A desaceleração econômica da China afetará o Brasil?

Um dos principais motivos para a desaceleração da economia chinesa é a sua estratégia no combate à Covid-19. O governo chinês impõe lockdowns bastante restritivos ao sinal de um início de surto localizado.

Economics
28/04/2022
Nelson Marconi

A economia chinesa tornou-se, em algumas décadas, a maior economia mundial. Em 1980, o PIB do país correspondia a 2,3% do PIB mundial, enquanto o dos Estados Unidos equivalia a 21,3%; as mesmas proporções atingiram 18,6% e 15,7, respectivamente, em 2021[1]. É impressionante, para a história econômica mundial, o que ocorreu na China em um intervalo de 40 anos. Não há como supor, hoje, que o cenário econômico chinês não afete as demais economias do planeta.

O Brasil certamente não foge à regra. Em 1989, a China era o destino de apenas 1,8% de nossas exportações; já em 2021, esse percentual correspondeu a 31,2%. [2]É o principal destino de nossas vendas externas. Qualquer alteração no crescimento da economia chinesa afetará a demanda e, por consequência, o preço e a produção daquilo que exportamos a eles.

Os indicadores mais recentes mostram que a China crescerá menos neste ano que nos anteriores. Enquanto em 2021 a economia chinesa cresceu 8,1% em 2021, o FMI estima que este percentual atingirá 4,4% em 2022. Não seria nada mal para os padrões brasileiros, mas no caso chinês, seria uma redução a quase metade do observado no ano passado. O que explica esta previsão de um crescimento mais modesto? Um dos principais motivos para a desaceleração da economia chinesa é a sua estratégia no combate à Covid-19. O governo chinês impõe lockdowns bastante restritivos ao sinal de um início de surto localizado - ainda que o número de casos seja bem inferior ao de outros países e a cobertura vacinal seja, em percentual da população, a quinta maior do mundo - para não sobrecarregar o sistema de saúde do país.  Como resultado, a produção de bens e serviços é afetada, bem como o consumo, a logística e distribuição de tais produtos; a exportação de insumos e produtos acabados para outros países e também a compra de insumos, como os que vendemos para eles, deve se reduzir.

De fato, o volume de nossas exportações para a China caiu 7% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2021; como os preços dos produtos primários que exportamos subiu, o valor de nossas exportações para aquele país elevou-se 12,9% na mesma base de comparação, e assim os efeitos da desaceleração chinesa ainda não são fortemente sentidos por aqui.

Mas, ao mesmo tempo, os dados apresentados acima são um indicativo dos impactos que deverão se intensificar se a recente desaceleração chinesa for confirmada e prolongada pelo restante deste ano: a demanda por nossos produtos já diminuiu (visto a redução no volume exportado), e assim prosseguirá, mas a desorganização das cadeias produtivas, da logística e as restrições ao transporte (os portos chineses também estão operando com capacidade reduzida) impactará a oferta de vários insumos importantes produzidos pelos chineses (como aço, químicos e microeletrônicos, por exemplo), e preços importantes para o processo produtivo dos gêneros alimentícios e demais produtos primários que exportamos continuarão altos, ou se elevarão ainda mais, mesmo com a economia brasileira e mundial operando longe de sua plena capacidade. É o que chamamos, em economês, de choque de oferta. Esse quadro é ainda agravado pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que pressiona os preços de energia e grãos alimentícios. Assim, deveremos ser impactados pela alta dos preços e pela redução no volume de nossas exportações de produtos primários, o que poderá causar, por consequência, uma redução na demanda interna em nosso país.

É importante, de toda forma, chamar a atenção para outros dois pontos nesta análise. O primeiro é que o governo chinês opera segundo uma lógica que é bastante distinta da comumente adotada nas economias ocidentais. Há uma forte participação do Estado no desenho de políticas que possibilitem a reversão desse ciclo de desaquecimento do nível de atividade; só para citar uma única medida, o Banco Central chinês repassará 1 trilhão ao Ministério das Finanças para financiar despesas governamentais. E adotará uma série de outras medidas para reduzir os efeitos do lockdown, como os sistemas fechados de produção (os trabalhadores permanecem morando e trabalhando no mesmo local) e auxiliará empresas que atuem em setores importantes e permaneçam abertas. [3] Por isso, não me surpreenderia se as atuais previsões de baixo crescimento chinês mostrarem-se equivocadas ao final do ano e a economia chinesa apresentar novamente um crescimento robusto.

O segundo ponto para o qual desejo atentar é a composição das exportações brasileiras para a China e suas consequências para a economia brasileira, que ficaram ainda mais evidentes após o início da pandemia. Em 1997, 26% de nossas exportações para a China consistiam em produtos primários (agricultura e setor extrativo mineral). Em 2021, esse percentual atingiu 82%. Já os produtos da indústria de transformação correspondiam a 73% da pauta de vendas para a China em 1997 e a apenas 17% em 2021; além disso, 54% do total de nossas vendas externas de produtos primários, em 2021, foi direcionado à China.[4] Logo, vender primordialmente produtos primários e de forma tão concentrada em nosso principal parceiro comercial não é uma estratégia adequada, nem para nossas contas externas e nem para o desenvolvimento de nosso país. Precisamos vender produtos com maior valor adicionado, mais sofisticados tecnologicamente, e para um número maior de países, de modo a não depender da demanda de uma única economia, se quisermos trilhar o caminho do crescimento chinês. Foi isso que eles mesmos fizeram. Não há como crescermos com essa pauta de exportações e ainda por cima tão direcionada para um único país.


[1] Dados do World Economic Outlook, do FMI, comparando o PIB estimado segundo o critério de paridade do poder de compra.

[2] Cálculos realizados a partir das séries de dados do IPEADATA

[3] Valor Econômico, 20/4/2022.

[4] Cálculos realizados a partir das séries de dados do ComexStat, do Ministério da Economia.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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