A nova revolução da IA virá da robótica
A nova revolução da IA virá da robótica e o Brasil, se não quiser ficar para trás, precisa engraxar os joelhos e começar a correr.
O atual paradigma da Inteligência Artificial começa a dar sinais de esgotamento. Infraestruturas cada vez maiores têm gerado melhorias cada vez menores nos modelos de IA. Por isso, o progresso na IA não virá por mais do mesmo, mas por uma mudança de rumo, uma revolução.
Para ter uma intuição do porquê desse esgotamento, imagine como seria a sua compreensão da gravidade se a conhecesse apenas pelos livros de Física, sem nunca ter levado um tombo ou caído da bicicleta. Nós conhecemos o mundo a partir do corpo. O corpo que cai e se levanta, que vê a luz da vela, e fecha portas com cuidado depois de já ter prendido o dedo. Com a IA é diferente: conhece o mundo apenas pelo relato de outros. Como uma Rapunzel que só conhece o mundo pelos relatos da mãe, é natural que saiba pouco sobre a vida real. Por isso, IAs têm dificuldade em estabelecer noções de causalidade e alucinam com frequência. Falta à IA um corpo pela qual ela possa interagir com o mundo e conhecê-lo. Mas como dar à IA um corpo? Colocando-a em um robô.
Segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR), a concentração global de robôs na indústria era de cerca de um robô para cada 60 funcionários. Mas há muita disparidade entre países: Coreia do Sul, China e EUA têm um robô para cada 10, 26 e 35 trabalhadores respectivamente. O Brasil, 1 para cada 830.
Ritmo também importa. Ainda segundo o IFR, o mundo instalou em 2024 mais de meio milhão de robôs industriais, o quarto ano consecutivo acima dessa marca. Na China, foram 295 mil robôs novos instalados; nos EUA, 34 mil; no México, 5,6 mil. No Brasil, foram pouco menos de 2 mil, número insuficiente para sustentar uma cadeia de fornecedores, integradores e desenvolvedores locais.
Sensores, motores, mecanismos, tudo precisa ser importado. Isso gera um ciclo vicioso. Importar esses insumos é custoso, o que desincentiva o investimento no setor. Mas sem investimento no setor, não se criam as condições necessárias para que os insumos sejam produzidos localmente. A instabilidade do câmbio, as altas taxas de importação e mudanças na lista de ex-tarifários dificultam o planejamento de longo de prazo necessário para o desenvolvimento das cadeias de suprimento que poderiam tornar o investimento em robótica menos custoso no país.
Esses custos oneram especialmente as pequenas e médias empresas (PMES), de modo que o abismo de automação entre grandes empresas e PMEs só aumenta.
A questão não é só sobre dinheiro. O processo de importação de alguns componentes de robótica é complexo e demorado, mesmo quando há canais de importação com isenção de impostos. Em um setor que depende de agilidade e experimentação contínua, cada semana perdida na alfândega é uma semana a menos de inovação.
Outro gargalo é gente qualificada. Faltam engenheiros, técnicos em mecatrônica, programadores de controladores lógicos. Faltam profissionais que consigam sentar-se à
mesa com fabricantes globais, compreender especificações técnicas de um dispositivo eletrônico e negociar sua compra em mandarim.
Ainda assim, há motivos para esperança, e até orgulho. Apesar das dificuldades, o Brasil desenvolveu ecossistemas de conhecimento altamente especializados. Um exemplo notório é o centro de pesquisa da Petrobras (CENPES), que possui laboratórios especializados em robótica submarina e desenvolve tecnologia pioneira para operação em águas profundas e ultra profundas. Nesses laboratórios nascem robôs como o GIRINO, um robô de tecnologia patenteada que realiza a inspeção e manutenção dentro dos dutos da Petrobras utilizando energia hidráulica para seus movimentos internos.
O Brasil não precisa competir com a China na produção de robôs genéricos, mas pode se tornar referência em nichos nos quais possui vantagens comparativas: robótica aplicada à energia, à mineração, ao agronegócio e à logística verde. São áreas em que temos escala, conhecimento técnico e onde um avanço tecnológico genuíno traria ganhos econômicos e ambientais.
Para isso, precisamos de políticas de longo prazo que criem as condições para produzir tecnologia localmente, reduzindo custos e prazos de importação de componentes essenciais. Programas de estímulo à produção, a exemplo dos Production-Linked Incentives da Índia, que concedem subsídios financeiros a empresas que ampliam sua produção doméstica em setores estratégicos, poderiam atrair fabricantes globais a montar robôs no Brasil e estimular o surgimento de fornecedores nacionais. A previsibilidade fiscal e regulatória, aliada a crédito direcionado e metas de crescimento da densidade robótica, formaria a base de um ambiente favorável à indústria.
Outro eixo essencial é o fortalecimento da pesquisa e da inovação tecnológica. A criação de polos de robótica, parques tecnológicos e centros de excelência conectando universidades, startups e empresas permitiria desenvolver robôs voltados para agricultura, mineração, energia ou saúde, por exemplo. O governo deve promover a criação de tais centros e viabilizar a patente de suas invenções, seja financiando ou dispensando os custos de patenteamento. Igualmente importante é ampliar o crédito à inovação em robótica e apoiar projetos-piloto e testes industriais.
Por fim, uma estratégia nacional de capacitação em robótica deve formar profissionais bilíngues e atualizados, com currículos desenvolvidos em parceria com fabricantes globais. Se o país pretende formar e reter talentos especializados, é preciso valorizar a educação técnica como política de Estado, não como política social compensatória.
O Brasil tem feito avanços importantes: reduziu tarifas de importação e criou programas como o Nova Indústria Brasil, com crédito para inovação e automação. O programa, porém, contempla a robótica juntamente com digitalização e automação -- também importantes, mas que lhe diluem o foco. Às vezes nossas políticas públicas parecem um jogador de xadrez que come as peças do adversário, mas perde a oportunidade de dar um xeque-mate. Mas já é um primeiro e importante passo.
O próximo, é transformar essas ações em política de Estado, com metas, estabilidade regulatória e foco na produção local, para que o país possa desenvolver robôs que falem português.
Autores

Felipe Buchbinder
Professor do curso de Graduação da FGV EBAPE. Possui vivência internacional em Lyon (França), onde realizou um ano de sua graduação com bolsa da CAPES, e em Londres (Reino Unido), onde foi… ver maisFelipe Buchbinder
Professor do curso de Graduação da FGV EBAPE. Possui vivência internacional em Lyon (França), onde realizou um ano de sua graduação com bolsa da CAPES, e em Londres (Reino Unido), onde foi alfabetizado. Interessa-se, sobretudo, pelo desenvolvimento de modelos matemáticos e estatísticos aplicados à Administração, com ênfase particular às áreas de Estratégia Competitiva e Negócios Internacionais.