Covid-19: Cenário de retomada da economia chinesa ainda é muito incerto, diz pesquisador do FGV IBRE

Segundo o pesquisador do FGV IBRE, Livio Ribeiro, no primeiro bimestre de 2020, todos os 41 setores industriais chineses registraram resultado negativo, com exceção de refino e material nuclear. O choque na atividade tampouco se concentrou em Hubei, epicentro da crise, tendo afetado todas as 31 províncias chinesas
Economia
26 Março 2020
Covid-19: Cenário de retomada da economia chinesa ainda é muito incerto, diz pesquisador do FGV IBRE

Os sinais de estabilização da primeira onda de contágio pelo coronavírus na China, ainda que positivos, são insuficientes para reduzir a dispersão das estimativas para a evolução da atividade econômica chinesa este ano ou traçar o perfil dessa retomada, afirma Livio Ribeiro, pesquisador da Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) à Revista Conjuntura Econômica.

Para ilustrar esse grau de incerteza, Ribeiro avaliou três possíveis cenários de retomada: em "V curto", com choque concentrado no primeiro trimestre e posterior volta ao ritmo usual; "V longo", com o choque durando dois trimestres e retomada ao normal na sequência; e uma retomada em "U", com o choque se prolongando até o fim de 2020, com sinais mais fortes de retomada somente em 2021. Além disso, calibrou os resultados de acordo ao desempenho das atividades econômicas observados no primeiro bimestre, projetando dois outros cenários, igual ou mais benigno, para março.

"Esse exercício resultou em variações para o PIB de 2020 que vão de 2,7% a -11,3%. É uma dispersão muito grande", afirmou, reforçando a dificuldade de traçar estimativas no atual momento.

No primeiro bimestre, todos os 41 setores industriais chineses registraram resultado negativo, com exceção de refino e material nuclear. O choque na atividade tampouco se concentrou em Hubei, epicentro da crise, tendo afetado todas as 31 províncias chinesas. Os indicadores de atividade do setor de serviços no país (PMI calculados por NBS e Markit/Caixin) também demonstram queda expressiva, entre 26,5 e 29,6 pontos em fevereiro, o mesmo acontecendo com as vendas no varejo.

"Já a taxa de desemprego saltou de 5,3% para 6,2%. Parece pouco, mas representa quase quatro desvios padrão em pouquíssimo tempo, numa economia em que essa taxa se apresentava em patamar historicamente estável", diz.

Ribeiro ressalta que alguma recuperação já pode ser observada em dados de alta frequência, ainda que de forma tênue e heterogênea. "No início de março, o setor imobiliário recuperou-se um pouco e registrou 47% da atividade que tinha em janeiro. E o setor de carvão, 70%", diz.

No dia 11 de março, o presidente Xi-Jinping autorizou a retomada da atividade em indústrias em Wuhan. Na capital de Hubei, o fim do confinamento radical deverá acontecer dia 8 de abril; nas demais cidades da província, as restrições de confinamento acabarão a partir desta quarta-feira (25), para pessoas consideradas saudáveis.

"Resta saber como a segunda onda de contágio afetará esses planos, e como o setor de serviços irá responder, já que é o mais afetado, e representa 54% do PIB chinês", afirma Ribeiro, ressaltando que  nenhuma outra crise no país contou com o mesmo impacto na renda disponível observado hoje – resultante de um alto grau de endividamento da população, somado à dificuldade em buscar emprego –, além de um setor bancário envolvido em problemas de intermediação financeira.

A Revista Conjuntura Econômica é uma publicação editada pelo FGV IBRE. Para mais informações, acesse o site.