A pandemia foi um choque temporário ou permanente?

Embora a rápida recuperação da atividade e do emprego em vários países possa ter dado a impressão de que a pandemia teria efeitos econômicos temporários, começam a se avolumar evidências de que seu impacto será permanente.  

Economia
13/09/2023
Fernando Veloso

O Simpósio de Jackson Hole realizado semana passada teve como tema as mudanças estruturais da economia global. Como enfatizado por diversos participantes, a pandemia exacerbou transformações que já estavam em curso e criou novos desafios para os próximos anos.

Embora a rápida recuperação da atividade e do emprego em vários países possa ter dado a impressão de que a pandemia teria efeitos econômicos temporários, começam a se avolumar evidências de efeitos permanentes.

Um relatório recente do Banco Mundial mostra que houve forte queda do nível de aprendizagem de crianças e jovens na maioria dos países. Além disso, a volta às aulas não foi suficiente para recuperar o nível de proficiência dos alunos. Políticas educacionais com foco nos estudantes com maior dificuldade, como tutorias e horas adicionais em sala de aula, podem ajudar no processo de recuperação, mas seu uso tem sido muito limitado.

Um estudo da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal citado no relatório mostra que crianças que terminaram a pré-escola em Sobral em 2021, após dois anos de ensino remoto, tinham um déficit de aprendizagem de cerca de 10 meses em comparação com crianças que concluíram a pré-escola em 2019. Uma pesquisa de Guilherme Lichand e coautores mostra que o aprendizado na modalidade remota de alunos do ensino médio do Estado de São Paulo correspondeu a menos de 30% do conteúdo ensinado presencialmente.

Ao contrário do ensino, a adoção de tecnologias de trabalho remoto foi muito bem-sucedida durante a pandemia e por isso sua utilização em larga escala provavelmente será permanente. Pesquisas de Nicholas Bloom e coautores mostram que o percentual de dias trabalhados em home office nos Estados Unidos aumentou de cerca de 5% em 2019 para 25% em 2023, o que equivale ao crescimento que teria ocorrido em 35 anos caso fosse mantida a tendência pré-pandemia. Atualmente, 30% dos trabalhadores americanos estão no regime hibrido, fazendo home office 2 ou 3 dias na semana. Outros 10% trabalham remotamente em tempo integral.

Bloom e outros pesquisadores também mostram evidências de que o trabalho remoto veio para ficar em 27 países, incluindo o Brasil, com parcela expressiva dos trabalhadores e empresas manifestando o desejo de manter o regime de home office de forma permanente durante pelo menos parte da semana.

Essa aceleração extraordinária do trabalho remoto terá implicações importantes não somente para o funcionamento do mercado de trabalho, mas também sobre a estrutura das cidades.

Um estudo de Esteban Rossi-Hansberg e coautores mostra que a adoção em larga escala do trabalho remoto resultou em expressivo esvaziamento dos centros urbanos das grandes cidades dos Estados Unidos. Em Nova York e São Francisco, por exemplo, o número de deslocamentos de pessoas para o centro corresponde atualmente a apenas 40% do nível pré-pandemia. Por outro lado, cidades de pequeno e médio porte já restabeleceram o patamar pré-pandemia.

Os autores também documentam que, enquanto nas grandes cidades o preço relativo de residências próximas do centro teve forte queda, no caso de cidades menores os preços não se alteraram em relação ao observado antes da pandemia.

Como ressaltou Barry Eichengreen no evento de Jackson Hole, o forte crescimento da dívida pública verificado em muitos países durante a pandemia também veio para ficar. No caso do Brasil, uma consequência imediata foi a substituição do teto de gastos por um novo arcabouço fiscal que não assegura a estabilidade da trajetória da dívida.

A combinação de uma situação fiscal frágil com o uso mais intensivo de tecnologias de inteligência artificial (IA) generativa pode complicar consideravelmente o quadro. Como discuti na última coluna, caso os padrões de adoção de tecnologia observados na última década persistam, a disseminação da IA generativa terá pouco efeito sobre a produtividade e impacto negativo no mercado de trabalho. Caso esse cenário se materialize, a demanda por aumento de transferências sociais será grande, como sinaliza a volta da discussão sobre a renda básica universal.

Em resumo, embora a crise sanitária tenha sido temporária, a pandemia provavelmente terá efeitos permanentes na economia. Vamos ter que lidar com as consequências nos próximos anos.

Este artigo foi publicado no Blog do IBRE em 4 de setembro de 2023.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Fernando Veloso

    É pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, professor da EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e pesquisador associado do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da FGV. PhD em Economia pela University of Chicago. Tem graduação em Economia pela Universidade de Brasília e mestrado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É coordenador (com Silvia Matos) do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

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