Como o open banking muda os serviços bancários?

O sistema bancário aberto (open banking) é um conjunto de normas e ferramentas tecnológicas baseadas em API (da sigla em inglês para interface de programação de aplicação) que possibilita ao consumidor bancário compartilhar suas informações com quaisquer instituições financeiras que desejar.

经济学
07/07/2021
Rafael Schiozer
Pedro G. Gavronski

1 – A lógica do open banking

A informação, ou a falta dela, tem efeitos importante nas decisões financeiras. Por exemplo, os custos de obter informação podem levar produtos semelhantes a ter preços diferentes.[1] Na venda de um carro usado, o vendedor tem mais informação do que o comprador, o que faz com que, mesmo que o veículo esteja em bom estado, o comprador aplique um “desconto” no preço do carro, o que acaba “expulsando” do mercado os melhores produtos, num fenômeno que chamamos de “seleção adversa”.[2]

No mercado de crédito, isso também acontece: o mesmo cliente pode obter taxas de juros diferentes ao cotar empréstimos similares em dois bancos, porque cada banco tem um conjunto diferente de informações sobre ele. Para conseguir taxas melhores, o cliente deve fornecer informações cadastrais que sinalizem sua capacidade de pagamento (renda, histórico de pagamentos anteriores, etc). Entretanto, reunir e enviar essas informações para todos os potenciais  credores é muito custoso para o consumidor.

Ao ofertar serviços financeiros, um banco interage repetidamente com um cliente, e vai acumulando informações relevantes sobre ele ao longo do tempo. Além dos dados cadastrais, um banco “aprende” sobre seu cliente por meio de suas movimentações na conta corrente, investimentos, pagamentos de contas e pontualidade no repagamento de empréstimos. O acúmulo de informação pode se traduzir em taxas e tarifas menores para o consumidor. Por outro lado, ciente de que é dono de um “monopólio de informação” sobre o cliente, o banco pode se aproveitar desta situação, de forma que aquele cliente fique “preso” aos serviços daquele banco[3] (uma vez que outras instituições financeiras cobram mais caro por conta da chamada seleção adversa), diminuindo a competição no sistema bancário e, por consequência, sua eficiência.

O sistema bancário aberto (open banking) é um conjunto de normas e ferramentas tecnológicas baseadas em API (da sigla em inglês para interface de programação de aplicação) que possibilita ao consumidor bancário compartilhar suas informações com quaisquer instituições financeiras que desejar. O princípio básico do open banking é que o dono das informações é o próprio consumidor, e não o banco que as acumulou. A regulação do open banking obriga bancos a implantarem a infra-estrutura tecnológica necessária para que os dados dos clientes sejam compartilhados de forma padronizada, desde que com o consentimento do cliente, facilitando a entrada de novos players.

Esse conceito foi desenvolvido na Inglaterra. Atualmente, nos cinco continentes existe alguma iniciativa de implementação de open banking em andamento, dado o potencial de benef´ıcios para o consumidor.[4] Desde 2019, o Banco Central vem adotando medidas para viabilizar a implementação do open banking no Brasil, que começaram a se concretizar com o início da primeira fase de open banking em fevereiro de 2021.

Com o open banking, os custos de obtenção de informação são reduzidos significativamente, pois todas as informações relativas aos produtos e serviços financeiros são consolidadas em um único local. E ainda, essas informações são padronizadas, o que permite ao consumidor comparar mais facilmente as diferentes ofertas das instituições financeiras, e assim escolher a opção mais vantajosa.

O open banking tem o potencial de mitigar o problema de seleção adversa no mercado bancário. Ao compartilhar os seus dados, o cliente consegue demonstrar sua capacidade de pagamento e permite ao banco monitorar seu comportamento financeiro, permitindo aos consumidores obter serviços melhores a preços menores.

2 – O que muda na prática para os bancos e para o consumidor?

A tecnologia de API do open banking permite que diferentes agentes do mercado interajam com os sistemas das instituições financeiras para iniciar alguma transação ou compartilhar informações, desde que haja consentimento do cliente. Por exemplo, uma pessoa poderia receber propostas de operações de crédito imobiliário a partir do aplicativo de uma imobiliária sem precisar acessar diretamente o ambiente digital do banco.

Nesse novo cenário, os bancos terão que rever as suas estratégias, no sentido de oferecer serviços mais customizados às necessidades dos clientes e o seu posicionamento de mercado, para manter (ou conquistar, no caso de novos players) o reconhecimento da sua marca, o que deve se traduzir em maiores benefícios para o consumidor.

A duração do relacionamento com as instituições financeiras tende a ser menos determinante na oferta de serviços bancários. Manter relacionamentos bancários longos para permitir o acúmulo de informações deixa de ter vantagens tão óbvias para o consumidor.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que o compartilhamento de informações reduz a vantagem informacional que um dado banco tem em relação aos demais sobre seus clientes, nem todo tipo de informação é compartilhável. Informações “estruturadas” (em inglês, hard information) são tipicamente compartilháveis, mas são apenas um dos componentes do relacionamento bancário duradouro. Há estudos que mostram que alguns tipos de serviços financeiros são baseados fundamentalmente em informações não estruturadas (soft information).[5] É o caso dos empréstimos a pequenas e médias empresas, em que o conhecimento profundo do gerente bancário sobre a operação dessas empresas (por exemplo, a saúde financeira de seus fornecedores e clientes) não é transmissível de um banco para outro. Assim, embora seja inegável que o open banking trará uma revolução na oferta de serviços bancários, o conhecimento profundo do cliente ainda será um ativo valioso para os bancos e uma maneira pela qual um banco poderá se diferenciar dos demais, ao possuir informação que não pode ser compartilhada por meio de APIs.

 


[1] A ideia foi desenvolvida no artigo The economics of information, de George Stigler  em 1961.

[2] Essa situação de “assimetria de informação” está apresentada no artigo “The Market for Lemons” de George Akerlof de 1970.

[3] Isso é conhecido na literatura pelo termo “hold-up problem” e foi formulado inicialmente por Raghuram Rajan, no artigo Insiders and outsiders: The choice between informed and arm's length debt, de 1992.

[4] Para conhecer um pouco mais das iniciativas governamentais sobre open banking, e alguns casos de empresas de sucesso a partir do conceito, recomendamos consultar o estudo da TecBan (2021), disponível aqui.

[5] Para mais detalhes, veja o artigo Small business credit availability and relationship lending: the importance of bank organizational structure de Allen N. Berger e Gregory F. Udell, de 2002.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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