O dia depois da crise - qual sociedade queremos?

A doença expõe o quanto a sociedade brasileira é desigual e como o Estado precisa mudar sua forma de intervir no estímulo econômico

Law
18/05/2020
Gabriel Quintanilha

A pandemia tirou a tarja dos rostos dos brasileiros invisíveis, cuja existência, o Estado desconhecia. Para o pagamento do benefício de R$ 600,00 foi definida pelo governo central a necessidade de regularização dos Cadastros de Pessoas Físicas – CPFs daqueles que estão em sua maioria, sentido a falta de alimentos básicos.

Filas quilométricas e aglomerações se formaram nas portas das repartições da Receita Federal, Brasil afora. Brasileiros que nunca souberam para que servia o CPF precisavam estar regulares para conseguir o mínimo existencial.

Ao perceber o tamanho do problema, a União, com a singeleza de quem desconhece as mazelas sociais, informou que a regularização poderia ser feita pela Internet. Ora, será que o brasileiro que está em desespero pela perda da renda mínima tem acesso à rede computadores? Aliás, será que esse cidadão tem computador ou um moderno celular quando lhe falta comida? É a burocracia brasileira que está acima dos direitos fundamentais.

A doença expõe o quanto a sociedade brasileira é desigual e como o Estado precisa mudar sua forma de intervir no estímulo econômico. É inegável que políticos populistas irão capitalizar com a pandemia e propor a manutenção da renda mínima.

Distribuir dinheiro à população não será a solução. Há necessidade de aumentar a capacidade contributiva do brasileiro. Como percebemos, com vontade política, o orçamento se estica para atender às necessidades.

No período pós crise, precisaremos de um pacto político, econômico e social, para que a saúde seja garantida não somente com leitos hospitalares, mas também com saneamento básico, que não existe em metade dos lares brasileiros. Que a população tenha acesso à educação básica, que influenciará diretamente na higiene e redução da propagação de doenças, além do aumento da riqueza, pois o grau de escolaridade é diretamente proporcional à renda.

A despesa pública necessitará ser equacionada para as novas necessidades, cabendo uma revisão das regalias estatais. Temos a oportunidade de reorganizar a sociedade para que ela seja mais justa.

Com a crise econômica que se avizinha, não há dúvidas de que a população brasileira irá reduzir o consumo, quer seja por não dispor de renda ou mesmo por priorizar a poupança em razão da insegurança futura.

A economia precisará se estimulada com o aumento do déficit fiscal, mas a simples transferência de renda não garantirá o desenvolvimento social da população brasileira. Agora é o momento do Estado investir no povo, criando condições para que ele se eduque e empreenda, gerando bem estar social. Keynes nunca esteve tão presente.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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