Relações Internacionais

FGV na COP 30: desafios centrais da COP30 revelam lacunas críticas na agenda climática global 

Análise destaca falhas de ambição, implementação, financiamento, adaptação e produção de combustíveis fósseis que colocam à prova a capacidade do regime climático internacional 

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Chuva pesada com raios sobre a cidade

Com a COP30 já em andamento em Belém, análises recentes apontam que o regime climático global enfrenta um conjunto de lacunas estruturais que desafiam o cumprimento das metas do Acordo de Paris. Em artigo publicado no Valor Econômico, os pesquisadores Guarany Osório e Guilherme Lefèvre, do Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces), apresentam um diagnóstico aprofundado dessas insuficiências e os caminhos necessários para superá-las. 

O ponto de partida é a discrepância entre os compromissos nacionais e a trajetória necessária para limitar o aquecimento global a 1,5°C. As avaliações mais recentes da UNFCCC mostram que, embora as novas NDCs apresentem avanços, ainda não há escala suficiente para reverter a tendência de aumento das emissões globais. O Relatório de Lacuna de Emissões do PNUMA reforça esse quadro ao estimar que as políticas atuais colocam o mundo em rota de aumento de temperatura entre 2,3°C e 2,8°C, mesmo com implementação total dos compromissos.  

Outro gargalo relevante diz respeito à produção de combustíveis fósseis, que segue desalinhada dos limites climáticos. Projeções mostram que, até 2030, os níveis planejados ultrapassam em 500% o volume de carvão, 31% o de petróleo e 92% o de gás compatíveis com a meta de 1,5°C. A persistência desses planos contraria compromissos assumidos e evidencia a distância entre ambição e política energética real.  

A lacuna de financiamento climático também permanece significativa. Na COP29, foi firmado o Novo Objetivo Coletivo Quantificado (NCQG) de US$ 300 bilhões por ano após 2025, valor considerado insuficiente diante da demanda de países em desenvolvimento, estimada em US$ 1,3 trilhão por ano. A arquitetura financeira internacional continua fragmentada e lenta, com forte dependência de instrumentos de dívida. O recém-lançado Mapa do Caminho de Baku a Belém propõe uma agenda estruturada para ampliar recursos e priorizar adaptação, perdas e danos e transições justas, mas seu sucesso dependerá de compromissos concretos.  

No campo da adaptação, a diferença entre necessidade e oferta é ainda maior. Países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 a 365 bilhões por ano até 2035, enquanto o financiamento público internacional somou apenas US$ 26 bilhões em 2023, segundo o PNUMA. A meta de dobrar recursos até 2025, estabelecida no Pacto de Glasgow, está distante.  

Outro ponto crítico é a urgência de integrar florestas e ecossistemas ao centro da agenda climática. A proposta brasileira de lançamento do Tropical Forest Forever Facility (TFFF) na COP30, com aporte inicial de US$ 1 bilhão, busca oferecer pagamentos previsíveis a países que mantêm suas florestas em pé. Para atingir escala global, estima-se a necessidade de mobilizar ao menos US$ 125 bilhões. A ausência de uma estratégia internacional robusta segue limitando a efetividade dessas iniciativas.  

A análise identifica, assim, cinco grandes lacunas que desafiam a COP30: 

  • Ambição inadequada dos compromissos climáticos
  • Distância entre ambição e implementação
  • Desalinhamento entre metas climáticas e produção de combustíveis fósseis
  • Insuficiência de financiamento
  • Falta de escala e integração nas ações de adaptação 

Para os autores, a COP30 representa um teste decisivo para o multilateralismo e para a capacidade dos países de transformar promessas em ações concretas. A presidência brasileira propõe um “mutirão global” para reforçar o regime da UNFCCC, conectar a agenda climática à vida real das pessoas e acelerar a implementação do Acordo de Paris. O sucesso da conferência — em um cenário de crescente fragmentação geopolítica — dependerá da articulação entre governos, setor privado e sociedade civil, bem como da consolidação de meios de implementação eficazes e duradouros.