Na imprensa e na política, o apagamento das mulheres

Apesar de a participação das mulheres na política não ser mais interditada, de termos direito de votar e de sermos votadas, a exclusão permanece. O papel social da mulher sempre esteve ligado à esfera privada, ao lar e à família, enquanto os homens ocupavam a esfera pública.

Comunicação
06/02/2024
Maria Carolina Medeiros

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou no último dia 16/01 uma lei que cria auxílio financeiro para estudantes de ensino médio, de baixa renda, da rede pública. O objetivo é reduzir a evasão escolar por meio de um pagamento mensal para os estudantes e de uma poupança, que poderá ser sacada após a conclusão do ensino médio. 

O projeto é de autoria de Tabata Amaral (PSB-SP). Em seu perfil nas redes sociais, a deputada celebra a aprovação do que chama de “poupança Ensino Médio”. Entretanto, levantamento da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV ECMI) mostra que a maioria dos sites de notícias que repercutiram a sanção presidencial não menciona a deputada: menos de 8% das 1932 menções lhe dão o crédito da autoria.

Muitos destes sites apenas replicam informações dos principais veículos de notícias - reside aí a necessidade ainda maior de pesar a responsabilidade que a grande mídia tem ao noticiar questões relacionadas às mulheres. Os dados mostram que o protagonismo da deputada foi desconsiderado pelos veículos que noticiaram a aprovação do projeto. 

Em que pese não ser possível afirmar que é algo intencional, o resultado converge para uma forma de apagamento da mulher na política. Considerando que mulheres compõem menos de 20% da Câmara dos Deputados, não é coincidência que um projeto tão importante seja aprovado e não seja dado o devido crédito à uma mulher.

Há um pano de fundo histórico, social e cultural que legitima e perpetua uma suposta inferioridade das mulheres em relação aos homens. Para Michelle Perrot, historiadora francesa especializada em história das mulheres, no século XVIII ainda se discutia se as mulheres eram seres humanos como os homens ou se estavam mais próximas de animais irracionais. No século XIX, Charles Darwin acreditava que as mulheres eram intelectualmente inferiores - argumento que foi comumente utilizado para cercear os direitos das mulheres, como o voto, sob a justificativa de que votar demandaria que mulheres não tinham condição de assimilar muita informação. 

Apesar de a participação das mulheres na política não ser mais interditada, de termos direito de votar e de sermos votadas, a exclusão permanece. O papel social da mulher sempre esteve ligado à esfera privada, ao lar e à família, enquanto os homens ocupavam a esfera pública. Essa cultura não muda da noite para o dia. Para se ter uma ideia, a mesma Câmara em que Tabata Amaral hoje atua só passou a ter banheiro feminino em 1987, por pressão das deputadas atuantes no que ficou conhecido como “Lobby do Batom”. No Senado, pasmem, isso só aconteceu em 2016!

Não é coincidência: essa exclusão deliberada, mais a falta de representatividade numérica, somadas aos inúmeros casos de violência na política, servem como “lembrete” de que política nunca foi espaço da mulher. E deixar de noticiar que um projeto tão valioso para a educação tenha sido pensado por uma deputada é mais uma forma de misoginia.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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