O tabuleiro da COP-30
Se poucas peças se moveram em Belém, isso não significa que o jogo esteja perdido.
A COP-30 terminou como aquelas partidas de xadrez em que todos esperam um avanço decisivo, mas o jogo se arrasta em movimentos cautelosos. Belém colocou a Amazônia no centro da mesa, acendeu holofotes sobre combustíveis fósseis e diplomacia climática, reuniu quase 200 países e, ainda assim, poucas peças parecem ter saído do lugar.
O texto final resume bem essa hesitação: recorda, reconhece, reafirma. Verbos que ocupam páginas, mas não alteram o rumo da partida. Mesmo assim, subestimar o encontro seria um erro. Quando o mundo anda para trás, impedir o retrocesso e manter os mecanismos da UNFCCC operacionais já é uma forma relevante de avanço.
A ausência dos Estados Unidos foi o movimento que influenciou toda a partida. Pela primeira vez em três décadas, Washington simplesmente não apareceu. A Casa Branca, empenhada em ressuscitar o petróleo como eixo da política energética, deixou em Belém um vácuo diplomático que favoreceu quem prefere adiar decisões. Sem os Estados Unidos para pressionar China, Arábia Saudita e outros grandes emissores, o tabuleiro se inclinou para a imobilidade.
A China compareceu, mas preferiu não liderar. Mesmo sendo protagonista da economia verde, atuou de modo minimalista: evitou compromissos, bloqueou avanços e recusou o papel que muitos esperavam que assumisse. Com isso, consolidou-se um equilíbrio confortável para quem aposta na lentidão.
Não foi por falta de pressão. Mais de cem países apoiaram a proposta de um mapa global para abandonar os fósseis e deter o desmatamento. É a primeira vez que o tema entra, de forma tão explícita, no centro da disputa climática. O veto do bloco petroleiro diz menos sobre a fragilidade das propostas e mais sobre a força da pauta.
E, ainda que a COP-30 não tenha produzido grandes movimentos, ela manteve o tabuleiro montado. Num mundo marcado por guerras, desconfiança e fragmentação, preservar o processo já é significativo. A presidência brasileira garantiu o engajamento para que novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sejam apresentadas, estruturou o Mecanismo de Ação de Belém para a transição justa e ampliou o debate sobre financiamento florestal e adaptação. É pouco para a ciência. Mas é mais do que o cenário geopolítico prometia.
Há um motivo adicional para a cautela: o Direito climático está ficando mais denso. Três tribunais internacionais emitiram opiniões consultivas que abrem espaço para responsabilização de Estados por metas fracas ou não cumpridas. Negociadores sabem disso. Cada palavra de uma NDC pode virar argumento num tribunal. O resultado é previsível: discursos aspiracionais cedem espaço a compromissos cirurgicamente medidos.
O efeito combinado é claro. A COP-30 não entregou o roteiro para o fim dos combustíveis fósseis, mas empurrou o debate para um novo nível de exigência. De agora em diante, a partida deve se intensificar fora da UNFCCC: na conferência convocada pela Colômbia, em acordos bilaterais, em instrumentos comerciais, em políticas industriais e em decisões judiciais que começam a moldar o comportamento dos Estados.
Belém mostrou que o multilateralismo climático vive numa corda bamba. Mas também mostrou que há resiliência: a maioria dos países continua disposta a jogar, mesmo quando o tabuleiro parece travado. Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição incomum: é anfitrião, mediador e protagonista ao mesmo tempo. Além disso, terá a caneta da presidência até 2026 e promete continuar usando para operacionalizar dois mapas de estratégias concretas para florestas e fósseis.
Se poucas peças se moveram em Belém, isso não significa que o jogo esteja perdido. Significa que a próxima jogada será ainda mais decisiva. O tabuleiro está montado. Resta saber quem terá a melhor estratégia para avançar.
*Artigo publicado originalmente no Estadão em 06/12/2025
Autores

Isabel Veloso
Professora Adjunta da FGV Direito Rio e Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Direito e Economia (CPDE), com foco nas seguintes áreas: Direito da Concorrência, Instituições (Poder Legislativo e Poder… ver maisIsabel Veloso
Professora Adjunta da FGV Direito Rio e Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Direito e Economia (CPDE), com foco nas seguintes áreas: Direito da Concorrência, Instituições (Poder Legislativo e Poder Judiciário) e Transição Energética. Doutora e Mestre em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), com ênfase em métodos quantitativos. Possui pós-graduação em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e é graduada em Relações Internacionais pela UFF.

Maria Clara Fernandes

Rosinaldo Sampaio Lobato Junior