Toda criança precisa de um professor

Com professores valorizados e com programas que efetivamente preparem para a profissão, a educação ofertada às crianças pode melhorar muito

Institucional
15/10/2019
Cláudia Costin

Celebramos neste último sábado o Dia das Crianças, o que nos faz lembrar de festas com brinquedos novos, agitação em shopping centers e postagens em redes sociais com fotos de filhos, netos e até de nós mesmos na infância.

Mas há diversas infâncias no Brasil. No Relatório Cenários da Infância e Adolescência no Brasil (2019) da Fundação Abrinq, constatamos que 47,8% das crianças brasileiras vivem na pobreza. Num país tão desigual como o nosso, isso acaba sendo, infelizmente, naturalizado.

O Brasil, de fato, não conseguiu acabar com a desigualdade, o que demandaria não apenas políticas sociais compensatórias, mas sobretudo uma política educacional que assegure que todos aprendam com altas expectativas para cada criança e adolescente. Ou seja, sim, é fundamental que a infância tenha seu direito de estar na escola, mas isso se completa com oferta de um ensino de qualidade voltado à aprendizagem com equidade.

Explico-me: em 1930, tínhamos apenas 21,5% das crianças na então escola primária, quase o mesmo percentual que a Coréia à época. Ocorre que 30 anos depois esse último país já tinha universalizado o acesso e o Brasil ainda patinava com pouco mais de 40%. A maior parte da infância não frequentava os bancos escolares. Foi apenas em meados dos anos 1990 que logramos colocar a todos na escola no Ensino Fundamental 1, para alguns anos depois fazermos o mesmo com os anos finais de Ensino Fundamental. Os jovens terão que esperar mais tempo, pois, embora a grande maioria dos que têm 15 a 17 estejam matriculados, isso ocorre, em certa medida, em etapas anteriores de escolaridade e não no Ensino Médio, etapa correta para a idade. Mesmo assim, o acesso ao Ensino Médio se ampliou, nos últimos anos, de maneira importante.

Temos hoje números gigantescos na Educação brasileira: quase 182 mil escolas de educação básica, 48,5 milhões de alunos e 2,2 milhões de professores. Embora tenha havido uma diminuição de alunos matriculados em estabelecimentos escolares, especialmente dada a transição demográfica, houve aumento no Ensino mëdio tanto em quantitativo total quanto em educação integral, nos últimos 10 anos. A nos preocupar, a esse respeito, tanto a ainda baixa taxa de conclusão quanto a elevada distorção idade-série.

Mas mesmo com o acesso ampliado,  a aprendizagem deixa a desejar. Nas escolas públicas, frequentadas por cerca de 81,4% dos alunos da Educação Básica, quase 55% dos alunos saem do 3º ano de escolaridade analfabetos e sem noções mínimas de Matemática. Embora tenhamos conseguido melhoras importantes no 5º ano, a cada edição da Prova Brasil, no 9º ano, a despeito de certo progresso nas três últimas avaliações, apenas 39,5% têm aprendizado adequado em Português e 21,5% em Matemática. Ou seja, há uma grave crise de aprendizagem que desemboca no Ensino Médio sem que essa etapa logre melhorar a situação.

Quando olhamos mais detidamente os números, a desigualdade de oportunidades educacionais fica patente. Há uma relação direta entre o nível socioeconômico das escolas e o percentual de estudantes com a proficiência esperada. Claro que isso acaba fazendo sentido, mas se aceitarmos esses dados placidamente, estaremos assumindo que a Educação não muda destinos. Quem nasceu pobre, as crianças que mais precisam da escola para superar barreiras, não têm como contar com ela!

Mas certamente isso não depende apenas do professor - depende de boas políticas públicas que tornem a profissão atrativa, para recrutar mais talentos e retê-los nas escolas brasileiras. É preciso também mudar a formação que eles recebem nas Instituições de Ensino Superior, aproximando o conteúdo dos cursos da realidade da sala de aula e, de fato, preparando para a profissão. Diferentemente dos cursos de Medicina, em que desde o primeiro ano o aluno frequenta um hospital universitário de referência, nas licenciaturas e cursos de pedagogia o caráter profissionalizante da formação e o necessário diálogo entre teoria e prática são deixados de lado. É bom lembrar que 46% destes cursos no Brasil são por Ensino a Distância (EaD), em faculdades de qualidade no mínimo questionáveis.

Com professores valorizados e com programas que efetivamente preparem para a profissão, a educação ofertada às crianças pode melhorar muito. Se além disso, como mostra o trio que ganhou este ano o Prêmio Nobel de Economia, Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, se organizarmos programas eficazes de reforço para os alunos com mais dificuldades, diminuímos a desigualdade educacional e podemos construir uma infância em que a pobreza não seja decisiva para defnir destinos.

Afinal, toda a criança tem direito a um bom professor, o fator mais importante para assegurar uma boa educação!

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Cláudia Costin

    Diretora Geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (FGV CEIPE). Integra também a Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização internacional do Trabalho (OIT), das Nações Unidas. Secretária-executiva e Ministra da Administração e Reforma do Estado entre 1995 e 2000. Secretária de Cultura do Estado de São Paulo, entre 2003 e 2005, e Presidente da Promon-Intelligens, empresa voltada para e-learning. Atuou como consultora em políticas públicas e modernização do Estado, apoiando diversos países africanos como Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau Moçambique e São Tomé e Príncipe. Professora universitária, tendo atuado em instituições como PUC-SP, FGV, INSPER e, como professora visitante, na École Nationale d’Administration Publique (Canadá) e Harvard (EUA).

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