O PIX e o novo cenário competitivo no mercado de pagamentos

Caso o PIX se torne um meio de pagamento preferencial, como se espera, é possível que muitos desses comércios informais deixem de ter a maquininha, principalmente aqueles cujas vendas com cartão de crédito são pouco relevantes (o PIX não engloba ainda as transações via cartão de crédito)

Administração
13/10/2020
Rafael Schiozer

O PIX, novo sistema de pagamentos desenvolvido pelo Banco Central, começará a funcionar no dia 16 de novembro. Um mês antes de sua entrada em operação, já foram feitos dezenas de milhões de cadastros no novo sistema.

O novo sistema funcionará 24 horas por dia, nos sete dias da semana. O novo sistema é uma alternativa às transferências por meio de DOC e TED e, pode, ao longo de alguns anos, vir a substitui-las por completo. Mas ainda mais importante, espera-se que o PIX venha a se tornar um dos meios de pagamento mais importantes do varejo. Do ponto de vista de quem faz o pagamento de uma compra, o PIX terá uma função muito parecida com o cartão de débito: o valor pago será debitado da conta do pagador praticamente em tempo real. A conveniência do pagamento via celular é um atrativo.

Para quem vende, o PIX possui algumas vantagens em relação aos arranjos atuais de pagamentos. Especialmente para os pequenos varejos e empreendedores informais, como os ambulantes, o PIX deve fazer frente às “maquininhas” de cartão. As taxas e tarifas cobradas pelas maquininhas consomem hoje boa parte da margem desses negócios. Havendo agora o PIX como alternativa de pagamento, a competição deve fazer essas tarifas caírem. O crédito imediato para quem recebe, proporcionado pelo PIX, também traz vantagens na menor necessidade de investimento em capital de giro pelos comerciantes. No limite, caso o PIX se torne um meio de pagamento preferencial, como se espera, é possível que muitos desses comércios informais deixem de ter a maquininha, principalmente aqueles cujas vendas com cartão de crédito são pouco relevantes (o PIX não engloba ainda as transações via cartão de crédito).

A interoperabilidade do PIX também facilitará o pagamento a partir das chamadas “contas de pagamento” oferecidas por algumas Fintechs. Essas contas são, do ponto de vista do cliente, muito parecidas com uma conta corrente, e têm como atrativo um custo mais baixo de manutenção do que as contas correntes dos bancos tradicionais, especialmente para os clientes de menor renda.

É certo que os grandes bancos terão uma redução de receitas. Primeiro, porque a receita de tarifas cobradas em DOCs e TEDs devem cair. Mais importante, as principais adquirentes de cartão, das quais os grandes bancos são donos, devem perder tanto em volume transacionado quanto em margem de lucro. Resta saber se os bancos vão responder a essa perda de receitas com outras tarifas cobradas de seus clientes, ou se a competição das Fintechs os impedirá de repassar essa perda aos clientes.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Rafael Schiozer

    Professor Titular de Finanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP) e bolsista produtividade em pesquisa do CNPq. Sua pesquisa foca em estabilidade financeira, gestão de bancos, riscos e crises financeiras. Bacharel em Administração de Empresas pela USP, mestre em Engenharia de Petróleo pela Unicamp e doutor em Administração de Empresas pela FGV EAESP. Fez Doutorado-sanduíche em Finanças - University of Washington (2005). É “subject editor” dos periódicos Emerging Markets Review e Journal of Multinational Financial Management e membro do conselho editorial da Revista Estudos Econômicos

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