Por que somos tão improdutivos?

Metade da baixa produtividade está no trabalhador, metade no entorno, isto é, na gestão das empresas. Há muita má alocação de capital e trabalho. Um conjunto incrível de empresas ineficientes sobrevive nos países mais pobres.

Economia
15/08/2023
Samuel Pessôa

Há algumas semanas a prestigiosa revista inglesa The Economist publicou uma reportagem em que se perguntava por que os trabalhadores latino-americanos são tão surpreendentemente improdutivos. Como costuma acontecer, a revista foi ao que interessa. A compreensão do subdesenvolvimento brasileiro passa por conseguir descrever e entender nossa improdutividade. Uma hora trabalhada no Brasil gera cinco vezes menos do que uma hora trabalhada nos EUA.

Nos últimos 30 anos, a academia avançou bastante na compreensão das razões da baixa produtividade. Na chamada do texto, a Economist parecia jogar boa parte da responsabilidade pelos problemas de produtividade da América Latina sobre os trabalhadores locais – uma opção editorial que gerou mal-estar e protestos. Essa é de fato a primeira questão a ser respondida: quanto da baixa produtividade encontra-se embutida no trabalhador? E quanto depende do entorno, isto é, da qualidade da gestão das empresas e das instituições que estabelecem a regulação das relações das empresas com elas mesmas e com o Estado, além das regras que estabelecem o funcionamento do Estado?

O estudo “Capital humano e contabilidade de desenvolvimento: novas evidências dos ganhos de salários com a emigração”, publicado em 2018 no excelente Quarterly Journal of Economics, tenta identificar o peso das qualidades embutidas no trabalhador para o diferencial de produtividade de cada país. Faz isso a partir da observação do ganho de salário que trabalhadores de outras partes do mundo têm ao migrar para os Estados Unidos.

A ideia é a de que, ao emigrar, o trabalhador carrega consigo todas as suas habilidades, conhecimentos e características embutidas, que passam no entanto a se relacionar com o entorno da economia americana. Se o ganho de salário ao migrar for muito grande, o peso do entorno será maior do que o peso das características embutidas no trabalhador. E vice-versa, se o ganho de salário ao migrar for pequeno.

A inovação do estudo foi ter acesso a bases de dados com a observação de muitas características do mesmo trabalhador antes e após a imigração. Em particular, sua qualificação, onde trabalhava e que renda recebia – todas essas informações no país de origem, antes de emigrar. As estimativas sugerem que os fatores embutidos no trabalhador explicam 50% da diferença de produtividade. Os fatores embutidos são as habilidades cognitivas e as habilidades socioemocionais que afetam a produtividade de cada pessoa. Ambas dependem de escolarização básica de qualidade.

O bonito na pesquisa dos autores do trabalho – o professor da Universidade da Pensilvânia, Lutz Hendricks, e o pesquisador do Banco Central de Minneapolis, Todd Schoellman, – foi que as estimativas mais recentes mudaram a leitura que eles mesmos tinham do fenômeno a partir de trabalhos realizados nos vinte anos anteriores. Em geral, o ganho de salário observado com a migração era maior. Comparava-se o salário do imigrante com o salário médio de pessoas com a mesma escolaridade que não migraram. Sempre se soube que havia um problema nesse tipo de comparação: imigrantes em geral são positivamente selecionados na população. Em linguagem técnica, há um viés positivo de seleção na imigração. As bases de dados recentes permitem comparar o salário da mesma pessoa antes e após a imigração. Sendo a mesma pessoa, o viés de seleção está adequadamente contemplado na análise.

Se metade da baixa produtividade está embutida no trabalhador, a outra metade é causada pelo entorno. O primeiro item a destacar na lista “entorno do trabalhador” são as práticas de gestão das empresas. O professor de Stanford Nicholas Bloom tem documentado, nas últimas décadas, que as práticas de gestão variam muito entre diferentes economias e que essas práticas estão fortemente correlacionadas com medidas de produtividade das empresas. Variações na gestão se correlacionam com variações de produtividade de mais de 50%.[2]

A princípio seria razoável esperar que as empresas menos produtivas fechassem as portas, como resultado da competição com as concorrentes mais capazes, mas não é isso o que se constata. Há muita má alocação de capital e trabalho que persiste, e um conjunto incrível de empresas ineficientes costuma sobreviver nos países mais pobres.

Não há ainda um consenso dos efeitos quantitativos sobre a produtividade da má alocação do trabalho e do capital em unidades produtivas ruins, mas, após década e meia de muita pesquisa, parece ser conservador considerar números da ordem de 25% de perda de produtividade. Isto é, se considerarmos um setor da indústria bem delimitado – por exemplo, produção de ladrilhos para construção civil –, a produtividade nos EUA é pelo menos 25% maior simplesmente porque lá capital e trabalho estão alocados em geral em empresas mais produtivas.[3]

Ou seja, aparentemente má alocação de capital e trabalho, em empresas com baixa produtividade, e falta de estímulo para que as empresas adotem as melhores práticas de gestão explicam a outra metade da nossa baixa produtividade.

