Arquivos em tempos de pandemia: a experiência do CPDOC

A nova metodologia de trabalho provocou uma reformulação na organização de documentos históricos, através da simplificação do tratamento e da liberação de imagens para consulta pública com maior celeridade.

Social Sciences
03/02/2022
Thais Blank
Carolina Alves
Martina Sphor

Já não é mais novidade que a pandemia do COVID-19 alterou as rotinas, processos e modos de trabalhar em todo o mundo. Nos últimos anos descobrimos e aprofundamos novas formas de educar, de se cuidar, de consumir e de se divertir. Com os arquivos não foi diferente. Os longos períodos de quarentena, o distanciamento social, afetaram as instituições arquivísticas de diferentes maneiras. Algumas, interromperam por completo suas atividades por todo o ano de 2020, outras buscaram imaginar e inventar novas formas de tratar, organizar e até mesmo disponibilizar seus acervos. Na FGV CPDOC, trilhamos alguns novos caminhos para enfrentar os desafios colocados pela pandemia.

A Escola de Ciências Sociais da FGV CPDOC possui um acervo histórico constituído por milhares de documentos textuais, iconográficos e audiovisuais que abordam a história política e cultural do Brasil, dos anos 1930 até os dias de hoje. Grande parte desses documentos (cerca de 970 mil) estão disponibilizados online para consulta pública através da nossa base (https://cpdoc.fgv.br/). O pesquisador interessado pode acessar a qualquer momento de seu dispositivo pessoal as imagens, textos, vídeos e entrevistas que compõem o acervo. Em condições normais é possível também fazer pesquisa presencial na Casa Acervo localizada no Rio de Janeiro, mas isso só se torna necessário quando há o interesse específico por algum item documental que ainda não tenha sido disponibilizado online.

Com a realidade digital já incorporada desde o início dos anos 2000 na instituição, o CPDOC se viu em uma situação privilegiada em meio ao cenário pandêmico. A pesquisa, a consulta e o atendimento aos usuários do acervo puderam continuar sem grandes modificações. No entanto, a disponibilização online de um documento é precedida por uma série de processos, invisíveis aos olhos do pesquisador, e que exigem o corpo a corpo com o arquivo, a manipulação direta de cada item documental. Assim, nosso desejo de retornar à materialidade dos arquivos se via confrontado com informações que nos chegavam por diferentes vias e nas mais variadas línguas e que ressaltavam a periculosidade dos documentos, eles também, de certa forma, afetados pelo vírus. Enormes períodos de quarentena, congelamento ou exposição a altas temperaturas eram algumas das sugestões que circulavam no âmbito dos debates arquivísticos e que seriam, talvez, eficazes no combate ao vírus acomodado em superfícies de papel.

Diante de tantas incertezas o CPDOC optou por manter seus profissionais atuando remotamente por tempo indeterminado até que o cenário mostrasse alguma estabilidade. Foi então que a equipe idealizou uma nova forma de tratar seu acervo. Parte das fotografias havia sido digitalizada, mas não se encontrava organizada. Essas fotos, pertencentes ao arquivo pessoal do embaixador Azeredo da Silveira, foram escolhidas para um projeto pioneiro de organização de documentos digitais. O grande desafio do projeto foi a identificação de pessoas, datas e locais dos eventos registrados nas imagens, sem que a equipe tivesse acesso às informações que em geral existem no verso das fotos. Para driblar a falta de informação, foi realizada uma vasta pesquisa no próprio acervo do CPDOC, com o objetivo de obter o conhecimento necessário para descrever cada fotografia. Esse projeto foi inovador porque, além de acontecer integralmente de forma remota, nos permitiu simplificar a metodologia de tratamento de arquivos pessoais, garantindo a liberação de documentos para consulta online em pequenos lotes durante a organização do arquivo. Essas foram estratégias adotadas para estimular a pesquisa mesmo no contexto de isolamento imposto pela pandemia. A nova metodologia de trabalho provocou uma reformulação na organização de documentos históricos, através da simplificação do tratamento e da liberação de imagens para consulta pública com maior celeridade. O pesquisador que acessar essas fotografias poderá nos ajudar com informações adicionais através de uma ferramenta chamada Colabore. Por meio desse projeto foram liberadas para consulta no portal do CPDOC cerca de 3 mil fotografias do arquivo Azeredo da Silveira.

Quase dois anos após o início da pandemia, muitas reflexões surgiram no campo de estudos sobre arquivos. A Escola, pioneira na construção de metodologias de organização de arquivos pessoais no início dos anos 1970 e na digitalização de acervos no início dos anos 2000, saiu na dianteira mais uma vez organizando e tratando acervos à distância, aliando experiência com inovação. Os desafios enfrentados ao longo da pandemia e a atualização de nossas práticas nos levaram a lançar o Seminário Internacional de Arquivos Pessoais: debates contemporâneos, evento online a ser realizado em março de 2022 com patrocínio do Conselho Internacional de Arquivos. O Seminário vem consolidar e trazer luz às práticas desenvolvidas nesses quase dois anos bem como solidificar o debate sobre arquivos pessoais com nossos pares (https://eventos.fgv.br/seminario-internacional-de-arquivos-pessoais-debates-contemporaneos).  

No CPDOC sabemos o exato momento em que nosso mundo nunca mais foi o mesmo. Dia 13 de março de 2020 fomos para a casa e muitos de nós, até hoje, não se reencontraram sem a mediação de uma tela de computador. Desde então, nossa forma de constituir e de estar no arquivo passou por inúmeras transformações. Atualmente trabalhamos presencialmente em regime de escala, voltamos a atender os pesquisadores na Casa Acervo, também em um novo modelo de funcionamento, e nos reencontramos aos poucos com a materialidade dos documentos. No entanto, nesses dois anos aprendemos e desenvolvemos uma nova forma de organizar e disponibilizar o acesso aos acervos, estratégias que foram desenvolvidas em uma conjuntura adversa, mas que nos trouxeram ganhos que não devem ser deixados para trás. No retorno ao manejo presencial, trazemos na bagagem as conquistas dos últimos anos. A missão da FGV CPDOC é conservar o patrimônio documental e fornecer acesso público e gratuito ao seu acervo com a finalidade de fomentar novas pesquisas e compreensões da história contemporânea do país. Em tempos sombrios como os que atravessamos pudemos resistir fazendo aquilo que sabemos fazer de melhor: manter o arquivo vivo e em constante movimento.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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