Proporção de mulheres da ‘Geração Sanduíche’ fora do mercado é quase seis vezes maior do que a dos homens

Economia
19/03/2024
Janaína Feijó

Quase 1 milhão de adultos entre 35 e 49 anos convive com idosos e filhos no lar. Maior parte são mulheres, sendo que 34% delas estão fora do mercado de trabalho. A taxa de informalidade entre as que estão ocupadas é de 37%.

Nas últimas décadas ocorreram importantes transformações demográficas nos países, tais como o aumento da expectativa de vida da população e queda das taxas de fecundidade. Essas mudanças impactam o presente e o futuro das economias, alterando os arranjos familiares, aumentando a necessidade de redesenhar/criar políticas públicas e requerendo novos serviços para atender às novas demandas da população.

Em relação as estruturas familiares, um fenômeno, que seria improvável de acontecer há algumas décadas, tem se tornado cada vez mais comum: a existência e corresidência de várias gerações. As pessoas estão conseguindo mais facilmente conviver/compartilhar períodos da sua vida com parentes de diferentes faixas etárias e por mais tempo. Por exemplo, as chances de um adulto ter  avós e bisavós vivos é maior hoje do que há 40 anos atrás. Já a corresidência se refere a diferentes gerações vivendo em um mesmo domicílio.

A convivência com mais gerações permite a transmissão de conhecimento, cultura e valores,  fortalecendo os laços familiares. Contudo, quando há presença simultânea de idosos e filhos dependentes de um mesmo adulto, pode ocorrer uma sobrecarga física e mental desta geração que ocupa a posição de responsável. A dependência diz respeito ao tempo, cuidados e recursos financeiros que filhos e idosos tendem a demandar de um adulto. Além disso, essa posição de responsável geralmente é assumida por uma mulher. Dadas as normas culturais vigentes, elas precisam lidar com a maior parte das responsabilidades da casa e cuidar dos filhos e idosos.

Os adultos que estão nesta condição têm sido denominados como Geração Sanduiche (GS) - uma forma de descrever a compressão vivida pelas demandas simultâneas de gerações ascendentes e descendentes à sua. Portanto, a GS pode ser definida como adultos em meia idade, geralmente na faixa de 35 a 49 anos, comprimidos por demandas simultâneas de um ou ambos os pais e de filhos/netos dependentes. Pessoas em outras faixas etárias também podem se encontrar nessa situação, mas é menos comum. 

Como a GS se refere a adultos com elevado nível de responsabilidades, estes geralmente estão na posição de chefe da família ou são cônjuges do chefe. Portanto, os gráficos, a seguir, mostram a quantidade de adultos chefes de domicílios, ou cônjuges dos chefes, de 35 a 49 anos, que convivem com outras gerações (filhos e/ou idosos) dentro dos seus lares e o desempenho desses indivíduos no mercado de trabalho. As estatísticas foram obtidas a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).

Ao final do ano de 2023 existiam 955 mil chefes/cônjuges entre 35 e 49 anos vivendo em lares com filhos até 24 anos e idosos com 65 anos ou mais. A maior parte dos adultos GS eram mulheres (60,2%), conforme mostra o Gráfico 1. Além disso, o crescimento da quantidade de mulheres pertencentes a GS foi superior ao dos homens. Enquanto elas aumentaram em 27,1%, passando de 452 mil para 575 mil no período 2012.T4-2023.T4, a quantidade de homens cresceu 17,2%, aumentando de 311 mil para 380 mil.

Gráfico 1 – Evolução dos chefes ou cônjuges do chefe, de 35 a 49 anos, em domicílios com filhos (<25 anos) e idosos (65+) - Geração Sanduiche


Fonte: elaboração da autora com base nos microdados da PNADC IBGE

A quantidade de adultos pertencentes a GS em 2023.T4 foi menor do que nos últimos três anos, mas isso não necessariamente sinaliza que o fenômeno está diminuindo no Brasil. Como a pandemia impactou negativamente muitas famílias, com perdas de empregos, renda e restrições de locomoção, alguns idosos podem ter passado a morar com os filhos adultos temporariamente. Portanto os quantitativos reportados entre os anos de 2020 e 2022 podem ter sido maiores por conta das restrições impostas pela crise sanitária.

Vale ressaltar que os números do Gráfico 1 podem subestimar a quantidade real de adultos GS, pois mesmo que os adultos não residam com seus pais idosos, há muitos casos em que o adulto é o principal responsável pelo idoso, ajudando-os a gerir suas vidas, mesmo que estejam em outros domicílios. A Tabela 1 mostra em que tipo de arranjos as mulheres de 35 a 49 anos que são chefes ou cônjuges do chefe estão inseridas. Nota-se que embora a mulheres GS tenham crescido 27,1% entre os anos 2012 e 2023, representam ainda uma pequena parcela do total de mulheres (2,6% em 2023.T4).