Evidentemente, as causas aqui elencadas – péssima qualidade da rede pública de educação básica, gestão ruim das empresas e má alocação do investimento – resultam de regras, instituições ruins e de um mau funcionamento do setor público. Por exemplo, a mesma The Economist tratou em artigo recente do sucesso do sistema educacional do Vietnã, país cuja a renda per capita é hoje 75% da brasileira (há duas décadas era 30%). Os alunos vietnamitas entre os 10% piores do país, segundo a Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), que é divulgado a cada três anos pela OCDE, tem desempenho melhor do que os 10% melhores entre os alunos brasileiros. Aqui a agenda é de reforma do Estado, para que nossa rede pública de educação básica seja mais efetiva.

Também sabemos que há no Brasil um conjunto imenso de regras tributárias de bens e serviços e do trabalho que gravam desproporcionalmente as empresas maiores e funcionam como um subsídio às empresas menores e menos produtivas. A proposta de reforma dos impostos indiretos que transita agora no Congresso Nacional é um primeiro passo muito importante para estimular a correta alocação do investimento e da produção, além da redução do custo de conformidade e da elevadíssima litigiosidade induzida pela tributação. Adicionalmente, a baixa competição de nossas estruturas de mercado e o fechamento da economia para o comércio internacional permitem que práticas de gestão pouco efetivas sobrevivam com mais facilidade. Teremos que avançar na agenda de abertura da economia.

O leitor atento deve ter notado que carência de capital físico não é um dos fatores elencados. Esse é um tema que foi sempre muito enfatizado por toda a tradição estruturalista latino-americana, desenvolvida pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, a Cepal, órgão da ONU. Há muito se sabe que o investimento é causado pelo crescimento e não o contrário: em geral melhoras tecnológicas criam o espaço para aumentos do investimento. O motivo é que a acumulação de capital, sem alteração tecnológica, se exaure rapidamente em função do fenômeno conhecido por retornos marginais decrescentes.

Por exemplo, em uma mesma fazenda, após a aquisição de um trator ou de uma grande colheitadeira, o ganho da segunda ou da terceira aquisição das mesmas máquinas será bem menor. Esse fenômeno é universal. Adicionalmente, o capital é um fator móvel. Ele se desloca dos locais cujo retorno é baixo para aqueles onde ele é elevado. Há uma tendência natural à equalização dos retornos do capital entre países. Os economistas Francesco Caselli e James Feyrer[4], em artigo publicado em 2007, documentaram que não há diferenças apreciáveis de retorno do capital entre os países. Ou seja, para estimular maior capitalização das economias subdesenvolvidas, serão necessárias reformas que reduzam o custo de transação nesses países e, consequentemente, elevem o retorno do capital físico. Novamente, a agenda é de reformas institucionais com vistas à elevação da eficiência microeconômica da economia.

Um tema recorrente é a importância da questão da especialização produtiva para a baixa produtividade do país. Alega-se que, se houver elevação da participação da indústria no PIB, a produtividade seria maior. Trabalho publicado em livro do FGV IBRE de 2017 mensurou o ganho de produtividade se a economia brasileira tivesse a mesma alocação setorial do trabalho de uma média dos países ricos. O ganho seria de 53%, nada desprezível. No entanto, se nós tivéssemos, para cada setor da economia, a mesma produtividade média observada nesses países, mantendo a alocação do trabalho entre os setores constantes, o ganho de produtividade seria de 192%.[5] Ou seja, nosso maior problema é a baixa produtividade do trabalho em todos os setores, e não a alocação setorial do trabalho.

A baixa produtividade brasileira é fruto de um conjunto imenso de instituições que produz má alocação do investimento, gera baixíssima eficiência no setor público e desestimula a competição e a boa gestão. Não há uma bala de prata. É uma agenda de melhoras institucionais pequenas, que, com paciência de chinês, esmiucem nossas legislações com vistas ao progresso institucional. Não há nada de muito grandioso nessa agenda.

[1] Versão reduzida deste texto apareceu na Folha de São Paulo no dia 17 de junho.

[2] Ver “Why Do Management Practices Differ across Firms and Countries?”, de Nicholas Bloom and John Van Reenen, publicado em 2010 no Journal of Economic Perspectives, 24(1): 203–224.

[3] Ver, por exemplo, o artigo de revisão de Diego Restuccia e Richard Rogerson, “The Causes and Costs of Misallocation”, publicado em 2017 no Journal of Economic Perspective 31(3); 151-174.

[4] “The Marginal Product of Capital”, The Quarterly Journal of Economics, maio de 2007 (535-568)

[5] Ver “O Brasil em comparações internacionais de produtividade: uma análise setorial” de Fernando Veloso, Silvia Matos, Pedro Ferreira e Bernardo Coelho, páginas 80 e 84. O ensaio é o terceiro capítulo (páginas 63 até 107) em Anatomia da produtividade no Brasil, organizado por Regis Bonelli, Fernando Veloso e Armando Castelar Pinheiro, publicado em 2017 pela FGV IBRE e Elsevier.

Este artigo foi publicado em 14 de agosto no Blog do IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Samuel Pessôa

    Graduação e mestrado em Física pela USP, e doutorado em Economia pela USP. Atualmente é sócio da Reliance em São Paulo, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) e colunista do jornal Folha de S. Paulo. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Crescimento e Desenvolvimento Econômico, atuando principalmente nos seguintes temas: economia, taxas, educação no Brasil e gastos. Autor de diversos artigos acadêmicos sobre temas ligados ao desenvolvimento econômico, publicados em revistas nacionais e internacionais.

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