O que explica a queda surpreendente da taxa de desemprego no Brasil?

No trimestre encerrado em maio, taxa de desemprego foi de 9,5% da PEA em termos dessazonalizados, menor nível desde o fim de 2015. Composição setorial do PIB, com maior dinamismo de setores intensivos em trabalho, explica isso.

Economics
18/07/2022
Bráulio Borges

Segundo o IBGE, no trimestre encerrado em maio de 2022 a taxa de desemprego brasileira ficou abaixo dos 10% pela primeira vez em muitos anos. Em termos dessazonalizados, essa taxa se situou em torno de 9,5% da População Economicamente Ativa (PEA), configurando a menor leitura desde o final de 2015. Vale lembrar que, na média 1996-2019, a taxa de desemprego brasileira foi de 9,4% (levando em conta os dados oficiais da PNAD Contínua de 2012 em diante, bem como a retropolação da LCA para o período 1996-2011).

Embora sob outras métricas mais abrangentes o mercado de trabalho brasileiro ainda apresente um quadro mais desfavorável do que aquele observado no final de 2015 (ver figura abaixo, obtida em relatório recente da LCA), o fato é que a evolução da taxa de desemprego “tradicional” (número de desempregados em relação à força de trabalho/PEA) tem surpreendido favoravelmente as expectativas dos analistas, ao ter recuado quase 5 pontos percentuais desde meados de 2021.

Buscando ter uma melhor compreensão do que estaria por detrás fenômeno, resolvi atualizar e aprimorar um exercício que apresentei neste blog em setembro do ano passado (aqui), envolvendo a estimação de uma “lei de Okun” simplificada para o caso brasileiro. A “lei de Okun” estabelece uma relação entre a evolução da taxa de desemprego e a dinâmica do PIB.

No exercício feito em meados do ano passado, utilizei dados anuais entre 1996 e 2021 para avaliar porque, até aquele momento, a recuperação econômica brasileira pós pandemia parecia ser uma caracterizada pelo quadro conhecido como “jobless recovery”. Desta vez, optei por realizar um exercício em bases trimestrais, desde 2012 (ano inicial da PNAD Contínua), de modo a ter uma avaliação um pouco mais precisa da evolução conjuntural do mercado de trabalho brasileiro. Vale assinalar que, no final do ano passado, o IBGE revisou todas as séries históricas da PNAD-C desde 2012, com mudanças relevantes, sobretudo em 2020-21, o que dificulta uma comparação direta do exercício que apresentarei aqui com aquele feito no ano passado.

A figura abaixo apresenta essa relação entre desemprego e PIB. No eixo das ordenadas, temos a variação absoluta, em pontos percentuais, da taxa de desemprego dessazonalizada (a qual corresponde à razão entre o número de desempregados e a População Economicamente Ativa, PEA). Estou sempre comparando a média no trimestre calendário com a mesma média um ano antes. No eixo das abcissas está a variação acumulada em 4 trimestres do PIB em volume em termos de Valor Adicionado a Preços Básicos (ou seja, sem os Impostos sobre produtos líquidos de subsídios), ajustada pela variação da População em Idade Ativa (PIA). Esse ajuste do PIB pela PIA é importante na medida em que a taxa de desemprego reflete o balanço entre a demanda por mão de obra (que está associada diretamente ao PIB, já que o trabalho é um dos fatores de produção) e a oferta de mão de obra (aqui aproximada pela PIA, que corresponde a toda a população com mais de 14 anos de idade).

A reta de regressão apontada na figura acima levou em conta o período amostral 2012-2021, embora apresente dados até 2022. Os dados para o 2º trimestre do ano corrente levam em conta a taxa de desemprego efetivamente observada no trimestre encerrado em maio e uma estimativa de variação dessazonalizada de 0,7% do PIB VAPB.

Como pode ser notado na equação que descreve numericamente a Lei de Okun brasileira (no canto superior direito da figura acima), temos a seguinte relação estimada: cada 1% de variação positiva da razão PIB VAPB / PIA leva a uma redução de cerca de 0,65 p.p. da taxa de desemprego ao longo de um ano. É digno de nota o fato de que o intercepto dessa regressão é praticamente igual a zero, indicando que, quando o crescimento do PIB VAPB (“demanda por mão de obra”) é semelhante ao crescimento da PIA (“oferta de mão de obra”), a taxa de desemprego fica relativamente estável ao longo do tempo.

