Expectativas para a Economia em 2020 Pré e Pós Coronavírus e Perspectivas para 2021

Economics
29/12/2020
Marcel Balassiano

Final de ano sempre é hora de fazer um balanço de como foram os últimos 12 meses, como eram as expectativas, o que realmente ocorreu, e quais foram as previsões que erraram. O ano de 2020 talvez tenha sido o pior momento da humanidade pós-Segunda Guerra Mundial, com mais de 1,7 milhões mortes em quase 200 países, e 80 milhões pessoas infectadas pelo coronavírus.[1] Com isso, tudo que se esperava para este ano, teve que ser revisto. Neste artigo, há uma comparação de como eram as projeções para algumas variáveis macroeconômicas no começo de 2020 (antes da pandemia), e como elas mudaram drasticamente com a crise, até chegar nos números do final do ano. E, no final, há um resumo com expectativas para 2021.

A Tabela 1 mostra como eram as expectativas de mercado, segundo o primeiro Boletim Focus do ano (03/01/20) e o último (28/12/20) para a taxa real de crescimento do PIB, inflação, taxa nominal de câmbio (fim do ano), taxa Selic (também no fim do ano) e resultado primário. Para a taxa de desemprego, foram utilizadas as projeções do FMI, de acordo com o World Economic Outlook do final de 2019 e final de 2020 (reunião semestral, em outubro de cada ano).

No cenário pré-coronavírus, quando a pandemia ainda não era uma realidade no Brasil e na maior parte do mundo (somente na China, onde começou), as expectativas eram de uma continuação do crescimento da economia brasileira em 2020, que vinha desde 2017 se recuperando, de forma lenta e gradual, após a forte recessão entre o segundo trimestre de 2014 e o final de 2016, segundo o Codace. Porém, o quadro todo mudou, e ao invés de termos um crescimento positivo do PIB, a recessão foi (está sendo) forte. Vale ressaltar que a queda do PIB será bem menor do que se esperava em meados do ano. O auxílio emergencial, que beneficiou quase 70 milhões de brasileiros, ajudou que a queda da atividade econômica fosse menor do que se previa. O FMI chegou a prever um recuo de 9,1% da atividade econômica para este ano. As expectativas de mercado nunca foram de um recuo tão forte quanto as do Fundo Monetário Internacional, e o máximo de queda que o Boletim Focus chegou a prever foi um recuo de 6,5% do PIB para 2020. A última Focus do ano prevê um recuo de 4,4% do PIB para 2020, contra um crescimento de 2,3% projetado em janeiro deste ano. Com isso, a diferença é de -6,7 p.p. Uma questão importante é que mesmo sem a recessão mundial de 2020, a década atual (2011-20) já seria a pior década em termos de crescimento econômico dos últimos 120 anos. Caso não tivesse o coronavírus, e o PIB crescesse próximo de 2% neste ano, a década teria um crescimento médio de 0,8% por ano (contra um crescimento anual do PIB de 1,6% nos anos 1980, período conhecido como “década perdida”). Com a forte queda do PIB em 2020, a década ficou estagnada (crescimento médio de 0,2% do PIB, por ano). Ou seja, a crise do coronavírus veio para agravar os nossos problemas antigos de fraqueza da atividade econômica, e não foi a origem deles.

Sobre a inflação, a diferença não ficou tão grande entre o número de janeiro e o número final, de apenas 0,8 p.p. (3,6% e 4,4%, respectivamente em janeiro e dezembro). Porém, a trajetória da inflação durante o ano mudou bastante. A Focus chegou a prever uma inflação de 1,5% para 2020. A inflação acumulada do ano até setembro foi de 1,3%. No primeiro semestre, a inflação média de alimentos, que tem um peso próximo de 15% no indicador total, foi de 0,8% no mês, de acordo com o IPCA. Já nos últimos quatro meses do ano (segundo o IPCA-15, que já temos dados de dezembro), a inflação média de alimentos foi de 2,5% no mês, e fechou em 18,7% no ano. No fim do ano também ocorreu o acionamento da bandeira vermelha patamar 2, com impactos sobre as contas de luz, aumentando um pouco mais as expectativas de inflação deste ano.

