Pesquisa mostra que fornecedores de siderúrgicas tem baixo nível de adesão a descarbonização

A pesquisa de mestrado analisou estratégias de mitigação de gases do efeito estufa de fornecedores de uma empresa siderúrgica.
管理学
08 十二月 2023
Pesquisa mostra que fornecedores de siderúrgicas tem baixo nível de adesão a descarbonização

As mudanças climáticas já são uma realidade e a pressão nas empresas para adotarem medidas de mitigação nos efeitos dessas mudanças estão cada vez maiores. Frente a essa realidade de mercado, uma pesquisa desenvolvida dentro da FGV investiga a realidade e os motivadores de uma cadeia de fornecedores da indústria siderúrgica, uma das mais poluentes em emissão de carbono.  

A pesquisa de mestrado de Marino Yago Fagundes, que ganhou Menção Honrosa do programa de Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade (MPGC) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), buscou investigar se os fornecedores de uma empresa siderúrgica possuem estratégias de descarbonização e quais seriam os motivadores para adotarem tais estratégias. As emissões advindas da cadeia de suprimentos são relevantes mas ainda vistas como item não obrigatório de mensuração dentro dos protocolos de mensuração de gases de efeito estufa, o que gera uma menor atenção com relação ao tema.   

De forma geral, observou-se que há ainda baixo nível de adesão de estratégias de descarbonização na cadeia de fornecedores estudada, contudo há sinalização de que parte relevante das empresas respondentes estão avaliando ou planejando a adoção de estratégias para o futuro. 

Yago conversou com a FGV detalhando seus resultados de pesquisa e seu impacto para a academia e o mundo empresarial. Confira a entrevista: 

  1. Seu objeto de pesquisa foi “os fornecedores de matérias primas siderúrgicas estão adotando estratégias para descarbonização? Quais estratégias estão sendo adotadas e quais seus motivadores?” Qual caminho te conduziu a essa pergunta? 

Quando entrei no mestrado queria pesquisar outro assunto, mas no meio do caminho percebi que o hot topic da empresa em que trabalhava era outro. Os caminhos estavam todos voltados a discussão de questão climática e descarbonização na indústria siderúrgica, naturalmente muito poluidora. Com essa percepção do mundo empresarial encontrei um gap, pois todos estavam falando de questões climáticas mas não sabiam como fazer, pra onde ir ou exatamente sobre o que se tratava. É extremamente difícil, quando se procura pesquisas para cadeia de suprimentos, encontrar o tema da descarbonização. Tudo é voltado para a própria empresa, pro que ela faz diretamente, mas pra sua cadeia há um gap literário enorme.  

  1. E o que os seus resultados indicaram?  

O primeiro ponto é esse gap na literatura e conseguimos vê-lo refletido no ambiente empresarial. Não temos teoria e também não temos gente atuando empiricamente no assunto. Fizemos uma análise de cluster pra entender qual era a situação dos fornecedores dessa área e encontramos apenas dois tipos de empresa. Eu esperava encontrar vários níveis de desenvolvimento, uma empresa modelo, uma em transição, uma iniciante, por ai em diante. Não foi isso que encontrei, foram só dois níveis: quem era efetivamente iniciante, com algum grau de motivação e intenção para pensar no assunto, mas não tinha governança e nem estratégia implementada. E tem o perfil com um grau mais elevado de motivação, certo nível de governança e que já implementa algum nível de estratégia. Não há um nível intermediário entre quem faz e quem não faz. Isso dentro de um escopo com empresas de todos os tamanhos, desde pequenas até multinacionais. Ou seja, é um tema que ainda está começando a ganhar força no mercado e não temos bons modelos de empresas fornecedoras que tenham estratégias para menor emissão de gases do efeito estufa.  

  1. Quais fatores podem influenciar uma empresa a querer adotar estratégias de descarbonização?  

Na pesquisa vimos que os fatores nacionalidade e a empresa ser de capital aberto ou não são fatores que influenciam. Isso por conta da legislação. Empresas que tinham base na Europa geralmente estavam mais avançadas no assunto porque a Europa está puxando essas discussões a nível mundo e é quem está implementando regulação sobre isso de forma mais intensa. Empresas de capital aberto geralmente são mais reguladas, mais transparentes e eram as empresas que estavam mais engajadas nos dados da pesquisa.  