A figura acima aponta que, em 2017-2020, a evolução da taxa de desemprego no Brasil foi bastante coerente com a dinâmica do PIB agregado. Na primeira metade de 2021, parecia se avizinhar um quadro de “jobless recovery” (a taxa de desemprego no 2º trimestre do ano passado estava bem acima do sugerido pela reta de regressão), mas isso foi “corrigido” no restante do ano, com uma queda da taxa de desemprego no 4º trimestre de 2021 (em relação ao mesmo período de 2020) até maior do que aquela sugerida pela variação do PIB / PIA (alta de 3,4% em 2021, com o PIB VAPB variando +4,3% e a PIA, +0,9%).

Esse descolamento favorável da taxa de desemprego em relação ao PIB observado na segunda metade de 2021 se intensificou na primeira metade de 2022. Isso fica ainda mais evidente na figura abaixo, que compara a evolução efetivamente observada da taxa de desemprego em bases trimestrais com aquela estimada utilizando a Lei de Okun apontada acima[1]. Vale notar que a figura abaixo já apresenta projeções para o desemprego via Okun até o 4º trimestre de 2022, admitindo a expectativa mais recente de PIB VAPB do Banco Central do Brasil (+2,0% de alta do PIB VAPB e +1,7% para o PIB a preços de mercado). Dada a lei de Okun “histórica”, seria de se esperar, para um PIB VAPB crescendo 2% neste ano, que a taxa de desemprego encerrasse 2022 em cerca de 11% (0,8 p.p. menor do que aquela observada no final de 2021).

O que explicaria esse descolamento entre PIB e desemprego, sobretudo em 2022?

Um primeiro candidato poderia ser a evolução da taxa de atividade, a razão entre a força de trabalho (PEA) e a PIA – que ainda não retornou para os níveis observados no período imediatamente anterior à pandemia, embora já tenha convergido para a média 2012-2019, como aponta a figura abaixo.

De modo a contornar as oscilações mais conjunturais da PEA/PIA, repliquei o exercício da “lei de Okun” apresentado anteriormente, mas agora utilizando a taxa de desemprego calculada em % da PIA (e não mais da PEA).

Como pode ser notado, o descolamento do 1º trimestre de 2022 é um pouco menor nessa nova versão de Okun, mas o 2º trimestre deste ano continua sendo um “ponto fora da curva”. Ademais, o coeficiente R2 dessa Okun é menor, denotando que as oscilações cíclicas do PIB explicam ao menos parte da variabilidade da taxa de atividade (algo que foi ignorado nesta segunda versão da Okun e que estava implícito na primeira). Portanto, a evolução da taxa de atividade não explica o comportamento mais favorável do desemprego neste ano.

Um outro candidato para explicar a divergência apontada pelos exercícios acima é a composição setorial do PIB, já que a intensidade em mão de obra e a produtividade do trabalho dos setores apresenta elevada heterogeneidade. A figura abaixo compara os pesos dos grandes setores pelo lado da oferta no PIB oficial do IBGE e na População Ocupada, no ano de 2019. Como pode ser notado, há diferenças relevantes em vários casos.

Para ajudar a avaliar o impacto da composição setorial do PIB sobre a evolução do mercado de trabalho, optei por realizar o exercício sintetizado no gráfico abaixo. São comparadas as variações do PIB VAPB oficial do IBGE e aquela resultante das variações dos PIBs de cada um dos setores pelo lado da oferta do IBGE ponderadas pela participação relativa da População Ocupada em cada um deles. Ou seja: ao invés de ponderar a variação em volume de cada um dos setores pelo lado da oferta pelos pesos relativos dados pelo Valor Adicionado nominal do ano anterior (como faz o IBGE no PIB oficial), esse PIB reponderado utiliza os pesos relativos da População Ocupada (em milhões de ocupados) de cada setor para chegar a um PIB agregado.

Como pode ser notado, sob a ótica do emprego “físico” (e ignorando as horas trabalhadas e a evolução da produtividade do trabalho), o PIB brasileiro está crescendo muito acima do PIB oficial desde meados do ano passado – situação oposta àquela observada em 2020. Nos 4 trimestres encerrados em março deste ano, o PIB reponderado pela População Ocupada cresceu 7%, bem acima dos 4,7% do PIB VAPB. Vale lembrar que, em 2021, o PIB VAPB oficial variou +4,3%, contra +6% do PIB reponderado; já em 2020, o PIB oficial variou -3,7%, contra -6,1% do PIB reponderado.

