O risco da democracia por intervenção
Nem toda queda de ditador fortalece a democracia
O grande receio de um autocrata personalista é sempre o mesmo: o de “perder a própria cabeça”.
Maduro perdeu a oportunidade de negociar um ticket de saída quando se recusou a reconhecer sua derrota nas eleições presidenciais da Venezuela, contribuindo decisivamente para o colapso da democracia no país. Cometeu, assim, um erro recorrente entre ditadores: não saber quando iniciar uma transição pactuada e pacífica de poder.
Se tivesse “jogado para perder” nas eleições, é plausível que tivesse garantido algum tipo de salvo-conduto. Teria projetado a imagem de um líder disposto a conduzir uma transição responsável para a democracia. Em vez disso, caminha agora para enfrentar julgamento e, muito provavelmente, condenação por tráfico internacional de drogas.
O problema, contudo, transcende Maduro. Ele atinge de forma mais ampla a América Latina. O suposto “salvador” da democracia venezuelana frente ao autoritarismo bolivariano foi Donald Trump, ele próprio um líder de perfil altamente personalista, pouco afeito a restrições institucionais, a tratados internacionais e com ambições de caráter imperial.
A literatura comparada mostra que intervenções externas nem sempre produzem resultados negativos. Daron Acemoglu, Nobel de Economia de 2024, e seus coautores argumentam, em “The Consequences of Radical Reform: The French Revolution, que a imposição de reformas institucionais durante a Revolução Francesa, como o Código Napoleônico, teve efeitos econômicos positivos de longo prazo.
Ao remover barreiras legais que protegiam oligarquias e ao instituir igualdade perante a lei, direitos de propriedade mais claros e melhor execução de contratos, essas reformas estimularam a atividade econômica, a inovação e, posteriormente, a industrialização.
O risco central, porém, é que a intervenção americana na Venezuela caminhe na direção oposta. As sinalizações iniciais do governo Trump são inquietantes. Ao sugerir que o destino político venezuelano não será decidido por seus cidadãos, mas por Washington, mina-se um princípio básico da democracia: a autodeterminação popular.
A Venezuela realizou um processo eleitoral considerado legítimo por observadores internacionais, que reconheceram Edmundo G. Urrutia como vencedor do pleito. É esse governo que detém legitimidade democrática para governar o país.
Derrubar um autocrata não é sinônimo de construir democracia. Sem respeito às escolhas eleitorais, às instituições e à soberania, o risco é substituir um autoritarismo doméstico por uma tutela externa, igualmente corrosiva para a democracia.
*Artigo publicado originalmente no Estadão em 04.01.2026
Autores

Carlos Pereira
Professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE). Atualmente também é Visiting Fellow in the Foreign Policy and Global Economy and Development programs do … ver maisCarlos Pereira
Professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE). Atualmente também é Visiting Fellow in the Foreign Policy and Global Economy and Development programs do Brookings Institution, Washington-DC. Anteriormente foi professor titular da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP) e professor do Departamento de Ciência Política da Michigan State University. Teve passagem como professor visitante do departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e do Colby College-Maine, USA. Além disso, foi pesquisador adjunto do Departamento de Ciências Sociais da Fundação Oswaldo Cruz. Possuindo ainda vasta experiência como consultor e pesquisador de agências internacionais como Banco Interamericano de Desenvolvimento-IADB, Banco Mundial, e do Department for International Development (DFID), UK. Publicou em vários periódicos nacionais e internacionais tais como Journal of Politics, Comparative Political Studies, Legislative Studies Quarterly, Governance, Political Research Quarterly, Journal of Latin American Studies, Electoral Studies, Quarterly Review of Economics and Finance, Journal of Legislative Studies, Revista Dados, Revista Brasileira de Economia Política, Revista Brasileira de Ciências Sociais, entre outras. Ele também publicou um livro co-autorado "Regulatory Governance in Infrastructure Industries" pelo World Bank Press e tem outro livro intitulado Power, Beliefs, and Institutions: Understanding Modern Development with an Application to Brazil que será submetido para a Cambridge University Press.