Os ataques, a educação e a cultura do medo

Os eventos trágicos ocorreram, em boa parte, a partir da iniciativa de alunos, muitos anunciando a intenção de fazê-lo em redes sociais, para ganhar notoriedade e admiração entre colegas que partilham o mesmo ódio e os mesmos intentos.

公共政策
28/04/2023
Cláudia Costin

O Brasil vem acompanhando, desde o início do ano letivo de 2023, um número grande de ataques a escolas, alguns resultando em mortes de crianças e professores. Depois dos danos à saúde física e mental trazidos pela COVID e pelo prolongado fechamento das escolas, uma situação tão triste como esta não poderia acontecer numa época pior.

Os eventos trágicos ocorreram, em boa parte, a partir da iniciativa de alunos, muitos anunciando a intenção de fazê-lo em redes sociais, para ganhar notoriedade e admiração entre colegas que partilham o mesmo ódio e os mesmos intentos. E a cada feito destes, um novo se adiciona aos anteriores.

Não por acaso, autoridades no país vêm crescentemente usando a expressão epidemia para descrever tais incidentes. Mas o epíteto não está relacionado apenas aos ataques, mas ao desproporcional crescimento de boatos e ameaças e nem está restrito à Educação Básica. Inúmeras instituições de ensino superior tiveram suas aulas paralisadas por notícias plantadas em grupos de WhatsApp de alunos e professores. Há uma epidemia, neste sentido, de “fake news”.

Frente à amplificação de ameaças infundadas, não há como desconsiderar a hipótese de que há interesses escusos no sentido de se criar uma cultura do medo que resulte na demanda por líderes autocratas, como em outros incidentes semelhantes ocorridos ao longo da história, que mais recentemente integram o receituário de Steve Banon.

As causas da “epidemia” são muitas, mas certamente passam pela polarização política e por uma cultura do espetáculo em que que estamos imersos, com agressões gratuitas e manifestações de ódio e preconceito há pouco tempo liberadas pelo aparente anonimato das redes sociais ganhando crescentemente espaço nas ruas e espaços de convívio. É difícil que um clima como esse exista na sociedade mais ampla e não repercuta nas escolas. Afinal, crianças e adolescentes reproduzem, em geral, as atitudes adotadas pelos adultos que lhe são próximos.

Frente a estes ataques, houve, entre os governos municipais e estaduais dois tipos de abordagens: uma centrada na segurança física das escolas e uma segunda chamando psicólogos para identificar e enfrentar problemas de saúde mental dos alunos. No primeiro caso, alguns prefeitos chegaram a instalar câmeras em todas as salas e chamar policiais para se postarem na porta das instituições de ensino. A segunda implementou o que estabelece lei aprovada em 2019 – com a derrubada de veto presidencial – no sentido de dotar as redes de ensino de um núcleo de apoio psicossocial.

Mas, na verdade, as duas deveriam ser complementares e adotadas com bom senso.  Evidentemente, a escola não consegue lidar com problemas desta ordem sozinha. Outras políticas públicas devem apoiar a educação no enfrentamento da violência. Assim, a segurança pública pode e deve atuar para impedir que qualquer ataque ocorra ou que um número maior de professores e alunos seja afetado. Além disso, o monitoramento de redes sociais é naturalmente uma atividade mais afeita à Polícia Federal, como propôs, depois dos primeiros ataques, o Ministro da Justiça , que à equipe escolar. Da mesma maneira, o repasse de recursos para reforçar a ronda escolar, a convocação de porteiros ou seguranças desarmados e o estabelecimento de mecanismos ágeis para o acionamento da polícia também fazem muito sentido.

No entanto, há um monitoramento de sinais que deve ocorrer dentro da escola, acompanhando os alunos e o próprio ambiente escolar, para verificar se os esforços dos educadores em torná-lo mais saudável e harmônico estão surtindo efeitos. É neste sentido que a atuação de uma equipe integrada por psicólogos e assistentes sociais, tal como estabelece uma lei aprovada em 2019, estabelecendo que as redes escolares contem com um núcleo formado por estes profissionais, para capacitar os educadores tanto no diagnóstico como no enfrentamento de disfunções detectadas. Naturalmente, os psicólogos não atuarão no tratamento clínico dos alunos dentro dos estabelecimentos escolares e sim orientar os professores e, se necessário, fazer encaminhamentos a centros de saúde.

Mas há algo que é sim o papel indelegável da escola: educar para a paz, como estabelece o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável específico para a Educação, o ODS 4. Isso envolve uma comunicação não agressiva entre alunos e entre eles e seus mestres, a criação de mecanismos de Justiça Restaurativa dentro das escolas, o desenvolvimento de competências socioemocionais em toda a equipe escolar, enfatizando a empatia e uma educação antirracista e o enfrentamento do bullying.

É importante lembrar que muitos dos que sofreram bullying na escola tendem a desenvolver depressão ao longo da vida, podendo chegar ao suicídio, ou podem se tornar agressores, como ocorreu no caso do ataque à Escola Tasso da Silveira, em Realengo.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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