Para o câmbio, as expectativas em janeiro eram de fechar o ano de 2020 ( R$ / US$ 4,09) em nível próximo do fechamento de 2019 (R$ / US$ 4,03). Porém, com o aumento do risco por causa da pandemia e seus impactos na economia, com a recessão mundial, além de questões internas, principalmente dúvidas sobre a parte fiscal, levaram a taxa nominal de câmbio a bater quase nos R$ / US$ 6,00 em maio. No ano, o câmbio oscilou entre os intervalos de R$ / US$ 4,00 e R$ / US$ 6,00, com uma média do ano de R$ / US$ 5,15, patamar próximo do esperado para o fechamento do ano (R$ / US$ 5,14).

A taxa básica de juros começou o ano de 2020 no menor nível histórico, em 4,5%, e se esperava que continuasse nesse mesmo patamar. Com a crise mundial, o Banco Central do Brasil, assim como fez a maior parte das autoridades monetárias do mundo, baixou mais os juros. Na reunião do Copom de agosto, a Selic chegou aos 2,0%, e ficou nesse mesmo patamar desde então até a última reunião do ano, em dezembro.

Sobre a parte fiscal, não tinha outra maneira, o déficit teria que ser grande, com aumento da dívida. Isso ocorreu no Brasil e na maior parte do mundo, em função da pandemia. O Brasil voltou a ter déficit primário desde 2014, e continuou em 2020. Mas antes da crise, se esperava um déficit de 1,1% do PIB. Com a forte crise, as expectativas são de que o déficit termine o ano em 11,0% do PIB. Com isso, a dívida bruta, que já vinha crescendo desde 2013, quando era 50% do PIB, e passou para 75% em 2018, já ultrapassou os 90% neste ano. Ou seja, a crise do coronavírus agravou mais ainda a já crítica situação fiscal de antes.

Variável mais importante para a população, a taxa de desemprego que já vinha alta desde a recessão de 2014/16, mas diminuindo nos últimos anos, voltou a subir, como esperado, com a forte crise de 2020. O FMI projetava no final de 2019 um desemprego médio de 10,8% para o Brasil em 2020, taxa que aumentou para 13,4% segundo as últimas projeções.[2]

  

A Tabela 2 mostra as expectativas de mercado para o ano que vem, segundo o último Boletim Focus de 2020. As expectativas são de uma recuperação para a economia, com o PIB crescendo 3,5%. Porém, isso não será suficiente para zerar as perdas de 2020. E, lembrando que o Brasil entrou numa nova recessão em 2020 sem ter se recuperado totalmente das perdas da recessão anterior (2014/16). A inflação deve encerrar o ano que vem em 3,3%, abaixo da meta para 2021 (3,75%). O câmbio no ano que vem deve encerrar num valor pouco abaixo de 2020, em R$ / US$ 5,00, e a Selic deve subir um pouco, com a recuperação da economia, fechando 2021 em 3,1%.[3] O ano de 2021 deve ser o oitavo ano consecutivo de déficit primário, previsto de 3,0%. E, a taxa de desemprego, última variável a entrar e sair da crise, deve ficar numa taxa ainda mais alta que a deste ano, segundo o FMI (14,1%, média do ano). 

Em resumo, este artigo procurou mostrar como eram as expectativas para a economia em 2020 no começo do ano (pré-coronavírus), e agora, no final. E também há um resumo com as expectativas para o próximo ano. Somente com o fim da pandemia, com a produção em larga escala e efetiva distribuição da (s) vacina (s) para a população de maneira geral, idealmente no primeiro semestre de 2021, é que a economia vai poder se recuperar de forma mais sustentada e forte, principalmente o setor de serviços, cujo peso é de 70% na economia brasileira, é o segmento que mais emprega as pessoas e o mais afetado pela crise do coronavírus. 

 


[1] Dados do Worldmeters, até 28/12/20.

[2] Projeções de outubro de 2020.

[3] Como é uma mediana de 106 instituições, o número pode ficar em 3,1%, apesar da Selic mudar de 0,25 p.p em 0,25 p.p.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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