Inteligência artificial, produtividade e emprego: novas evidências

Caso os padrões recentes de adoção de tecnologias avançadas persistam, o cenário em que a disseminação da IA generativa tem pouco efeito sobre a produtividade e impacto negativo no mercado de trabalho tende a se materializar.  

Economia
23/08/2023
Fernando Veloso

Como tenho discutido neste espaço, vários estudos recentes têm procurado estimar o impacto da inteligência artificial (IA) sobre o crescimento e o mercado de trabalho nos próximos anos, mas ainda existe muita incerteza.

Existem desde previsões de grande aceleração do crescimento da produtividade com melhoria da qualidade dos empregos até a visão oposta, segundo a qual as novas tecnologias terão pouco efeito sobre a produtividade e reduzirão o emprego e salário de uma grande parcela dos trabalhadores.

No que diz respeito à produtividade, existem dúvidas em relação ao uso da tecnologia e sua disseminação entre as empresas e setores da economia. Por exemplo, caso as novas tecnologias sejam usadas para criar novos produtos e serviços, seu impacto tende a ser maior do que se forem utilizadas para automatizar processos já existentes.

Além disso, mesmo que seus efeitos sejam positivos para as empresas que adotam as novas tecnologias, seu impacto sobre a produtividade agregada tende a ser modesto caso os ganhos sejam concentrados em poucas empresas.

Em relação ao mercado de trabalho, a incerteza decorre do fato de que os efeitos da IA resultarão da sua interação com vários fatores, como a natureza da tecnologia (substituta ou complementar ao trabalho), características institucionais do mercado de trabalho (sindicatos e legislação trabalhista) e qualificações dos trabalhadores.

Em particular, caso a IA seja usada para automatizar tarefas já existentes e, desta forma, substituir em vez de complementar o trabalho, seu impacto sobre o emprego e salário tende a ser negativo, especialmente para os trabalhadores de menor qualificação.

Embora seja difícil prever qual será o desfecho desse processo, o uso recente de tecnologias avançadas por parte das empresas dá algumas pistas. Um estudo recente de Daron Acemoglu e coautores (“Automation and the Workforce: A Firm-Level View from the 2019 Annual Business Survey”) oferece uma importante contribuição nesse sentido.

Com base em dados de 300.000 empresas de todos os setores econômicos obtidos a partir do Annual Business Survey de 2019, a pesquisa documenta o uso de cinco tecnologias avançadas nos Estados Unidos: IA, robótica, computação na nuvem, equipamentos e software especializados.

Uma primeira evidência é que a adoção de tecnologias avançadas ainda é bastante limitada, especialmente no caso de IA, utilizada por somente 3,2% das empresas. Embora a adoção de outras inovações seja maior, metade das empresas americanas não usou nenhuma dessas tecnologias entre 2016 e 2018.

Apesar de uma parcela pequena das empresas ter adotado as novas tecnologias, elas são responsáveis por uma proporção relevante do emprego nos Estados Unidos. A razão é que a adoção de tecnologias avançadas é concentrada em empresas de grande porte. Por exemplo, 12,6% da mão de obra estava empregada em empresas que utilizam IA e 64,4% naquelas que incorporaram software especializado.

Outro dado importante é que uma das principais finalidades da adoção de tecnologias avançadas é automatizar o processo produtivo. Este motivo é especialmente acentuado entre as empresas que usam AI e robótica, abrangendo respectivamente 30% e 40% das empresas. Considerando as cinco tecnologias em conjunto, os autores estimam que 30,4% dos trabalhadores americanos estão expostos ao uso da tecnologia com fins de automação.

O estudo também mostra que as empresas que adotam tecnologias avançadas são mais produtivas e pagam salários mais altos. Os autores estimam que o uso dessas tecnologias explica entre 20% e 30% da diferença de produtividade do trabalho entre empresas grandes e pequenas.

Em resumo, esses resultados sugerem que a adoção de tecnologias avançadas nos Estados Unidos, e especialmente IA, tem sido concentrada em empresas de grande porte. Isso pode ajudar a explicar por que o crescimento da produtividade agregada tem sido modesto.

O fato de que uma parcela expressiva das empresas tem adotado as novas tecnologias para automatizar processos em vez de criar novos produtos é compatível com os efeitos negativos que têm sido verificados sobre o emprego e salário de trabalhadores com qualificação intermediária que exercem atividades rotineiras.

Caso esses padrões persistam, o cenário em que a disseminação da IA generativa tem pouco efeito sobre a produtividade e impacto negativo no mercado de trabalho tende a se materializar. Existe muito que pode ser feito para que o resultado seja positivo, mas é preciso agir logo.

O artigo foi publicado em 21 de agosto no Blog do IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Do mesmo autor

Autor(es)

  • Fernando Veloso

    É pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, professor da EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e pesquisador associado do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da FGV. PhD em Economia pela University of Chicago. Tem graduação em Economia pela Universidade de Brasília e mestrado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É coordenador (com Silvia Matos) do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

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