O que querem os jovens e novos eleitores nas eleições de 2022

Parte significativa dos anseios desses jovens tem sido obstaculizados brutalmente pela desesperança por dias melhores em razão do desfinanciamento social, da precarização das “oportunidades” de trabalho, do discurso de ódio, da violência real e simbólica e da criminalização da política.

Políticas Públicas
20/07/2022
Francisco César Pinto da Fonseca

O expressivo contingente de dois milhões de jovens entre 16 e 18 anos que tiraram o título de eleitor, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com vistas a participarem, como eleitores, das eleições que ocorrem em outubro deste ano para os cargos de deputado estadual e governador, e deputado federal, senador e presidência da República, tem chamado a atenção tanto do TSE como de pesquisadores.

Afinal, o que esses novos, e muito jovens, eleitores pensam e quais os motivos que os levam a participar das eleições desse ano, uma vez que o voto para essa faixa etária é optativo?

Essa indagação ganha ainda mais relevo quando se observa os eventos político/institucionais que vêm ocorrendo no Brasil desde 2013 aos dias de hoje: as chamadas manifestações de junho de 2013 ganharam conotação conservadora, embora tivessem se iniciado com propostas progressistas (o direito à cidade); a Operação Lava Jato, iniciada em 2014, perseguiu seletivamente “adversários” (lowfare), criminalizou a política de modo geral, e particularmente partidos, ideias e agendas vinculados à centro-esquerda; a deposição, sem crime comprovado de responsabilidade, da presidenta Dilma Rousseff, representou verdadeira quebra do pacto constitucional de 1988 (golpe de Estado); a ascensão da extrema-direita ao poder, em 2018, por meio de eleições questionáveis em seu modus operandi, coroou o processo iniciado em 2013 (protofascismo); entre outros.

Esses eventos tiveram impactos profundos, estruturais e extensos na sociedade brasileira, sobretudo aos trabalhadores, uma vez que um conjunto de reformas (ou contrarreformas) ou não foram legitimadas pelo voto, caso do Governo Temer, ou foram resultante de eleição ancorada no que se chama de “pós-verdade”, por sua vez resultante de “fake News” altamente profissionalizadas e criadas/disparadas a partir de financiamento do grande capital.

O teto dos gastos sociais (em contrate à manutenção do pagamento dos juros da dívida interna); a reforma trabalhista (que desmontou estruturalmente a Consolidação das Leis Trabalhistas); a terceirização irrestrita, para as atividades meio e fim nos setores privado e público (nesse, com algumas restrições); e a reforma da Previdência, entre inúmeras outras, advieram desse novo cenário político/institucional, impactando brutalmente os trabalhadores, notadamente quanto à precarização das relações de trabalho, no contexto da perda de direitos sociais.

É nesse cenário de desalento com a perda de direitos, com a desqualificação da disputa política e da própria política como ação humana legítima (movimento levado a cabo pela Lava Jato em parceria com a grande mídia, com think tanks e com o grande capital) que os referidos jovens entram na vida política formal tornando-se eleitores. Junte-se a isso a experiência de serem governados pelo extremismo de direita, desde 2018, cujas pautas supostamente liberais no âmbito socioeconômico (em prejuízo aos que vivem do trabalho), conservadoras em termos de costumes (impedindo as diversidades), desagregadoras em relação às instituições, e totalizantes quanto à comunicação direta manipulada, impactam sobremaneira as expectativas desses(as) jovens.

Parte significativa dos anseios desses jovens (de classes sociais distintas, cujos impactos são, portanto, igualmente distintos) tem sido obstaculizados brutalmente pela desesperança por dias melhores em razão do desfinanciamento social, da precarização das “oportunidades” de trabalho, do discurso de ódio, da violência real e simbólica e da criminalização da política.

Contudo, setores estatais (caso do TSE) e da sociedade organizada conseguiram mobilizar parte significativa dos jovens para reverter esse clima de desconfiança e de passividade para que atuem em prol de dias melhores, sendo o voto um importante – embora não o único – instrumento de mudanças.

Assim, os jovens que tiraram seu título de eleitor – e que simbolicamente representam outros tantos milhões de jovens que não o fizeram por motivações distintas, entre as quais a mais completa desesperança – clamam por oportunidades de trabalho, direitos sociais, qualidade de vida, diversidade comportamental, tolerância, laicidade do Estado e estabilidade/paz social. Isto é, tudo o que as extremas-direitas não podem e possivelmente não queiram entregar.

Portanto, majoritariamente esses jovens, novos eleitores debutantes, sinalizam a necessidade da ação política transformadora, e não de moralismo  protofascista; de livros, e não de armas; de diversidade comportamental/cultural/estética/sexual e não de fundamentalismo religioso; de participação e contestação e não de autoritarismo; de direitos sociais e trabalhistas, e não de neoliberalismo plutocrático; de transparência nas coisas públicas, e não de sigilo; de decoro dos dirigentes, e não de ações indecorosas; de proteção ao meio-ambiente sustentável e aos povos originários, e não de sua destruição em nome do “desenvolvimento” a qualquer preço; entre inúmeros outros pares antitéticos. Em outras palavras, os jovens clamam por civilização e justiça, e não barbárie e opressão. Esse parece ser o recado que darão nas urnas, pela primeira vez, em outubro deste ano.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Francisco César Pinto da Fonseca

    Bacharel em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política e doutor em História Social. Professor da FGV EAESP nos cursos de graduação e pós-graudação em Administração Pública) e na PUC-SP no curso de Ciências Sociais. Autor, entre outros, do livro “O Consenso Forjado – a grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil”. São Paulo, Hucitec, 2005.

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