Soberania e cooperação na era dos minerais críticos
A transição energética está reconfigurando o tabuleiro geopolítico. A disputa entre Estados Unidos e China por minerais críticos já ultrapassou a economia e ingressou no campo da segurança nacional. Washington busca reduzir a dependência da cadeia produtiva asiática, enquanto Pequim consolida sua liderança industrial em tecnologias verdes. Nesse cenário, o Brasil tem uma chance histórica de ocupar um papel central, não como fornecedor passivo, mas como articulador de uma nova diplomacia verde.
No século XX, o poder se media em barris de petróleo. No século XXI, será medido em toneladas de minerais e na capacidade de rastrear, refinar e certificar sua origem. Minerais como lítio, níquel, cobalto e terras raras são essenciais para baterias, turbinas eólicas, painéis solares e veículos elétricos. Sem eles, não há descarbonização possível. Quem controla suas cadeias produtivas controla o ritmo e o alcance da revolução verde.
Enquanto isso, boa parte do Sul Global permanece presa ao papel de exportador de matérias-primas, correndo o risco de repetir o mesmo modelo com novos protagonistas e novos minérios. A oportunidade está em transformar essa dependência histórica em protagonismo estratégico, articulando políticas comuns, agregando valor localmente e definindo parâmetros próprios de sustentabilidade.
A pergunta essencial é: seremos fornecedores ou estrategistas da nova economia verde? A resposta passa por uma diplomacia mineral comum entre países do Sul Global, capaz de negociar coletivamente, fortalecer o refino local e estabelecer critérios de sustentabilidade adaptados às nossas realidades.
Um primeiro passo seria fortalecer o diálogo com países do chamado “Triângulo do Lítio ampliado”, Chile, Argentina e Bolívia, que concentram mais de 60% das reservas mundiais do mineral, segundo o USGS (2024). Embora o Brasil não integre esse triângulo geológico, possui reservas relevantes e crescente capacidade de refino, o que o qualifica como parceiro estratégico na construção de uma agenda comum. Em vez de competir por contratos e subsídios, esses países poderiam negociar com grandes compradores em bloco, criando mecanismos conjuntos de rastreabilidade e parâmetros de preço baseados em custos socioambientais. O modelo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que alterou o equilíbrio global do petróleo nos anos 1970, inspira um paralelo contemporâneo: uma “Opep dos Minerais Críticos” do Sul Global.
Outro eixo central dessa diplomacia é a verticalização da cadeia de valor. Mais de 80% do valor econômico do lítio está no processamento e na fabricação de baterias. Cooperações Sul–Sul podem preencher essa lacuna com zonas industriais conjuntas, fundos regionais de investimento e programas de pesquisa compartilhados.
A dimensão mais sensível, porém, é a sustentabilidade. A União Europeia já transformou critérios ambientais em barreiras comerciais. O risco é que padrões externos se tornem filtros excludentes para países emergentes. A alternativa é criar certificações próprias que conciliem transparência, inclusão social e justiça climática. Sustentabilidade também é soberania e deve ser definida por quem produz, não apenas por quem consome.
Para que essa diplomacia mineral se consolide, o Brasil precisa atuar em três frentes. Na política, propor um Fórum Permanente de Países Minerais do Sul Global, conectando América do Sul, África e Ásia. Na economia, liderar pela prática, demonstrando que é possível refinar e transformar internamente. E na governança, propor um Selo de Sustentabilidade do Sul Global, interoperável com padrões europeus, mas ajustado às condições locais.
O país também deve diversificar alianças. A cooperação com a União Europeia é estratégica, especialmente após o Critical Raw Materials Act, que incentiva parcerias com nações de matriz energética limpa. Com 85% de eletricidade renovável, segundo a EPE (2024), o Brasil é um parceiro natural. No eixo Ásia–Pacífico, parcerias com Japão e Coreia do Sul podem impulsionar o desenvolvimento de baterias e hidrogênio verde. Já o Inflation Reduction Act (2022) dos Estados Unidos abre janelas de cooperação para cadeias de mineração descarbonizada e rastreável.
A nova diplomacia mineral será construída por redes que unam governos, empresas, centros de pesquisa e comunidades locais. Sem licença social para operar, não há legitimidade internacional. A rastreabilidade é tanto tecnológica quanto ética, e o futuro da transição energética dependerá de quem souber combinar ambas.
O Brasil reúne credenciais raras: diversidade mineral, matriz limpa e tradição diplomática. O desafio é transformar essas vantagens em influência duradoura. Liderar essa agenda não significa confrontar potências, mas equilibrar a assimetria entre quem tem os recursos e quem dita as regras.
*Artigo publicado originalmente em 22/11/2025 no Estado de S. Paulo
Autores

Isabel Veloso
Professora Adjunta da FGV Direito Rio e Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Direito e Economia (CPDE), com foco nas seguintes áreas: Direito da Concorrência, Instituições (Poder Legislativo e Poder… ver maisIsabel Veloso
Professora Adjunta da FGV Direito Rio e Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Direito e Economia (CPDE), com foco nas seguintes áreas: Direito da Concorrência, Instituições (Poder Legislativo e Poder Judiciário) e Transição Energética. Doutora e Mestre em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), com ênfase em métodos quantitativos. Possui pós-graduação em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e é graduada em Relações Internacionais pela UFF.