Institucional
17 Novembro 2011

Desfazendo mitos sobre a educação a distância - artigo de Stavros Panagiotis Xanthopoylos

O jornal Folha de São Paulo publicou, em sua edição do dia 10 de novembro, editorial intitulado "Muito a aprender", no qual o veículo se debruçou sobre os dados do Censo da Educação Superior de 2010, divulgados pelo MEC no dia 7/11, e teceu comentários sobre as deficiências que ainda assombram o ensino em nosso país, especialmente no que diz respeito à qualidade. Em determinado momento do texto, o veículo afirma que "a questão da qualidade costuma ser ainda mais precária" na educação a distância.

Como diretor executivo do programa de educação a distância de uma das mais importantes e renomadas instituições de ensino do Brasil e do mundo, a Fundação Getulio Vargas, e na condição de vice-presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), causou-me profundo espanto ler, em um jornal reconhecido por sua seriedade, uma generalização totalmente inadequada e desinformada sobre a qualidade da educação a distância no país. O veículo perdeu, com isso, a oportunidade de desfazer mitos e esclarecer enganos históricos sobre as diretrizes e os padrões que guiam a oferta de cursos a distância no Brasil.

Ignorando um dado importantíssimo "o resultado superior obtido pelos alunos da EAD no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), em relação aos estudantes de cursos presenciais, conforme levantamento apresentado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 2007" a Folha de São Paulo contribuiu para reforçar erros conceituais que ainda fazem do ensino a distância um alvo preferencial de críticas equivocadas e preconceitos quando o tema da educação superior está em discussão.

O veículo ignorou, também, o papel primordial da EAD na democratização do ensino de qualidade em um país de proporções continentais, em que ainda persistem "apesar de todos os esforços empreendidos nas últimas duas décadas" deficiências no que diz respeito às políticas voltadas para educação e qualificação profissional. Bastaria um olhar despido de noções pré-concebidas para tomar conhecimento, por exemplo, do alcance exemplar da EAD em áreas historicamente carentes de instituições de ensino presencial de qualidade, nas regiões Norte e Nordeste do país "reconhecidamente, pelo sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), programa que reúne universidades públicas de todo o país, voltado para a interiorização da educação superior por meio da EAD, e que atende, primordialmente, professores, dirigentes, gestores e trabalhadores do ensino básico dos estados, municípios e do Distrito Federal, além do público em geral.

A questão da qualidade da educação no Brasil não pode ser transformada em uma guerra entre modalidades, especialmente em um momento em que ensino presencial e ensino a distância têm, cada vez mais, caminhado em conjunto, complementando um ao outro e ampliando o alcance da oferta de conteúdos educacionais. Quando a discussão toma esse perigoso rumo, ela ocorre às custas e em prejuízo de um importante e urgente debate sobre o atual cenário vivido pelo Brasil: o do apagão de mão de obra, tornado cada vez mais evidente pelos programas de melhoria de infraestrutura do país com vistas aos grandes eventos esportivos que iremos sediar nos próximos anos. Em um momento especialmente delicado e decisivo para nosso desenvolvimento como nação, a qualidade da educação deve ser pensada sem bandeiras ou ideologias, para que não ignoremos o fato de que instituições e ensino precários são males universais, que não atingem preferencialmente esta ou aquela modalidade de educação.

Stavros Panagiotis Xanthopoylos
Diretor Executivo do FGV Online e Vice-Presidente da ABED