G20, assimetrias e oportunidades na IA

Superar a desinformação, a inércia e o medo do futuro são os principais obstáculos a serem enfrentados.

公共政策
22/03/2024
Francisco Gaetani
Virgilio Almeida

A fala do presidente Lula na reunião do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, realizada no dia 7 de março, marcou a entrada da Inteligência Artificial (IA) no topo da agenda nacional e internacional do país. O assunto vem sendo tratado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação por meio da realização de consultas a segmentos da sociedade - academia, empresários, ONGs - e do governo. Ao mesmo tempo, várias universidades brasileiras estão consolidando centros de pesquisa em IA para acelerar sua internalização e disseminação no país.

No governo, vários ministérios estão criando áreas para prospectar possibilidades de aplicação da IA em suas atividades correntes. No setor privado, as empresas cujos setores estão à frente da transformação digital já estão incorporando IA tanto na sua organização quanto nos seus negócios. Na preparação para as reuniões do G20, o tema “Inteligência Artificial’’ passou a ser objeto de crescente atenção em vários grupos preparatórios, dada a visibilidade que o tema adquiriu na dinâmica da geopolítica global.

A hora da IA chegou, no Brasil e no mundo, de forma irreversível e incontrolável. Além dos arranjos que vão se estabelecendo na sociedade e no governo, o Brasil tem uma dimensão fundamental para entrar na era da IA. O país dispõe de imensas bases de dados com diversidade social, diversidade racial, regional e de gênero. Os dados do SUS, Inep, Ibama e IBGE colocam o país numa posição de vantagem competitiva para acelerar as tecnologias de IA.

Muitas são as perguntas que se colocam neste cenário. Como o país pode se aproveitar desta explosão para alavancar seu desenvolvimento? Como a IA pode ser utilizada para alavancar o esforço de inclusão social que vem sendo implementado pelo governo? Como a IA pode intensificar os avanços em políticas públicas, melhorar a qualidade dos serviços de saúde e educação básica, ampliar o ensino médio, elevar a produtividade da economia, melhorar a qualidade do gasto e tornar a exploração dos recursos naturais do país mais sustentável?

A dinâmica do desenvolvimento da IA possui diversos pontos de entrada em diferentes países, em uma assimetria que reflete diferentes interesses regionais. Variam desde interesses econômicos, geopolíticos e de segurança até militares. Um ponto de entrada é o sistema nacional de inovação de uma nação, área em que os Estados Unidos seguem na liderança, seguido de perto pela China. O Brasil possui um arranjo institucional potencialmente competitivo, mas precisa adequá-lo, caso decida avançar para valer nas tecnologias de IA como ferramenta sistêmica de alavancagem do desenvolvimento nacional.

A Europa busca acoplar inovação a uma legislação regulatória avançada, visando a proteção de seus cidadãos e de interesses da região. O segundo ângulo a ser explorado é a educação, isto é, a imediata priorização da incorporação em todas as esferas educacionais de ferramentas de IA, lembrando que a IA pode beneficiar em especial aqueles em desvantagem na pirâmide das competências cognitivas e instrumentais. Um outro aspecto a ser levado em consideração é a propensão da sociedade brasileira a adotar novas tecnologias. Somos “early adopters” para inovações tecnológicas que se mostram úteis e amigáveis.

Uma campanha nacional capaz de alinhar as forças políticas na direção de um salto rumo ao futuro pode trazer benefícios a todos, desde que precauções éticas sejam estabelecidas para garantir inclusão social e proteger os grupos mais vulneráveis aos impactos das novas tecnologias.

O foco na juventude deve ser prioritário. Primeiramente via educação formal, mas também por meio de programas complementares de formação, em parceria com o setor privado e com o terceiro setor. O avanço da IA cria espaço para novas habilidades para os jovens, como multilinguismo, literacia tecnológica, diversidade cultural, novas profissões e envolvimento no empreendedorismo e inovação. No entanto, é importante observar que o potencial da juventude só será realizado se forem estabelecidas condições adequadas de acesso aos recursos tecnológicos e educação de qualidade.

Outro vetor a ser trabalhado é o setor público, nos três níveis de governo e nos três poderes. Esta corrida em que todos podem ganhar já começou, mas pode ser acelerada, como as múltiplas iniciativas em curso tem demonstrado, a despeito de sua pulverização. Uma linha de raciocínio menos óbvia e mais sujeita às indeterminações da esfera internacional diz respeito às possibilidades que o multilateralismo - fragilizado, mas inescapável - e às coalizões envolvendo países emergentes possibilitam. A fragmentação da ordem mundial abre oportunidades importantes, como a Índia vem demonstrando com a valorização das infraestruturas públicas digitais.

As “big techs’’ possuem uma vantagem substancial no que se refere à fronteira tecnológica, mas em se tratando de IA, as necessidades de acesso a dados locais e as regulações nacionais tornam-se elementos de negociação, que países podem usar na busca de acesso às novas tecnologias. Há ainda a possibilidade de se buscar a colaboração internacional com países em desenvolvimento, para a construção de uma infraestrutura computacional compartilhada para desenvolvimento de modelos e serviços de IA.

Todas as hipóteses acima convergem para a priorização da adoção massiva de IA, porque ela se nutre de sua disseminação para sua realimentação. As oportunidades que se apresentam neste momento para o Brasil estão abertas, desde que as forças políticas, sociais e econômicas estejam dispostas a aproveitá-las. São oportunidades para o país procurar o desenvolvimento de tecnologias de IA que valorizem a língua portuguesa e que complementem os humanos e não apenas busquem substituí-los. Trata-se de uma corrida do Brasil a favor de si mesmo, de um jogo ganha-ganha, no qual superar a desinformação, a inércia e o medo do futuro são os principais obstáculos a serem enfrentados.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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