  1. Quais foram os motivadores que você encontrou para as empresas se engajarem no tema da descarbonização?  

O maior fator de pressão encontrado na pesquisa foram os clientes, ou seja, as siderúrgicas para as quais eles forneciam. Por outro lado, a pressão dos funcionários foi o item que apresentou menor influência. Ou seja, o que o funcionário pensa é pouco relevante para a tomada de decisão no sentido de sustentabilidade, os fornecedores se preocupam mais com a posição do cliente. Junto com os clientes, avaliação interna de riscos e incentivo ou pressão da sociedade apresentaram-se como os fatores mais relevantes. Isso dá um norte do ponto de pressão que tem que ser utilizado para que as políticas se desenvolvam tanto dentro das empresas quanto para as políticas públicas. Acredito que a pesquisa também dê um norte para quem está legislando.  

  1. Estamos começando essa discussão de descarbonização na cadeia de suprimentos, mas quais são os próximos passos?  

A indústria ainda é muito pouco engajada com relação a descarbonização. A pesquisa mostrou que parte do problema é devido a falta de legislação. O Congresso já discute algo sobre regular o mercado de carbono. A Europa já tem um imposto por tonelada por gás de efeito estufa emitido, mas os protocolos de mensuração desses gases geralmente obrigam as empresas a mensurarem o escopo 1 e 2, que dizem respeito aos gases que a empresa emite (1) e que vem da energia que ela gasta (2). O escopo 3, tratado na minha pesquisa, fala sobre a emissão indireta, que vem dos fornecedores e clientes, e geralmente a mensuração é opcional na legislação. A Europa, vanguardista nesta discussão, percebeu que não adianta o escopo 1 e 2 serem obrigatórios e o escopo 3 não. As empresas começaram a mandar operações muito poluentes para outro país cuja regulação não é tão forte e que não entraria na taxação. É o que chamaram de vazamento de carbono e está em discussão um novo protocolo para evitar esse tipo de desvio, em que, independente de onde venha a emissão, ela deve ser mensurada dentro do imposto. Isso vai impactar o mundo todo. Quem não está se preparando vai ter uma surpresa muito desagradável. Porque vai gerar mais custo, vai influenciar a capacidade de exportar produto. A competitividade dos negócios vai ser influenciada se as empresas não estiverem preparadas.  

  1. E o Brasil está preparado?  

Não, muito longe. Apesar de um potencial enorme com a agricultura e as terras que podemos, por exemplo, plantar eucalipto para gerar biomassa e ter energia limpa. Vivemos de energia hidrelétrica, que é limpa e temos mais potencial para a energia eólica. O que o Brasil tem de preparação é orgânico, ninguém se movimentou pra isso, o país já tem esse potencial e agora tem a chance de gerar vantagem competitiva de sustentabilidade. Mas em termos de preparação das empresas, vimos que tudo ainda é muito incipiente. Ainda há muito há ser feito.  

  1. Que dica você dá para o profissional de supply chain nesse cenário?  

O profissional de supply cada vez mais tem que saber um pouco de tudo. Antigamente era sobre logística, distribuição e estocagem. Isso está se ampliando, agora é preciso entender de automação, tecnologia da informação, cadeias globais. Agora, mais do que nunca, o profissional de supply passa a ter a necessidade de ter a capacidade de entender esse cenário de sustentabilidade. Tanto pelo viés do que significa pra a sociedade efetivamente, sua imagem como empresa, mas também por que isso influencia a tomada de decisão do dia a dia. Com novas taxas em cima da emissão de gases de efeito estufa, o fornecedor mais poluente pode ficar mais caro do que o menos poluente que tem um preço maior sobre o produto. Acredito que as certificações que existem de carbono zero podem gerar muito dinheiro a médio prazo para quem surfar nessa onda. Hoje, o profissional precisa entender no que os aspectos de sustentabilidade impactam os negócios e como isso pode se desdobrar em custo pro negócio. São skills que os profissionais ainda não estão habituados.  

  1. O Mestrado Profissional em Supply Chain te ajudou a se preparar mais para esse novo cenário?  

 Ele me deu uma visão muito mais holística da cadeia. Eu vim de duas especializações latu sensu e as duas tinham deixado a desejar, não era o que eu esperava. O mestrado superou as minhas expectativas por unir 3 coisas que acho importante: o conhecimento técnico, com uma visão mais holística da cadeia e dos temas que permeiam a cadeia, inclusive sustentabilidade. Segundo, ganhei uma habilidade de gestão baseada em evidência que falta no mercado. Tem muita gente que toma decisão baseada em feeling. Terceiro, a evolução de soft skills. O nível de networking foi fantástico e as trocas em sala de aula também. O nível de profissionais é muito alto, todos muito interessados em aprender, com uma bagagem prévia que contribui muito.  

Para saber mais sobre o Mestrado Profissional em Supply Chain, acesse o site

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