A Super Terça e as primárias Democratas nos Estados Unidos

Quinze colégios eleitorais, incluindo os imensos colégios da Califórnia e do Texas, irão escolher quem será o seu candidato para concorrer com o presidente Donald Trump às eleições presidenciais em novembro

Relações Internacionais
03/03/2020
Leonardo Paz Neves

A importância da Super Terça no calendário eleitoral norte americano remonta a sua própria história. A primeira Super Terça, nesse formato que conhecemos, foi realizada para as eleições de 1988, quando os governadores de diversos estados do sul dos Estados Unidos decidiram realizar suas primárias no mesmo dia e logo no início do processo. O objetivo era aumentar a [influência dos estados do sul nas eleições aumentando as chances dos candidatos sulistas serem eleitos como o candidato democrata] – o que para eles era fundamental para competir com os republicanos nos estados do sul.

A ideia da estratégia era que, ao realizar um grande número de primárias juntas logo no início, os candidatos que melhor se saíssem iriam ganhar um importante momentum que seria traduzido em maior mídia e arrecadação de fundos. Ao contrário, os que performassem mal, provavelmente teriam maiores dificuldades de angariar fundos e provavelmente desistiriam de suas candidaturas.

Com o tempo, o perfil “sulista” da Super Terça perdeu o fôlego, mas não sua importância, pois mesmo que alguns estados do sul tenham desistido, outros estados de outras partes do país acabaram sendo incorporados. No fim, a estratégia de organizar a Super Terça continua sendo importante para o Partido Democrata, pois quanto antes eles conseguirem definir seu candidato, mais tempo de preparação, arrecadação de fundos e campanha eles terão para a eleição presidencial. Nesse sentido, a Super Terça é um divisor de águas nas primárias do Partido Democrata – e esse é especialmente o caso das primárias de 2020.

As primárias democratas de 2020 são particularmente especiais, pois elas apresentam um conjunto interessante de elementos que adicionam incertezas. Primeiro, é importante ressaltar que há hoje entre os democratas uma tensão entre dois grandes grupos que buscam ampliar sua influência sobre o partido. O primeiro grupo é composto por democratas mais moderados e personalidades mais tradicionais do partido. O segundo grupo, que está em ascensão, é composto por uma esquerda mais “radical” (por falta de um termo melhor). Este segundo grupo ganhou força nas últimas eleições quando conseguiu aumentar seu número de representantes no congresso (sua face mais visível é o “The Squad” – grupo de quatro deputadas democratas bastante atuantes e que têm capturado um significativo espaço na mídia). O embate entre esses dois grupos já havia ocorrido nas primárias de 2016, quando Hilary Clinton acabou prevalecendo sobre Sanders.

Entretanto, nas primárias de 2020, aparentemente quem tem largado na frente é justamente o campo dessa esquerda mais “radical”, com o mesmo Bernie Sanders e com a Senadora Elizabeth Warren. E aqui reside o segundo ponto: Nessas primárias, há um grande número de moderados (ou centristas). Biden, Buttigieg, Bloomberg, e em menor medida Klobuchar e Steyer competem para ver quem se firma como o representante desse campo.

O ex vice presidente de Obama, Biden, até o fim do ano passado aparecia como a grande preferência dos democratas, mas suas fraquíssimas performances nas primeiras primárias acenderam a luz amarela para a viabilidade da sua campanha. Entretanto, sua impressionante performance neste sábado na Carolina do Sul parece ter dado um novo ímpeto a Biden. Diante desses resultados Biden deverá apostar tudo na Super Terça para se manter competitivo. Buttigieg até agora foi a grande surpresa. Apesar da sua principal experiência pública ter sido a de prefeito de uma cidade de cerca de 100 mil habitantes, ele vinha se destacando na mídia e conseguiu ótimos resultados nas primeiras primárias, inclusive ganhando em Iowa.  Entretanto, supreendentemente, Buttigieg desistiu da sua candidatura neste domingo depois de uma má performance na Carolina do Sul. Esse resultado combinado com as dificuldades na arrecadação de fundos para sua campanha foram determinantes para a desistência do candidato que vinha sendo considerado uma estrela em ascensão. O ex prefeito de Nova York Michael Bloomberg é a principal incógnita dessas primárias. Bloomberg decidiu tardiamente entrar no pleito e apenas começará a participar das primárias na própria Super Terça. O caso de Bloomberg é muito particular. Ele ainda não foi testado nas urnas nessas primárias, despejou centenas de milhões de dólares em propaganda (mais que todos os outros candidatos juntos) e se saiu muito mal nos últimos dois debates em que participou. Dessa maneira, parece impossível estimar como Bloomberg se sairá na Super Terça.

Como mencionado, espera-se que essa Super Terça seja um divisor de águas para as primárias democratas. Nela, estão em jogo quase 35% dos delegados democratas. Até esse momento, o campo moderado diluiu seus votos entre seus numerosos candidatos, e enquanto brigam entre si para ver quem será o representante desse grupo, todos têm assistido Sanders se distanciar na frente. A Super Terça deverá ter um papel fundamental para eliminar as chances de dois ou três desses candidatos moderados e permitir que haja uma competição mais acirrada com Sanders.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Leonardo Paz Neves

    Analista de Inteligência Qualitativa no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional (FGV NPII). Professor no Departamento de Relações Internacionais do Ibmec. Além disso, trabalhou como Coordenador de Estudos e Debates do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), trabalhou junto à Sessão de Assuntos Civis do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB) e foi Coordenador Executivo do Grupo de Análise de Prevenção de Conflitos Internacionais (GAPCon/UCAM). Bacharel em Ciências Sociais pela UFF, Mestre em Ciência Política e Doutor em Política Pública e Desenvolvimento pela UFRJ. Autor de "Estados fracassados e o eixo do mal na política de segurança Norte-Americana" e "O CEBRI e as Relações Internacionais no Brasil".

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