Administração

A nova revolução da IA virá da robótica

Felipe Buchbinder

A nova revolução da IA virá da robótica e o Brasil, se não quiser ficar para trás, precisa engraxar os joelhos e começar a correr. 

O atual paradigma da Inteligência Artificial começa a dar sinais de esgotamento. Infraestruturas cada vez maiores têm gerado melhorias cada vez menores nos modelos de IA. Por isso, o progresso na IA não virá por mais do mesmo, mas por uma mudança de rumo, uma revolução. 

Para ter uma intuição do porquê desse esgotamento, imagine como seria a sua compreensão da gravidade se a conhecesse apenas pelos livros de Física, sem nunca ter levado um tombo ou caído da bicicleta. Nós conhecemos o mundo a partir do corpo. O corpo que cai e se levanta, que vê a luz da vela, e fecha portas com cuidado depois de já ter prendido o dedo. Com a IA é diferente: conhece o mundo apenas pelo relato de outros. Como uma Rapunzel que só conhece o mundo pelos relatos da mãe, é natural que saiba pouco sobre a vida real. Por isso, IAs têm dificuldade em estabelecer noções de causalidade e alucinam com frequência. Falta à IA um corpo pela qual ela possa interagir com o mundo e conhecê-lo. Mas como dar à IA um corpo? Colocando-a em um robô. 

Segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR), a concentração global de robôs na indústria era de cerca de um robô para cada 60 funcionários. Mas há muita disparidade entre países: Coreia do Sul, China e EUA têm um robô para cada 10, 26 e 35 trabalhadores respectivamente. O Brasil, 1 para cada 830. 

Ritmo também importa. Ainda segundo o IFR, o mundo instalou em 2024 mais de meio milhão de robôs industriais, o quarto ano consecutivo acima dessa marca. Na China, foram 295 mil robôs novos instalados; nos EUA, 34 mil; no México, 5,6 mil. No Brasil, foram pouco menos de 2 mil, número insuficiente para sustentar uma cadeia de fornecedores, integradores e desenvolvedores locais. 

Sensores, motores, mecanismos, tudo precisa ser importado. Isso gera um ciclo vicioso. Importar esses insumos é custoso, o que desincentiva o investimento no setor. Mas sem investimento no setor, não se criam as condições necessárias para que os insumos sejam produzidos localmente. A instabilidade do câmbio, as altas taxas de importação e mudanças na lista de ex-tarifários dificultam o planejamento de longo de prazo necessário para o desenvolvimento das cadeias de suprimento que poderiam tornar o investimento em robótica menos custoso no país. 

Esses custos oneram especialmente as pequenas e médias empresas (PMES), de modo que o abismo de automação entre grandes empresas e PMEs só aumenta. 

A questão não é só sobre dinheiro. O processo de importação de alguns componentes de robótica é complexo e demorado, mesmo quando há canais de importação com isenção de impostos. Em um setor que depende de agilidade e experimentação contínua, cada semana perdida na alfândega é uma semana a menos de inovação. 

Outro gargalo é gente qualificada. Faltam engenheiros, técnicos em mecatrônica, programadores de controladores lógicos. Faltam profissionais que consigam sentar-se à 

mesa com fabricantes globais, compreender especificações técnicas de um dispositivo eletrônico e negociar sua compra em mandarim. 

Ainda assim, há motivos para esperança, e até orgulho. Apesar das dificuldades, o Brasil desenvolveu ecossistemas de conhecimento altamente especializados. Um exemplo notório é o centro de pesquisa da Petrobras (CENPES), que possui laboratórios especializados em robótica submarina e desenvolve tecnologia pioneira para operação em águas profundas e ultra profundas. Nesses laboratórios nascem robôs como o GIRINO, um robô de tecnologia patenteada que realiza a inspeção e manutenção dentro dos dutos da Petrobras utilizando energia hidráulica para seus movimentos internos. 

O Brasil não precisa competir com a China na produção de robôs genéricos, mas pode se tornar referência em nichos nos quais possui vantagens comparativas: robótica aplicada à energia, à mineração, ao agronegócio e à logística verde. São áreas em que temos escala, conhecimento técnico e onde um avanço tecnológico genuíno traria ganhos econômicos e ambientais. 

Para isso, precisamos de políticas de longo prazo que criem as condições para produzir tecnologia localmente, reduzindo custos e prazos de importação de componentes essenciais. Programas de estímulo à produção, a exemplo dos Production-Linked Incentives da Índia, que concedem subsídios financeiros a empresas que ampliam sua produção doméstica em setores estratégicos, poderiam atrair fabricantes globais a montar robôs no Brasil e estimular o surgimento de fornecedores nacionais. A previsibilidade fiscal e regulatória, aliada a crédito direcionado e metas de crescimento da densidade robótica, formaria a base de um ambiente favorável à indústria. 

Outro eixo essencial é o fortalecimento da pesquisa e da inovação tecnológica. A criação de polos de robótica, parques tecnológicos e centros de excelência conectando universidades, startups e empresas permitiria desenvolver robôs voltados para agricultura, mineração, energia ou saúde, por exemplo. O governo deve promover a criação de tais centros e viabilizar a patente de suas invenções, seja financiando ou dispensando os custos de patenteamento. Igualmente importante é ampliar o crédito à inovação em robótica e apoiar projetos-piloto e testes industriais. 

Por fim, uma estratégia nacional de capacitação em robótica deve formar profissionais bilíngues e atualizados, com currículos desenvolvidos em parceria com fabricantes globais. Se o país pretende formar e reter talentos especializados, é preciso valorizar a educação técnica como política de Estado, não como política social compensatória. 

O Brasil tem feito avanços importantes: reduziu tarifas de importação e criou programas como o Nova Indústria Brasil, com crédito para inovação e automação. O programa, porém, contempla a robótica juntamente com digitalização e automação -- também importantes, mas que lhe diluem o foco. Às vezes nossas políticas públicas parecem um jogador de xadrez que come as peças do adversário, mas perde a oportunidade de dar um xeque-mate. Mas já é um primeiro e importante passo. 

O próximo, é transformar essas ações em política de Estado, com metas, estabilidade regulatória e foco na produção local, para que o país possa desenvolver robôs que falem português.

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Autores

  • Felipe Buchbinder
    Professor do curso de Graduação da FGV EBAPE. Possui vivência internacional em Lyon (França), onde realizou um ano de sua graduação com bolsa da CAPES, e em Londres (Reino Unido), onde foi…  ver mais

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