias de IA capazes de promover inovaçõesradicais, aumentar produtividade, em vez de apenas realizar ajustes superficiais em produtos, serviços e sistemas já existentes? Esta é a questão que hoje pauta o debate econômico nos EUA, na Europa e na China. As economias intensivas em IA se distanciarão de forma crescente das demais e isso já foi percebido por grandes potências como Alemanha e Japão, que se encontram atrasadas na corrida rumo a um novo modus operandi no que se refere à corrida pela produtividade do futuro.

A desigualdade de renda no Brasil representa uma preocupação central. Como desenvolver políticas queevitem que a IA contribua para um aumento na disparidade de renda? O apartheid digital tem várias facetas, mas neste caso talvez permita também enfrentamentos diferenciados. Uma abordagem experimental seria empregar as tecnologias de IA para apoiar trabalhadores com menos experiência ou qualificação, facilitando seu desempenho no trabalho. Isso exigirá ajustes no sistema educacional e deformação profissional, visando preparar a próxima geração de trabalhadores para operar essas novas tecnologias.

Por fim, os próprios governos têm um papel fundamental a ser explorado, além da regulação efinanciamento de políticas públicas. O desenvolvimento de métodos e tecnologias de uso de IA dentro do próprio governo pode contribuir para um avanço na qualidade dos serviços públicos e na geração de demandas para o setor privado avançar na qualidade e complexidade das tecnologias de IA no país. O poder de compra e de encomenda do setor público são únicos e gerenciados estrategicamente podem fazer a diferença no processo de reposicionamento do país na nova ordem econômica mundial emergente. O Brasil precisa de inovações para abordar as novas realidades econômica e social que estão surgindo em um mundo em que a IA se tornará onipresente. A compreensão das potencialidades da política da inteligência artificial demanda um engajamento de todos, à altura das oportunidades edesafios que o momento propicia.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Francisco Gaetani

    Professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE) é doutor e mestre em Administração Pública pela London School of Economics and Political Science (LSE). Foi secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente e dedicou-se à Administração Pública, onde ocupou postos como: secretário-executivo adjunto do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão – MPOG -, secretário de Gestão da Secretaria de Gestão – MPOG, diretor de Formação da Escola Nacional de Administração Pública – ENAP -, diretor da Escola de Governo de Minas Gerais/Fundação João Pinheiro, assessor de Planejamento Acadêmico da UFMG, gerente de Projetos da Fundação João Pinheiro, entre outros.

  • Virgilio Almeida

    Virgilio Almeida é professor associado ao Berkman Klein Center da Universidade de Harvard, professor emérito da UFNG e ex-secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia eInovação.

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