Qual seria a solução para a crise dos aplicativos de transporte?

Estamos vivendo uma crise de demanda e oferta no transporte público brasileiro, de um modo geral, há alguns anos, em decorrência das altas taxas de desemprego e crise econômica.

Políticas Públicas
29/11/2021
Marcus Quintella

Inevitavelmente, a explosão dos preços dos combustíveis está afetando a confiabilidade, disponibilidade, economicidade e qualidade dos serviços dos aplicativos de transporte, como Uber e 99, gerando uma importante crise nas maiores cidades do país, com corridas canceladas, demora para aceitação de viagens e alta nas tarifas. Com isso, a demanda por táxis nas principais capitais brasileiras aumentou 60%, interrompendo o enorme crescimento dos aplicativos, nos últimos anos.

Na prática, estamos vivendo uma crise de demanda e oferta no transporte público brasileiro, de um modo geral, há alguns anos, em decorrência das altas taxas de desemprego e crise econômica, e, desde o início de 2020, por causa da pandemia da Covid-19.

Segundo a Associação Nacional de Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o transporte público por ônibus no país vem operando com pouco mais da metade da demanda de passageiros pré-pandemia e já soma prejuízo de R$ 16,7 bilhões, entre março de 2020 e junho de 2021, devido, principalmente, às regras de isolamento social.

O setor do transporte público já vivia dificuldades antes da pandemia, mas, atualmente, a situação está muito mais grave. A NTU estima que a demanda de passageiros se encontra entre 50% e 60%, e a oferta de veículos oscila entre 80% e 100%. Em junho de 2021, último mês computado pela NTU, a oferta de serviços foi de 82,9%, contra 56,3% na demanda. Como a oferta de veículos vai se aproximando da anterior à pandemia, mas a demanda de passageiros não acompanha os mesmos patamares, os prejuízos são enormes para as empresas.

A crise está atingindo também trens, metrôs e VLTs, que vêm batendo recordes negativos de passageiros transportados, desde abril de 2020, conforme mostra o relatório anual da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos). Antes da pandemia, em 2019, os sistemas sobre trilhos das cidades brasileiras transportavam cerca de 11 milhões de passageiros por dia útil, mas, em 2020, esse número caiu para 5,8 milhões. Atualmente, esses mesmos sistemas estão transportando pouco mais de 2 milhões de passageiros por dia útil, com viés de alta.

Dentro desse ambiente caótico do transporte público, os aplicativos de transporte disputam uma fatia do mercado, principalmente, aquela lacuna de falta de qualidade, frequência, conforto e poucos itinerários dos ônibus urbanos. Além disso, muitas pessoas preferem recorrer aos aplicativos, ou mesmo utilizam seus próprios carros, para se protegerem das aglomerações nas estações e dentro dos ônibus, trens e metrôs.

De acordo com pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), existem cerca de 1,4 milhão de pessoas no Brasil trabalhando para aplicativos de transporte de passageiros ou mercadorias no Brasil, que representam cerca de 32% do total estimado de 4,4 milhões de pessoas alocadas no setor de transporte, armazenagem e correio no país.

Não há dados precisos, mas estima-se que aproximadamente 2% das viagens realizadas na cidade de São Paulo são realizadas por meio de aplicativos e, cerca de 1%, por táxis. Esses percentuais devem se repetir nas demais cidades brasileiras e representam uma quantidade significativa de pessoas que utilizam Uber, 99 e táxis, diariamente.

Certamente, o transporte por aplicativos não resolve os problemas de mobilidade urbana das cidades brasileiras, mas pode ser considerado um bom modelo de negócios para as plataformas, usuários e economia como um todo, e deve ser aperfeiçoado e adequado para a conjuntura econômica atual, para que todos saiam ganhando.

Todavia, a viabilidade econômica desse negócio fica comprometida com o aumento expressivo de corridas canceladas nos últimos meses, bem como pela dificuldade de se encontrar um carro disponível, pois muitos motoristas não aceitam certas viagens “desvantajosas”, devido ao alto preço da gasolina. Outros fatores negativos são a pouca oferta de condutores, seja por banimento ou por desistência, e a baixa rentabilidade financeira para os motoristas.

O futuro das plataformas de transporte por aplicativos, tais quais Uber e 99, depende do equilíbrio da equação que envolve os lucros das próprias empresas, os custos operacionais dos motoristas, as tarifas cobradas dos usuários e os valores repassados aos motoristas. Para isso, as empresas precisam rever suas estratégias, especialmente de atendimento das reivindicações de seus motoristas, pois a conta não está fechando para eles. A sustentabilidade desse modelo de negócio dependerá da resolução dessa complexa equação.

Em última análise, cabe lembrar que, da mesma maneira que os ônibus urbanos perderam passageiros por oferecerem um serviço ruim, os aplicativos de transporte também poderão perder seu nicho de mercado, caso não encontrem uma solução equilibrada para a equação em questão.

O mercado não perdoa e os “velhos e bons” táxis, ou mesmo outros tipos de transporte alternativos, estão se apresentando para ocupar o espaço aberto. A sorte das plataformas de aplicativos de transporte é que os táxis não souberam reagir no início e não se organizaram de forma corporativa e tecnológica para a competição nesse mercado. Mas ainda há tempo.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Marcus Quintella

    Diretor do Centro de Estudos em Transportes (FGV Transportes). Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, mestre em Transportes pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e pós-graduado em Administração Financeira pela FGV. Professor e coordenador acadêmico dos cursos de MBA da FGV Educação Executiva. Ocupou as posições de diretor de Engenharia de Transportes da Odebrecht TransPort S.A. e de diretor técnico da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). 

     

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