Tabela 1 – Mulheres chefes ou cônjuges do chefe com 35 a 49 anos quanto a presença ou não de filhos menores de 25 anos e idosos com 65 anos ou mais no domicílio


Fonte: elaboração da autora com base nos microdados da PNADC IBGE

Outro grupo que teve crescimento expressivo nesse período foi o das mulheres que tinham idosos em casa (71,4%), mas também com participação baixa (1,3%). Esse arranjo pode vir aumentar sua participação nos próximos anos, devido a elevação da expectativa de vida. Embora a maior parte dessas mulheres estejam em lares apenas com filhos até 24 anos de idade (75,9%), esse grupo perdeu participação quando comparado com 2012 (80,8%). A queda de participação dessa categoria e ascensão das demais categorias tenderão a continuar ao longo do tempo.

Um dos efeitos adversos de residir com muitas gerações em um domicílio é a sobrecarga para a geração central. Mesmo que existam homens GS, a sobrecarga tende a ser maior para as mulheres, pois é sobre elas que recaem as atividades de cuidado dentro de um lar. A impossibilidade de conciliar múltiplas tarefas dentro do lar afeta diretamente a inserção das mulheres no mercado de trabalho e a qualidade dos postos de trabalho ocupados.

O Gráfico 2 mostra que a proporção de mulheres GS fora do mercado de trabalho (33,6%) é quase seis vezes maior do que a registrada pelos homens GS (6,1%). Mesmo comparando com outras mulheres na mesma faixa etária e na mesma condição de chefe ou cônjuge do chefe, as mulheres da GS têm as maiores chances de estarem fora do mercado de trabalho.

Gráfico 2 – Proporção de chefes de família ou cônjuges do chefe com 35 a 49 anos de idade que estão fora da força de trabalho – por gênero e quantidade de gerações residindo em seus lares. 2023.T4.


Fonte: elaboração da autora com base nos microdados da PNADC IBGE

A proporção de mulheres fora do mercado que residem apenas com idosos foi de 31,4%, enquanto entre as que residiam com apenas filhos até 24 anos foi de 29%. Observa-se que as mulheres que não residem com filhos e nem idosos tem menores chances de estar fora do mercado (25,1%). Entre as mulheres GS que conseguem conciliar as múltiplas tarefas e trabalhar, o grau de informalidade é elevado, seja comparado aos seus pares homens ou as outras mulheres que residem com menos gerações dentro do lar, conforme mostra o Gráfico 3. A taxa de informalidade entre as mulheres GS (36,6%) foi maior do que a dos homens GS (33,7%) e maior do que as das mulheres residindo com idosos (35,9%), filhos (35%), ou sem idosos e filhos (34,3%).

A elevada taxa de informalidade das mulheres GS está relacionada ao seu nível educacional, a quantidade de horas que elas conseguem trabalhar e ao tipo de função que elas desempenham em seus empregos. Atividades informais tendem a oferecer maior flexibilidade, mas em contrapartida, também remunera menos.

Gráfico 3 – Taxa de Informalidade dos chefes ou cônjuges do chefe, com 35 a 49 anos, que estão trabalhando – por gênero e quantidade de gerações residindo em seus lares. 2023.T4.


Fonte: elaboração da autora com base nos microdados da PNADC IBGE

De acordo com o Gráfico 4, o rendimento médio das mulheres da GS ocupadas foi R$ 2.949 reais, cerca de 34,4% menor do que os homens da GS. O rendimento delas também foi menor do que reportado pelas mulheres com apenas filhos de até 24 anos (R$ 3.003), ou com apenas idosos (R$ 3.405) ou sem filhos e sem idosos (R$ 3.405). O rendimento, por hora trabalhada seguiu o mesmo padrão, com as mulheres da GS ganhando R$ 20,20 reais por cada hora trabalhada enquanto os homens nessa situação ganharam R$ 35 reais por cada hora trabalhada.

Gráfico 4 – Rendimento médio habitual de todos os trabalhos e por hora trabalhada dos chefes de família ou cônjuges do chefe de 35 a 49 anos. Por gênero e quantidade de gerações residindo em seus lares. 2023.T4.

Fonte: elaboração da autora com base nos microdados da PNADC IBGE

Portanto, verifica-se que embora a condição de “ensanduichamento” possa ocorrer tanto para homens quanto para as mulheres, são as mulheres que acabam sendo mais penalizadas pelo fato de as atividades de cuidado recaírem predominantemente sobre elas. Essa situação pode gerar um fator de risco para a saúde das mulheres de meia-idade, devido ao estado constante de tensão e preocupação.

Além disso, observa-se que a inserção das mulheres no mercado de trabalho é mais sensível ao tipo de arranjo familiar em que estão incluídas, quando comparadas aos homens. Os dados sinalizam que as mulheres chefes ou cônjuges do chefe que corresidiam com duas gerações tinham maiores chances de estar fora da força de trabalho. Entre as que trabalhavam, o grupo de mulheres GS apresentou a maior taxa de informalidade, o menor rendimento médio do trabalho e o menor rendimento por hora trabalhada.

Esse artigo foi publicado originalmente no Blog do IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Janaína Feijó

    Pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV IBRE. Atualmente desenvolve pesquisas na área de mercado de trabalho, educação e desigualdades sociais. Doutora em Economia pela Universidade Federal do Ceará (CAEN UFC), mestre em Economia pela Universidade Federal do Ceará (CAEN-UFC) e bacharel em Ciências Econômicas (UFC).

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