Quais são as qualificações demandadas pela inteligência artificial?

O estudo da OCDE revela que, apesar do rápido crescimento recente, a parcela de empregos relacionados à IA ainda é pequena. Além de qualificações técnicas, as empresas mais intensivas em IA demandam habilidades socioemocionais.

Economia
08/11/2023
Fernando Veloso

A principal diferença das novas modalidades de inteligência artificial (IA) em relação às tecnologias digitais anteriores é sua capacidade de substituir trabalhadores que exercem atividades não-rotineiras, como geração de conteúdo.

Portanto, a adoção crescente da IA pelas empresas resultará em mudanças importantes nas qualificações demandadas no mercado de trabalho. A questão que se coloca é quais serão as qualificações demandadas pelas empresas.

Um estudo de pesquisadores da OCDE divulgado este mês (“Emerging Trends in AI Skill Demand Across 14 OECD Countries”) oferece uma importante contribuição para entender essa questão. Os autores utilizam informações obtidas a partir de anúncios de vagas postadas online para caracterizar a demanda por trabalhadores em áreas que envolvem o uso ou desenvolvimento de IA em 14 economias avançadas entre 2019 e 2022.

Vários resultados podem ser destacados. Primeiro, os anúncios de vagas na área de IA representam uma parcela muito pequena do total de vagas, nunca superando 1% no período analisado. Em 2022, o país com maior proporção de vagas relacionadas à IA eram os Estados Unidos (0,84%), seguidos do Canadá (0,54%) e Reino Unido (0,51%). As participações mais baixas foram observadas na Bélgica (0,14%) e Nova Zelândia (0,18%).

Embora pequena, a parcela de vagas de IA cresceu significativamente entre 2019 e 2022. Em média, houve um aumento de 33%, mas com heterogeneidade significativa entre os países. Enquanto na Espanha e Nova Zelândia houve crescimento de 155% e 150%, respectivamente, na Suécia e Áustria não houve mudança.

Outra evidência relevante é que a demanda por vagas de IA é muito concentrada em poucos setores. A maior proporção em relação ao total de vagas é observada em Serviços Profissionais (25%) e Tecnologias de Informação e Comunicação (24%), seguidos pela Indústria Manufatureira (13%).

A pesquisa também fornece informações sobre as qualificações demandadas nas vagas de IA. As principais estão relacionadas ao aprendizado de máquinas (machine learning), correspondendo a 39% das vagas de IA nos Estados Unidos e 29% na França. Outras qualificações, como as relacionadas à robótica e veículos autônomos, são em média menos demandadas, provavelmente devido ao fato de seu uso ser mais concentrado na indústria.

A parte final da análise é específica para os Estados Unidos e investiga a diferença entre as qualificações demandadas pelas empresas que mais anunciam vagas online de IA e as demais empresas que fazem anúncio de vagas de IA.

Um resultado interessante é que não existem diferenças significativas nas qualificações técnicas exigidas pelos maiores empregadores de IA e os demais. A principal diferença é que as empresas mais intensivas em IA demandam mais habilidades socioemocionais, como liderança e capacidade de resolução de problemas.

Em resumo, o estudo da OCDE revela que, apesar do rápido crescimento nos últimos anos, a parcela de empregos relacionados à IA ainda é pequena e muito concentrada. Além de habilidades técnicas, como conhecimento de machine learning, os trabalhadores empregados em atividades de IA precisarão entender como utilizar as tecnologias para resolver problemas e gerar inovações.

A concentração de vagas de IA em poucos setores ajuda a entender por que os ganhos de produtividade têm sido limitados. Para que o uso dessas tecnologias se dissemine será necessário um grande esforço por parte de governos e empresas para qualificar os trabalhadores de acordo com a demanda das empresas.

Embora a pesquisa da OCDE seja restrita a 14 economias avançadas, suas lições são relevantes para o Brasil, particularmente devido à nossa grande carência das qualificações demandadas pelas novas tecnologias.

Como já discuti neste espaço, a forma mais eficiente de oferecer essas qualificações é por meio do uso de instrumentos de captura de demanda. Um mecanismo é o contrato de impacto social, no qual a remuneração da provisão do serviço de qualificação depende do seu resultado em termos de empregabilidade e aumento de salários.

Uma proposição legislativa que estabelece as condições necessárias para a implementação de contratos de impacto social no Brasil é o PLS 338/2018, de autoria do Senador Tasso Jereissati, cuja tramitação infelizmente não avançou no Senado.

Outra possibilidade seria oferecer vouchers para as empresas escolherem o treinamento mais adequado para seus empregados. Alternativas promissoras não faltam. O que está faltando é senso de urgência.

O artigo foi publicado em 30 de outubro de 2023 no Blog do IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Fernando Veloso

    É pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, professor da EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e pesquisador associado do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da FGV. PhD em Economia pela University of Chicago. Tem graduação em Economia pela Universidade de Brasília e mestrado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É coordenador (com Silvia Matos) do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

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