Seca e fogo no maior ecossistema tropical do planeta

A pauta emergencial para a política pública é prestar socorro imediato às vítimas da calamidade. É urgente, contudo, que a ação pública priorize também o combate ao fogo na região. Não se trata de fenômeno novo, tampouco invisível.

Energia
17/10/2023
Clarissa Gandour

Extensos corpos d’água secos, enormes labaredas, densas nuvens de fumaça. Poucos associam elementos tão áridos à Amazônia, ecossistema tropical sabidamente muito úmido. No entanto, são eles e suas graves consequências ambientais, sociais e econômicas que dominam as notícias recentes sobre a região.

É normal observar meses mais secos entre agosto e outubro, época da seca amazônica, mas o cenário atual é absolutamente atípico. A combinação entre os efeitos da crise climática e a ocorrência do fenômeno meteorológico El Niño impulsionaram uma das piores secas já registradas no bioma.

A pauta emergencial para a política pública é prestar socorro imediato às vítimas da calamidade. É urgente, contudo, que a ação pública priorize também o combate ao fogo na região. Não se trata de fenômeno novo, tampouco invisível.

O Programa Queimadas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) traz um rico acervo de dados, tanto históricos quanto atuais, sobre a incidência de fogo em todo o território nacional, incluindo recortes territoriais da Amazônia.

Há, contudo, nuances relevantes e nada óbvias para aqueles que começam a se familiarizar com o tema. Nem tudo que é detectado como fogo representa floresta queimando. Na região, o fogo é utilizado em práticas de manejo de pastagem e como uma forma barata de eliminar remanescentes de vegetação em áreas recém-desmatadas —em ambos os casos, o fogo ocorre depois de removida a floresta. Esse fogo tem consequências ambientais e sociais importantes, mas não pode ser interpretado como fogo florestal, que é o que nos interessa nesta coluna.

Foquemos, pois, na floresta que queima. Acontece que fogo não ocorre espontaneamente em ecossistemas tropicais —o que pode acontecer em outros menos úmidos, como o Cerrado.

Então, se tem fogo em algum lugar da floresta, é porque alguém desencadeou esse fogo. Isso é muito relevante, porque o fogo impacta diretamente o ecossistema natural, destruindo partes da vegetação, interferindo com a biodiversidade, minando a resiliência da floresta.

É, ainda, uma fonte expressiva de emissão de gases de efeito estufa. O fogo é um dos principais vetores da degradação florestal na Amazônia, fenômeno que, apesar de receber menos atenção do que o desmatamento, representa gravíssima ameaça à integridade da floresta e ao seu papel no enfrentamento da crise climática.

Certo, mas por que falar sobre fogo florestal em uma coluna de economia? Porque ainda há muito que compreender sobre os determinantes desse fogo e os incentivos que estão por trás das decisões a ele associadas.

Sabemos que o fogo florestal não é um estágio inicial do processo de desmatamento, tampouco uma forma de remover a vegetação nativa a baixo custo, já que uma parcela pequena da área de floresta queimada é subsequentemente desmatada. Por que, então, queimar uma floresta tropical? Qual é o racional econômico desse fogo? Quem ganha com ele?

A explicação prevalente para o fogo florestal na Amazônia aponta para vazamentos de áreas desmatadas. A lógica é a seguinte: o fogo começa em áreas já desmatadas, ora para manejo de pasto, ora como etapa final do processo de remoção de vegetação, mas se espalha e atinge florestas próximas devido à ausência de esforços de manejo do fogo. Há evidências que corroboram essa explicação em determinadas regiões. No entanto, explicam o fenômeno em escala?

Comecei a coluna afirmando que a política pública precisa priorizar o combate ao fogo na Amazônia. Um requisito essencial para isso é aprofundar a compreensão sobre os determinantes do fogo florestal na região. Afinal, será mais efetivo atuar diretamente nas causas do fogo do que correr para apagar incêndios na Amazônia.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Clarissa Gandour

    É professora da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP), tendo previamente ocupado os cargos de pesquisadora sênior e coordenadora de Avaliação de Políticas Públicas de Conservação no Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio). Atua desde 2011 para promover a tomada de decisão baseada em evidência, principalmente no âmbito da ação climática brasileira. Doutora, mestre e bacharel em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

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