Quando eu utilizo esse PIB reponderado para estimar uma nova versão da lei de Okun (ver figura abaixo), constato que: i) o grau de ajuste da regressão melhora, embora bem pouco (em relação à versão que utiliza o PIB VAPB) e ii) as leituras do 2T21, 3T21, 4T21 e 1T22 já não descolam tanto, em termos absolutos, da reta de regressão. Para o 2º trimestre de 2022, utilizei estimativas trimestrais da LCA para o PIB setorial sob a ótica da oferta. Como pode ser notado abaixo, o dado do 2º trimestre continua descolado da reta de regressão, mas a diferença é bem menor do que nas outras versões da lei de Okun apresentadas anteriormente neste post.

Repeti o exercício feito anteriormente neste post, de construir uma estimativa dinâmica da taxa de desemprego brasileira a partir da equação estimada para a Lei de Okun, mas agora usando essa nova versão, com o PIB reponderado pela População Ocupada. O resultado desse exercício é apresentado abaixo. Vale notar que utilizei as projeções setoriais de PIB do BCB mais recentes (publicadas no Relatório Trimestral de Inflação de junho) para construir a projeção para a taxa de desemprego até o 4º trimestre de 2022 (a autoridade monetária projeta uma alta de 2% do PIB VAPB neste ano; em termos do PIB setorial reponderado pela População Ocupada, a projeção do BCB aponta uma alta de +2,9%). A aderência da estimativa de desemprego gerado por essa lei de Okun é claramente superior àquelas das demais versões e ela sugere uma taxa de desemprego próxima de 10,8% no último trimestre deste ano (em termos dessazonalizados).

Com efeito, à luz da análise apresentada nos parágrafos anteriores, é possível apontar que parte relevante da surpresa quanto à evolução da taxa de desemprego brasileira neste ano de 2022 pode ser explicada pela composição setorial do PIB nos últimos trimestres, com os setores mais intensivos em mão de obra e com menor produtividade do trabalho apresentando maior dinamismo.

De fato, 55,6% do fluxo de novas ocupações criadas nos últimos 12 meses (ou seja, 5,21 milhões de um total de 9,38 milhões, na comparação mai-mar/22 vs mai/mar/21) adveio dos segmentos de Comércio, Construção Civil, Outros Serviços e Serviços Domésticos – que também são aqueles com as menores produtividades do trabalho e salários médios dentre os grandes setores. A título de comparação, no acumulado de 2017 a 2019 esses mesmos setores foram responsáveis por 49% do fluxo de novas ocupações geradas no Brasil. Em 2013 (ano imediatamente anterior à recessão de 2014-16), tais setores responderam por 15% das ocupações criadas. Essa composição setorial do emprego desde meados de 2021 ajuda a compreender por que, a despeito da taxa de desemprego ter recuado quase 5 p.p. nesse ínterim, o rendimento médio real caiu expressivamente no mesmo período, atingindo os menores níveis desde 2012[2].

Feita essa análise sobre os determinantes da evolução recente do mercado de trabalho brasileiro, um outro questionamento que emerge diz respeito a qual seria o grau de ociosidade do mercado laboral doméstico. Já estaríamos no pleno-emprego, uma vez que a taxa de desocupação praticamente convergiu para sua média de longo prazo? Ou não, olhando-se para a evolução dos rendimentos, do Custo Unitário do Trabalho e o percentual ainda bastante elevado de subocupados (ver figura abaixo)? Algumas mudanças estruturais relativamente recentes, como a reforma trabalhista aprovada em 2017, podem estar afetando as condições de equilíbrio do mercado de trabalho brasileiro? Vou explorar esse tema em mais detalhe em um próximo post, no qual apresentarei minhas estimativas atualizadas da chamada “taxa natural” de desemprego brasileira.

[1] Trata-se de uma estimativa “dinâmica”, tomando por base a taxa de desemprego efetivamente observada no 1º trimestre de 2012 (em termos dessazonalizados), acrescida, a partir de então, pela variação estimada a partir da equação apresentada acima, levando em conta a variação efetivamente observada da razão PIB / PIA.

[2] A forte queda real, de mais de dois dígitos, do rendimento médio real do funcionalismo público também é outro fator importante para explicar essa queda do rendimento médio real agregado desde meados do ano passado.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Blog do IBRE em 06 de junho de 2022.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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