Restaurando as prioridades de saúde no Brasil

Nos últimos sete anos, o SUS deteriorou-se rapidamente. Cerca de 33 milhões de brasileiros passam fome e as internações por conta da desnutrição infantil causada pela fome têm aumentado.

Políticas Públicas
24/04/2023
Adriano Massuda
Marcia Castro
Nísia Trindade
Arthur Chioro
José Gomes Temporão
Humberto Costa
Alexandre Padilha

O Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro era conhecido por reduzir as desigualdades na saúde. Entretanto, as medidas de austeridade impostas no final de 2016, o desmantelamento das capacidades técnicas do Ministério da Saúde e a desastrosa resposta à pandemia de Covid-19 por parte do governo Bolsonaro contribuíram para uma rápida deterioração dos indicadores de saúde. O presidente Lula, empossado em janeiro, encara a árdua tarefa de enfrentar os retrocessos e reconstruir o setor de saúde.

Nos últimos sete anos, o SUS deteriorou-se rapidamente. Cerca de 33 milhões de brasileiros passam fome e as internações por conta da desnutrição infantil causada pela fome têm aumentado. A cobertura vacinal está abaixo do mínimo necessário para evitar surtos de doenças, a mortalidade materna praticamente dobrou em dois anos e os exames médicos de rotina diminuíram, causando atrasos no tratamento de doenças crônicas.

Foram aprovados milhares de pesticidas, muitos dos quais são proibidos em outros países e associados à mortalidade infantil e ao câncer, e atrasos na aquisição de inseticidas interromperam o controle de vetores. Mudanças na legislação aumentaram o acesso a armas, contribuindo diretamente para o aumento dos homicídios no Brasil. A destruição ambiental resultou em uma crise humanitária entre os povos Yanomami.

Com os muitos problemas relacionados à saúde enfrentados pelo Brasil, o governo Lula deve priorizar sua resposta. Em primeiro lugar, o governo deve fortalecer as instituições do país, o que facilitará o enfrentamento de outros desafios. Lula deve começar fortalecendo o financiamento e a governança do SUS, melhorando a atenção primária e as redes de saúde (incluindo a telessaúde) e promovendo uma alocação geográfica equitativa de recursos humanos.

Uma vez protegida a infraestrutura de saúde, o governo deve se concentrar em reduzir os índices inaceitavelmente altos de morbidade e mortalidade evitáveis. Tal objetivo deve incluir o aumento da cobertura vacinal, a redução da lista de espera para atendimento especializado e a reorganização da atenção à saúde dos povos indígenas, de crianças e adolescentes e de mulheres. A melhoria da vigilância sanitária também melhorará a resposta do sistema de saúde a emergências.

Para garantir que todas as vozes sejam ouvidas, é imperativo que pontes sejam construídas entre os legisladores, a academia e a sociedade civil no decorrer desses esforços. Reconstruir o setor de saúde no Brasil é uma necessidade social e humanitária, além de crucial para a segurança da saúde global.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Do mesmo autor

Autor(es)

  • Adriano Massuda

    Professor da Escola de Administração de Empresas (FGV EAESP) e membro do FGV Saúde. Médico formado pela UFPR, com residências em Medicina Preventiva e Social e em Administração em Saúde pela UNICAMP. Fez mestrado e doutorado em Saúde Coletiva na área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde na UNICAMP. Suas principais linhas de pesquisa incluem: planejamento e gestão em sistemas de saúde, inovações em sistemas de saúde e avaliação de políticas de saúde.

  • Marcia Castro

    É membro fundador do Wittgenstein Center for Demography and Global Human Capital’s Scientific Advisory Board. Em Harvard, Castro atua como membro do Comitê Consultivo do Corpo Docente do Brazil Studies Program, membro do Brazil Studies Program Steering Group do David Rockefeller Center for Latin American Studies (DRCLAS) e membro do Center for Geographic Analysis (CGA) Comissão Directiva.

  • Nísia Trindade

    Presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desde 2017. Doutora em Sociologia (1997), mestre em Ciência Política (1989), pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj - atual Iesp), e graduada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj, 1980). 

  • Arthur Chioro

    Graduado em Medicina pela Fundação Educacional Serra dos Órgãos (1986), com Residência em Medicina Preventiva e Social pela UNESP (1988). Mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp (2001). Doutor em Ciências pelo Programa de Saúde Coletiva da UNIFESP (2011). Pós-doutoramento na Universidade Nova de Lisboa. Professor-adjunto C-III do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina/UNIFESP (área Política, Planejamento e Gestão em Saúde). 

  • José Gomes Temporão

    Ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, professor e pesquisador-titular aposentado da Fiocruz. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1977), mestrado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (1984) e doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2002). 

  • Humberto Costa

    Médico, jornalista e político brasileiro. Senador em Pernambuco, foi ministro da Saúde durante o governo Lula, bem como deputado federal e estadual.

  • Alexandre Padilha

    Médico e político brasileiro, atualmente é deputado federal por São Paulo e ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.

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