Pesquisadora do IBRE acredita que afrouxamento de crédito anunciado pelo BC é medida acertada

Institutional
01 December 2011

No último dia 11, o Banco Central (BC) anunciou medidas de estímulos de crédito para o consumo. Um dos focos está no setor automobilístico que vem sofrendo baixas, nos últimos meses, junto com a indústria. Mas, há controvérsias neste caso quando se percebe o aumento do endividamento das famílias brasileiras que desde 2008 subiu 80,7%, segundo o próprio BC, mesmo sem deixar de considerar o salto na renda da população. Silvia Matos, economista do IBRE/FGV, acredita que tal afrouxamento de crédito foi feito depois que o BC percebeu que poderia ter ?errado na mão? no fim do ano passado quando anunciou medidas macroprudenciais para tentar conter o crédito e, consequentemente, a demanda que estava crescendo a níveis elevados, gerando pressões inflacionárias. ?Agora, com a economia desacelerando fortemente, chegando, provavelmente, à estagnação no final de 2011, o BC tem olhado para esse ponto e pensado em ações para estimular um pouco a economia, de maneira pontual, naqueles créditos de médio prazo, que costumam ter mais garantias e menos inadimplência.?, diz Silvia. Dentre as medidas tomadas pelo BC estão a queda da exigência de capital para financiamentos de veículos (com prazo de até 60 meses) com baixo valor de entrada de 16,5% para 11% ou 8,25% para ?operações de varejo?; a redução das exigências que encareciam o crédito com desconto na folha de pagamento (consignado) pelo prazo entre 36 e 60 meses e no caso do crédito pessoal (CDC) a flexibilização dos financiamentos entre 24 e 36 anos, que voltam para as regras anteriores. Mas, em contrapartida, o BC limitou ainda mais as regras para os prazos maiores que 60 meses em todas as concessões de créditos aumentando a exigência de capital de 16,5% para 33%.  Ainda assim a economista não vê uma mudança de direção repentina na política monetária do país. ?Acho que o BC está testando possibilidades para um equilíbrio econômico, mas não há nenhuma postura de que o crédito será expandido generalizadamente. Ainda não vejo no Brasil nenhuma bolha de crédito, o mercado de trabalho ainda está bom, mesmo dando sinais de que mais para frente pode enfraquecer e com a confiança do consumidor diminuindo. Mas de qualquer forma, parece que o governo fez a opção de estimular bastante o consumo em detrimento aos investimentos e isso faz com que a economia cresça potencialmente menos?, pondera.  As incertezas no cenário econômico externo também significam mais cautela na tomada de decisões internas. Hoje, o país vive situação um pouco diferente do que a de antes da crise de 2008, se desenvolvendo menos. Por isso, o objetivo é estimular a economia e, ao mesmo tempo, tentar fazer com que a inflação convirja para o centro da meta (4,5%) em 2012. ?Devemos ter atenção ao crédito por dois lados: o do consumidor, pelo maior risco da tomada desse crédito à medida que ele não sabe se terá ou não emprego no ano que vem e dos bancos que ficam também mais inseguros em emprestar. Sabendo que há mais possibilidades de calote, ele toma precauções e assim, não repassa a baixa da taxa básica para o contratante?, diz. Para Silvia, a principal questão que vem sendo discutida pelos economistas é se o BC vai continuar baixando a Selic, mesmo com a política de crédito. Ela aposta que sim, mas ?tudo vai depender de como a economia nacional e do mundo irá se comportar no primeiro trimestre de 2012. É como se lá fora todas as ferramentas usadas para evitar a crise estejam se esgotando. No Brasil ainda há espaço para manobras devido aos nossos juros altos e espaço para crédito, porém, eu diria que em médio prazo é importante pensar nessa composição, se a gente vai viver em função do consumo ou não. O correto é deixar a taxa de juros mais baixa para estimular o investimento, mas com a inflação sob controle?, destaca. No bolso do consumidor ? Que o BC vem reduzindo a taxa básica de juros com certa frequência nos últimos meses tem se percebido, mas será que isso é sentido no bolso das pessoas na hora de tomarem empréstimos? Nem tanto. Segundo a economista do IBRE os fatores que contribuem para o elevado spread bancário ? diferença entre as taxas de juros que as instituições financeiras pagam na captação do dinheiro e os que elas cobram aos clientes ? visto no Brasil são as altas cargas tributárias cobradas pelo governo e a dificuldade de traçar um perfil que diferenciasse o bom (conhecido como ?AAA?, nota também utilizada pelas agências de crédito para classificar países) do mal pagador, pois a inadimplência desses faz com que os bancos tomem mais riscos e, por isso, precise de mais garantias. Um das soluções para isso seria o chamado Cadastro Positivo, espécie de banco de dados criado pelo governo federal às instituições financeiras que pode premiar os ?AAA? (tanto pessoa física quanto jurídica) com juros mais baixos no crediário. A medida foi sancionada, com vetos, pela presidente Dilma Rousseff em junho passado e já está em vigor, porém, por ser recente, ainda não é utilizada frequentemente.  Na série histórica de 2000 a 2011, o menor spread bancário é o do crédito pessoal para automóveis, que ficou em 17,98% no último mês outubro frente aos 42,8% na aquisição de outros bens, ainda segundo o BC. Além das causas acima, também há um problema microeconômico. ?Tem vários bancos que preferem reduzir a carteira de crédito e manter os juros quando há incertezas no contexto econômico. Quanto maior a garantia menos é o valor da diferença do spread?, observa.  Mesmo que haja alguma redução nos juros, o ideal, segundo Silvia, é evitar os empréstimos, algo que se tornou hábito relativamente novo dos brasileiros. ?As pessoas usam o cheque especial como se fosse uma reserva, um dinheiro que eles têm e os juros são absurdos. É preciso ensinar ao brasileiro a não se endividar, mesmo com as propostas convidativas que são oferecidas. Principalmente, os mais pobres que geralmente possuem baixa escolaridade não pensam em quanto irão pagar de juros e sim se cabe no orçamento?, conclui. 

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