O mercado de trabalho do futuro

O problema do mercado de trabalho em muitas economias avançadas não é a falta de emprego, mas a baixa qualidade de grande parte dos postos de trabalho gerados.

Economia
10/03/2022
Fernando Veloso

Uma questão central nos dias de hoje diz respeito ao impacto das novas tecnologias sobre o mercado de trabalho. Mesmo antes da pandemia, vários centros de pesquisa, instituições multilaterais e empresas de consultoria já dedicavam muita atenção a este tema.

Uma importante iniciativa foi a criação, em 2018, do MIT Task Force on the Work of the Future, envolvendo pesquisadores de doze departamentos do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT). Seu principal objetivo é entender como as novas tecnologias afetam o mercado de trabalho e fazer recomendações de políticas públicas para que as novas oportunidades resultem na criação de bons empregos, entendidos como aqueles que propiciam uma boa remuneração e um grau adequado de proteção social.

Em janeiro deste ano, foi lançado um livro que resume as principais conclusões da pesquisa desenvolvida pela Task Force nos últimos três anos (“The Work of the Future: Building Better Jobs in an Age of Intelligent Machines”). Embora focado na experiência dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos, suas lições também podem ser úteis para o Brasil.

Uma primeira conclusão do livro é que não existem evidências de que as novas tecnologias estavam gerando ou possam vir a gerar um aumento permanente da taxa de desemprego. Pelo contrário, com o envelhecimento da população, a demanda por trabalhadores por parte das empresas provavelmente vai exceder a oferta de trabalho nos próximos anos.

O problema do mercado de trabalho em muitas economias avançadas não é a falta de emprego, mas a baixa qualidade de grande parte dos postos de trabalho gerados, caracterizados por baixos salários e ausência de proteção social, especialmente em atividades de serviços pessoais, como hospedagem e alimentação.

Enquanto a produtividade por hora trabalhada nos Estados Unidos aumentou 66% entre 1978 e 2016, o salário real de um trabalhador típico (salário mediano) aumentou apenas 12% nesse período. Uma possível explicação para esta divergência entre o crescimento da produtividade e dos salários é que os ganhos de produtividade beneficiaram os trabalhadores de forma desigual, favorecendo aqueles com maior qualificação.

De fato, enquanto o salário real de trabalhadores americanos com ensino superior completo ou pós-graduação aumentou mais de 25% entre 1980 e 2017, a remuneração de trabalhadores sem ensino superior completo teve queda de mais de 10% ao longo desse período. Isso ocorreu em grande medida porque as novas tecnologias e as forças da globalização beneficiaram os trabalhadores mais qualificados, especialmente aqueles com ensino superior completo.

Embora diferenças de escolaridade possam ajudar a entender o aumento da desigualdade de salários nas últimas quatro décadas, os autores argumentam que outros fatores também foram importantes para explicar a deterioração da qualidade dos postos de trabalho nos Estados Unidos, como o baixo valor do salário mínimo, o enfraquecimento dos sindicatos e o aumento do poder de mercado de grandes empresas.

Diante desse diagnóstico, os autores apresentam uma série de recomendações de políticas públicas e mudanças institucionais de modo a fazer com que os ganhos de produtividade da economia americana venham a ser compartilhados por toda a sociedade por meio da criação de bons empregos.

Dentre elas, incluem-se o aumento do salário mínimo, bem mais baixo que em outras economias avançadas, assim como a criação de novas formas de representação coletiva dos trabalhadores, especialmente diante do surgimento das modalidades de emprego associadas à “economia dos aplicativos”. Na mesma linha, os autores enfatizam a necessidade de estender a rede de proteção social aos trabalhadores que não contam com os benefícios tradicionais associados a contratos formais de trabalho, por meio de uma ampliação da elegibilidade ao seguro desemprego.

O livro também apresenta várias propostas de melhoria do sistema de qualificação profissional e de intermediação de emprego. Por exemplo, existem várias evidências de que programas bem-sucedidos envolvem uma colaboração estreita entre as entidades responsáveis pela qualificação profissional e as empresas. Neste sentido, os autores recomendam que recursos federais sejam destinados de forma competitiva para instituições que implementem programas com essas características voltados para trabalhadores sem ensino superior completo.

Outra recomendação é condicionar o pagamento dos responsáveis pela provisão dos serviços de qualificação aos resultados obtidos em termos de empregabilidade e aumento da remuneração dos trabalhadores que passam pelo treinamento.

No que diz respeito à intermediação do emprego, são sugeridas diversas maneiras de facilitar a conexão entre trabalhadores procurando emprego e empresas oferecendo vagas. Dentre elas, é sugerida a criação de uma base de dados online que forneça informações em tempo real sobre oportunidades de emprego e qualificações dos trabalhadores.

Embora algumas recomendações sejam específicas para a realidade dos Estados Unidos, muitas são de grande relevância para o Brasil, especialmente aquelas referentes à qualificação profissional e intermediação do emprego. Afinal, assim como em várias economias avançadas, o principal problema do mercado de trabalho no Brasil não é a incapacidade de gerar emprego, mas a baixa qualidade dos postos de trabalho ofertados.

Diante das transformações em curso, e que foram exacerbadas pela pandemia, o mercado de trabalho do futuro deveria ser uma preocupação fundamental do próximo governo.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Broadcast da Agência Estado em 04/03/2022.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Fernando Veloso

    He holds a bachelor’s degree in Economics from the University of Brasília (1989), a Master's degree in Economics from the Pontifical Catholic University of Rio de Janeiro (1993) and a PhD in Economics from the University of Chicago (1999). He is currently a member of the editorial board of Economic Research and Planning (Rio de Janeiro), a reviewer of the Journal of Economic Research and Planning (Rio de Janeiro), a reviewer of the Brazilian review of econometrics, a reviewer of the Brazilian Journal of Economics (print), Reviewer of the Journal of Applied Economics, Reviewer of Economics Studies (USP) and Researcher at Fundação Getulio Vargas. Has experience in Economics, with an emphasis on Growth, Fluctuations and Economic Planning. Acting mainly in the following areas: fecundity, wealth distribution, growth model, human capital, intergenerational mobility.

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