O Novo Ensino Médio: os desafios da implementação

Para além do grande esforço necessário para o resgate das aprendizagens perdidas em quase dois anos letivos inteiros de ensino remoto, o novo ensino médio trará diversas complicações logísticas e pedagógicas.

Políticas Públicas
24/02/2022
Cláudia Costin

Iniciamos o ano de 2022 na Educação Básica com inúmeros desafios, dado o prolongado fechamento das escolas com a consequente perda de aprendizagens e a ainda insuficiente vacinação das crianças de 5 a 11 anos. Mas um teste adicional se coloca para atingirmos o que nos comprometemos a fazer ao assinar o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 4, ou seja garantir educação de qualidade para todos (e não só para quem nasceu em família afluente ou está suficientemente engajado com os estudos): neste ano começa a implementação do novo ensino médio. 

Durante anos chamou-me atenção a curta duração da jornada escolar nesta etapa, e a proliferação de disciplinas – chegando a 15 em alguns estados, embora as obrigatórias fossem em média 13 - espremidas em apenas quatro horas de aula. Desta forma, os alunos acabavam recebendo um verniz de cada área, sem ter a possibilidade de, como recomenda Edgar Morin, religar os saberes em um pensamento autônomo, integrado e crítico.

Para fazer frente a essa superficialidade na estrutura de ensino, foi aprovada em 2017 a nova proposta, ampliando o tempo mínimo do estudante na escola de 800 para 1000 horas anuais, em preparação para o tempo integral, e definindo uma nova organização curricular, mais flexível, que inclui uma parte comum, oferecida a todos e áreas de aprofundamento a serem escolhidas pelos alunos, os itinerários formativos.

Não será nada fácil implementar estas mudanças. Para além do grande esforço necessário para o resgate das aprendizagens perdidas em quase dois anos letivos inteiros de ensino remoto ou rodízio de alunos num processo semipresencial e o limitado acesso a equipamentos e conectividade por parte de inúmeros alunos da Educação Básica, o novo ensino médio trará diversas complicações logísticas e pedagógicas.

Neste sentido, foi sábio começar a transformação, em 2022, com a primeira série do ensino médio, que não inclui necessariamente os itinerários formativos. Mesmo assim, a Base Nacional Comum Curricular já traz mudanças desafiadoras, para além do necessário aumento da carga horária. Preparar os jovens para uma escolha que terá impacto em seu futuro é uma delas, incluída na previsão de um tempo para trabalhar com eles o seu “projeto de vida”, como já propunha o grande educador brasileiro já falecido, Antonio Carlos Gomes da Costa.

Atrair e reter talento para lecionar no Ensino Médio, o que envolve salários melhores, acabar com a fragmentação dos contratos e oferecer aos mestres o devido reconhecimento profissional, são medidas que levarão certo tempo para serem construídas, mas devem começar a ser adotadas e o avanço na direção do ensino em tempo integral, com professores lotados numa única escola é um bom passo inicial. Além disso, formar os professores para uma prática de ensino mais colaborativa, que integre diferentes disciplinas em áreas de conhecimento, sem perder a especificidade de cada uma, é outro, tão importante quanto o anterior.

Para tanto, foi fundamental a tradução da Base de ensino médio em currículos estaduais, com 22 estados com seus referenciais já aprovados. Vai ser muito importante também adaptar o ENEM à nova realidade, o que começou a ser discutido pelo Conselho Nacional de Educação ainda no final de 2021.

Mas o trabalho mais importante será completado nos anos seguintes, com um esforço para termos uma educação contemporânea, que prepare os jovens para o futuro do trabalho e para uma vida significativa em sociedade, o que envolve formar para uma cidadania global. Isso significa não se limitar a um ensino superficial e conteudista e avançar para a formação de pensadores autônomos, capazes de formular seus próprios juízos frente a um mundo complexo.  

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Cláudia Costin

    Diretora Geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (FGV CEIPE). Integra também a Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização internacional do Trabalho (OIT), das Nações Unidas. Secretária-executiva e Ministra da Administração e Reforma do Estado entre 1995 e 2000. Secretária de Cultura do Estado de São Paulo, entre 2003 e 2005, e Presidente da Promon-Intelligens, empresa voltada para e-learning. Atuou como consultora em políticas públicas e modernização do Estado, apoiando diversos países africanos como Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau Moçambique e São Tomé e Príncipe. Professora universitária, tendo atuado em instituições como PUC-SP, FGV, INSPER e, como professora visitante, na École Nationale d’Administration Publique (Canadá) e Harvard (EUA).

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